“A Medicina pode, deve e continuará seguramente a ser humanizada”

Uma das maiores questões levantadas pela evolução tecnológica e digital na saúde prende-se com a desumanização da relação entre médico e doente. Daniel Ferreira, médico cardiologista, esteve à conversa com o SaúdeOnline e tentou desmitificar esta ideia.

Daniel Ferreira foi um dos orados convidados para a conferência “Medicina Humanizada num Mundo Digital”, organizada pela Astellas, que se realizou no mês de outubro.

 

“Tradicionalmente, a relação médico/doente era isso mesmo: médico e doente apenas”, começa por dizer. Ao longo dos anos, médico e doente estabeleciam uma relação direta. O desenvolvimento tecnológico veio trazer novos intervenientes para esta relação, nomeadamente, o computador. “Hoje, com a informatização do processo clínico, aquilo a que chamamos de Electronic Health Records, nós temos informação mais estruturada e mais acessível. Isso veio facilitar bastante o acesso à informação”, afirma Daniel Ferreira. “Todos nos lembramos ainda do tempo em que, para consultar o processo clínico, tínhamos de o requisitar. Havia um arquivo onde estavam milhares de processos apinhados uns em cima dos outros. A informação não estava imediatamente disponível”, conta.

“O que aconteceu com isso é que passou a haver ao mesmo tempo um terceiro interveniente nas consultas. Além do médico e do doente, há também o computador onde o médico tem de fazer os seus registos”, diz o cardiologista, que defende que a presença deste novo elemento não tem de ser interpretada como algo negativo. “A tecnologia é uma ferramenta que nos ajuda. Vai sempre interferir, mas pode ser positivamente”, defende. Daniel Ferreira afirma que a tecnologia só vem facilitar e agilizar a recolha dos dados do doente, deixando então mais tempo para que exista a tal relação médico/doente mais humanizada. Contudo, este terceiro interveniente pode ser mal interpretado pelos doentes que muitas vezes se queixam que o seu médico mal tirou os olhos do ecrã. “É apenas uma ferramenta”, insiste o médico cardiologista.

Os doentes estão a mudar

À disposição de todos, estão hoje em dia, os chamados gadgets com as mais variadas funcionalidades. A saúde não foge à regra. Relógios que recolhem dados da frequência cardíaca, da pressão arterial, entre outros, são acessórios cada vez mais utilizados. “Os doentes estão a mudar. Já não são passivos, já não é o que o ‘senhor doutor disser’. Eles querem partilhar a gestão da sua doença, querem recolher informação e fazer os seus próprios Personal Health Records”, afirma Daniel Ferreira. O médico conta ser muito frequente os doentes usarem essa tecnologia e confrontarem os médicos com esses dados. “E não se pode ver isso como uma ameaça”, defende.  Na sua ótica, os médicos devem acompanhar a tecnologia e, muito importante, testá-la e validá-la. A partir do momento em que determinado gadget for validado, Daniel Ferreira não vê razões para não o utilizar.

“A tecnologia que os doentes usam eles próprios deve ser abraçada pelos profissionais de saúde como mais uma ferramenta, só que em vez de estar do lado do médico, está do lado do doente”, diz Daniel Ferreira.

Defender a utilização da tecnologia não implica acabar com a relação humana entre médico e paciente. “A medicina pode, deve e continuará seguramente a ser humanizada. Aqueles que a não fizerem humanizada vão ficar pelo caminho”.

SO/Sara Fernandes

 

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