Qual é a melhor altura para vacinar contra a gripe?

É no início da época de vacinação. Quanto mais cedo melhor porque a vacina tem mais eficácia. De preferência as pessoas devem ser vacinadas entre o fim do Outono e o início do Inverno. É verdade que o pico da gripe não acontece agora e por isso as pessoas podem vacinar-se até ao fim do ano civil.

Normalmente o pico da gripe verifica-se em janeiro.

Exato. É por isso que é importante a vacinação até final de dezembro. A vacina demora, pelo menos duas semanas a produzir anticorpos, e, portanto, convém que esteja a fazer efeito antes do pico (em janeiro).

Os profissionais de saúde são um dos grupos com recomendação para se vacinarem. Porque é tão importante a vacinação neste grupo?

Principalmente para proteger os utentes. Se tivermos gripe, a probabilidade de contagiar os utentes é muito maior. A ideia é protegermo-nos a nós também (porque estamos muito mais expostos ao vírus nos estabelecimentos de saúde) mas, sobretudo, proteger os utentes.

Apesar disso, só metade dos profissionais de saúde costuma vacinar-se. Porquê?

As pessoas desvalorizam a gripe. Acham que não vale a pena vacinarem-se por não terem historial de infeção, por acharem que é uma infeção menos importante. Os profissionais de saúde têm de perceber que, ao lidarem com pessoas que podem ter doenças crónicas e uma maior suscetibilidade de ter uma gripe (e, eventualmente, uma gripe grave), têm uma responsabilidade acrescida. Tudo o que pudermos fazer para minimizar o risco dos utentes é importante.

 Qual pode ser o impacto da gripe no doente crónico?

Depende da doença crónica. Pode até ser fatal, porque o risco de complicações é maior. Pode deixar sequelas, levar a internamentos prolongados, pode facilitar a sobreinfecção bacteriana. Portanto, estamos a falar de uma taxa de complicações que pode ser elevada. Todos os anos morrem pessoas com gripe.

Quais os doentes crónicos que são mais afetados pela gripe?

Doentes pulmonares crónicos, crianças com doença pulmonar crónica, alguns doentes neurológicos (doenças neuromusculares, doenças degenerativas com compromisso da função respiratória), que dificultam a limpeza das vias aéreas; doentes imunodeprimidos; doentes com cardiopatias; doentes renais crónicas; doentes transplantados. Quase todas as doenças crónicas acarretam mais risco.

De que forma a gripe pode exacerbar a doença crónica?

Pode descompensar a doença de base. Nalguns casos, a própria gripe pode assumir uma maior gravidade: estou a pensar na imunodepressão e no atingimento da função respiratória, pulmonar, por exemplo. Portanto, pode, não só descompensar a doença de base, mas também acarretar uma maior gravidade da própria gripe.

As crianças e as grávidas são outras populações de risco. Como podemos proteger estes dois grupos?

Nas crianças, a grande preocupação são os doentes crónicos e que estejam a fazer medicação que baixe as defesas. As grávidas devem ser vacinadas, principalmente as que, em outubro, estejam no segundo ou terceiro trimestre de gestação. A vacina serve não só para proteger a grávida, mas essencialmente para fazer com que os anticorpos produzidos pela vacina passem, através da placenta, da mãe para o bebé. Isto faz com que o bebé, nos primeiros seis meses de vida, esteja protegido. Isto porque a vacina só está aprovada para uso nos bebés a partir dos seis meses de idade.

Em relação às crianças saudáveis, que não pertencem a estes grupos de risco, a vacinação universal não está recomendada em Portugal. No entanto, isso não quer dizer que seja errado vacinar, mas sim que nesses o benefício não é tão evidente.

Deixo um apelo aos profissionais de saúde para que se vacinem mais. Temos de prevenir doenças nas populações de risco. Se fizermos a nossa parte, estamos a motivar as pessoas a fazer a delas.

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