8 Nov, 2016

Ansiedade antes da subida ao palco é tratamento para atores do Júlio de Matos

A ansiedade marca os dias que antecedem a estreia de uma peça, mas para o Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos é mais uma oportunidade para trabalhar algumas questões que levaram estes doentes a procurar tratamento

A ansiedade marca os dias que antecedem a estreia de uma peça, mas para o Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos é mais uma oportunidade para trabalhar algumas questões que levaram estes doentes a procurar tratamento.

O grupo sobe ao palco na quarta-feira, com a peça “Torcicolo”, de João Silva. Os atores são doentes em tratamento neste hospital, que pertence ao Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa.

Isabel Cristina Calheiros, terapêutica ocupacional que trabalha há 25 anos com este grupo, disse à agência Lusa que os dias que antecedem a estreia de uma peça são oportunidades “para trabalhar questões como a ansiedade”.

“Perceber como nos acontece, como reagimos sob pressão: disparamos para o lado? Começamos a chatear os outros, somos agressivos, dá-nos para chorar, para comer? Ao tomarmos consciência de como reagimos nestas situações, podemos aprender a gerir isso e a tomar as rédeas, não nos deixando dominar pela ansiedade”, adiantou.

Na base de “Torcicolo” está a discussão que foi lançada inicialmente ao grupo para partilha: as emoções.

“Passámos por uma série de emoções que o grupo escolheu, da raiva ao medo, da felicidade à tristeza. Depois, associado a isso, vieram as ideias de suicídio, as depressões profundas por que passaram. Nestas reuniões, as pessoas partilham os seus sentimentos”.

Foi a partir destes conteúdo que o encenador e dramaturgo João Silva escreveu a peça.

Sobre os doentes, Isabel Cristina Calheiros explicou que são pessoas que, a dada altura da sua vida, tiveram uma doença mental que se revelou e iniciaram um processo terapêutico.

“Num dado momento desse processo terapêutico, o seu psiquiatra ou psicólogo achou que seria importante nesse momento participar num grupo terapêutico”, disse.

Isabel Cristina Calheiros explicou que parte do trabalho passa por preparar os doentes para os sentimentos que chegam com o final da peça.

“Tentamos que, a seguir à peça, seja mais uma oportunidade para refletir sobre as coisas e sobre como cada um esteve neste processo e o seu impacto na vida de cada um”, adiantou.

“Depois começamos a pensar noutro projeto, o qual até pode demorar mais de um ano”, frisou.

João Silva sublinha a importância deste trabalho e, sobre o tipo de problemas que estão na origem da procura de uma terapêutica, limitou-se a afirmar: “São pessoas”.

Em relação à peça que estreia na quarta-feira e que pode ainda ser assistida na quinta-feira e no sábado, João Reis disse resultar da observação de algumas sessões terapêuticas – nem todas são presenciáveis – e que trata de sentimentos.

João Silva é desde 1968 encenador do Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos, fundado no mesmo ano.

LUSA

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