A dor é um sintoma ou uma doença?

Se for interpretado como um sintoma, seria um sintoma bastante complexo. Cada vez mais, pela multidisciplinaridade que envolve o tratamento e a abordagem da dor, poderíamos vir a considerá-la como uma doença. A dor e a febre são as duas manifestações clínicas que mais frequentemente levam o ser humano a procurar ajuda. A dor está presente numa grande quantidade de síndromes, implica uma abordagem multidisciplinar integrada, de forma a garantir o seu adequado controlo e tratamento.

Nesse sentido, o estudo e tratamento da dor poderá ser uma competência clínica autónoma?

Sim, particularmente no que respeita à abordagem da dor crónica.

Todos os profissionais de saúde, em particular os médicos, devem ter formação na valorização e no encaminhamento do doente com dor. É igualmente fundamental que a opinião pública esteja informada e alertada para a necessidade do controlo da dor, bem como das consequências nefastas do seu inadequado tratamento.

“Um doente com dor mal controlada pode não respirar adequadamente”

Por exemplo, um doente com dor mal controlada pode não respirar adequadamente facilitando o aparecimento de uma infeção respiratória; favorece a imobilidade e pode potenciar o aumento de tromboses e reduzir a capacidade de recuperação fisioterapêutica; gera alterações cardiovasculares, facilitando crises hipertensivas e enfartes do miocárdio; está associada a alterações hormonais com descompensação de doenças como a diabetes.

Refira-se ainda, o risco, não desprezível, de cronificação da dor. Os estudos mostram que quanto mais tempo a dor se mantiver não controlada e intensa, maior a probabilidade de evolução para dor crónica. A dor crónica não é exclusiva da doença oncológica, resulta numa boa parte dos casos de pós-operatórios em que a dor foi desvalorizada e mal controlada. Em Portugal a predisposição para nos conformarmos com o sofrimento favorece estes eventos, é usual a seguir a uma cirurgia, o comentário: “tenho dor mas é normal”. A dor é um alerta e tem de ser tratada em conformidade!

 

“Quanto mais tempo a dor se mantiver não controlada e intensa, maior a probabilidade de evolução para dor crónica”

 

As pessoas ainda se resignam perante a dor?

Sem dúvida. Eu noto isso no meu dia-a-dia. Na minha prática anestésica tenho a preocupação de alertar o doente para sinalizar a dor, porque a sensibilidade ao estímulo álgico ou doloroso é variável de pessoa para pessoa e depende de múltiplos fatores. Não é preciso os doentes serem heróis. Os médicos estão lá para os ajudarem a ultrapassar aquela etapa.

Como tem evoluído o tratamento da dor no pós-operatório?

Nas últimas décadas, verificaram-se alterações significativas na prática cirúrgica, como a ambulatorização de muitas cirurgias, que se praticavam até aqui em regime de internamento e o aparecimento de novas técnicas cirúrgicas, como a laparoscopia e a robótica, permitindo a realização de cirurgias complexas de forma menos invasiva, bem como a realização de cirurgias em doentes com mais comorbilidades. Estas alterações no panorama cirúrgico são determinantes para a melhoria da eficácia na resposta às listas de espera e facilita a sustentabilidade dos modelos de saúde. Em Portugal, dois terços das cirurgias já são realizadas em ambulatório e os procedimentos cirúrgicos são cada vez menos invasivos.

“A dor mal controlada é ainda determinante no aumento dos gastos em medicação e tratamentos e no aumento da taxa de absentismo”

Estes factos implicam mudanças na abordagem da dor pós-operatória e trazem novos desafios: adequar e promover novos métodos e meios para controlo da dor de acordo com a agressividade cirúrgica, controlar adequadamente a dor em ambiente externo aos serviços de saúde e em tempo útil, garantindo o regresso e reintegração rápida do doente na esfera familiar, laboral e social.

Em cirurgia ambulatória o controlo da dor é ainda a principal complicação pós-operatória, classificada como dor moderada a intensa, particularmente nas primeiras 24-48h de pós-operatório. Este facto é responsável, de acordo com estudos recentes, por uma incapacidade na autonomização do doente em mais de 50% dos casos e regresso não previsto ás unidades de saúde em 0,08%. A dor mal controlada é ainda determinante no aumento dos gastos em medicação e tratamentos, no aumento da taxa de absentismo e no aparecimento de dor crónica, com tudo o que isto representa de negativo para a vida das pessoas e das sociedades. A necessidade e mais-valia no controlo da dor pós-operatória evidenciou-se em lei em portugal desde 2013, com a obrigação de entrega de kits de medicação analgésica a todos os doentes operados em regime ambulatório pelas instituições de saúde.

Atualmente, dispomos de técnicas  analgésicas para controlo da dor bastante precisas e eficazes, possibilitando nomeadamente o controlo regional da dor (de acordo com a parte do corpo que vai ser operada), o tipo de cirurgia, pois sabe-se que alguns tipos de cirurgia estão associados a maior dor pós-operatória que outros (ex. Cirurgia ortopédica) e através da associação de diferentes substâncias analgésicas no mesmo medicamento, com evidentes vantagens na eficácia do tratamento e na segurança clínica pela redução dos efeitos secundários.

 

“A incidência [de dor mal controlada no pós-operatório] tem baixado, mas ainda ronda os 60 a 70%”

 

Existem dados que indiquem a percentagem de doentes com dor mal controlada em pós-operatório?

Sim, existem. A incidência tem baixado, mas ainda ronda os 60 a 70%, independentemente de se tratar de cirurgia de internamento ou de ambulatório. Afeta igualmente países desenvolvidos ou considerados em via de desenvolvimento. Os estudos identificam três tipos de barreiras ao controlo eficaz da dor: institucionais, profissionais e relativas ao doente, onde é determinante a informação referente a estas matérias. Estamos melhor do que há meio século a esta parte, mas temos ainda um longo caminho a percorrer.

TC/SO

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