O Hospital Curry Cabral, em Lisboa, viu-se obrigado a desmarcar e remarcar várias cirurgias no Serviço de Ortopedia, no final de outubro. Em causa está a falta de camas, ocupadas com doentes que já tiveram alta clínica mas que continuam com a situação social por resolver – ou seja, não têm para onde ir, revela o Diário de Notícias.

Muitos dos doentes que viram a operação desmarcada foram avisados no próprio dia, quando já esperavam a chamada para o bloco. Após de uma espera de seis meses, e depois da consulta de anestesiologia, uma das pessoas que esperava para entrar no bloco operatório do Curry Cabral viu a cirurgia ser adiada pela terceira vez.

“Após esperar hora e meia, veio uma funcionária informar que podíamos ir todos para casa porque não havia camas para sermos internados”, conta ao jornal. No mesmo dia, terá acontecido o mesmo com outras três pessoas só no serviço de Ortopedia.

O problema da falta de camas já é recorrente, tanto como no Curry Cabral como noutros hospitais da zona de Lisboa, e só tende a agravar-se. Por um lado, estão a aumentar os casos de doentes com alta clínica que ficam durante meses nos hospitais.

No caso do Curry Cabral, também o serviço de Medicina Interna está exposto ao mesmo problema. Em Portugal, quase 5% das camas estão ocupadas com doentes que não têm para onde ir. São 829 camas por dia a menos, o que enfraquece a resposta aos casos mais urgentes. A maioria dos doentes internados com alta clínica esperam uma vaga na rede de cuidados continuados, que, apesar do reforço que tem tido, continua muito longe de conseguir satisfazer os pedidos.

A Associação dos Administradores Hospitalares estima que neste ano sejam gastos 84,8 milhões de euros em internamentos injustificados.

Por outro lado, os três Centros Hospitalares da capital (Lisboa Norte, Lisboa Central e Lisboa Ocidental) têm vindo a perder camas (registou-se uma diminuição em 2017 e 2018). Existem nos hospitais portugueses 16162 camas (dados de abril de 2019). São menos cerca de três mil do que em 2007. A tendência é para os hospitais novos terem cada vez menos espaço de internamento.

O novo hospital de Todos-os-Santos, por exemplo, que deverá substituir os seis hospitais que integram o Centro Hospitalar de Lisboa Central (São José, Curry Cabral, Santa Marta, Capuchos, Dona Estefânia e Maternidade Alfredo da Costa), tem previstas apenas 875 camas. Quando for inaugurado (prevê-se que em 2023), a cidade de Lisboa perderá quase 500 camas – já que as seis unidades têm 1352 camas disponíveis atualmente.

O bastonário da Ordem dos Médicos alerta para o contrassenso. ” É um erro estratégico caminhar no sentido da redução do número de camas hospitalares quando os indicadores sociodemográficos demonstram que Portugal tem de se preparar para uma sociedade cada vez mais envelhecida e com mais doença crónica”, diz Miguel Guimarães.

TC/SO

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