Depois de um Verão particularmente complicado – com os hospitais a terem muitas dificuldades para preencher escalas de especialidades como ginecologia/obstetrícia, anestesiologia ou pediatria – a situação acalmou. No entanto, o SNS enfrenta um problema estrutural de falta de atratividade e isso vai repercutir-se num futuro próximo.

O alerta é feito por Alexandre Valentim Lourenço, em entrevista ao jornal Público. “Dezembro vai ser igual ou pior do que o Verão por causa das férias de Natal e do número de médicos que está a sair”. Há maternidades em risco de fechar nessa altura, admite.

A falta de neonatologistas é um problema identificado há já alguns anos. No entanto, os hospitais não querem libertar os seus médicos pediatras para que estes frequentem um ciclo de estudos especial que lhes permite, depois, exercer como neonatologistas.

“Os ciclos de estudos especiais são organizados por um hospital que abre um determinado número de vagas. Os médicos candidatam-se e quem lhes paga o ordenado é o hospital a que pertencem apesar de estarem noutra unidade a fazer formação e a trabalhar. Abrimos ciclos de estudos e não vêm médicos porque os hospitais estão tão aflitos que não os
podem deixar vir”, resume o dirigente da Ordem dos Médicos (OM).

A consequência imediata de não se formarem médicos para esta subespecialidade é que Portugal corre o risco de não ter neonatologistas dentro de dez anos. “Isto é grave. Não vamos ter neonatologistas daqui a dez anos”. Para contornar o problema, a OM propõe que seja o hospital onde o médico fica a trabalhar a pagar-lhe o vencimento.

No limite

Mesmo nos meses em que tradicionalmente os médicos tiram menos dias de férias, há equipas que estão no limite da sua capacidade, sublinha o presidente da Secção Sul da OM, para quem o próximo verão vai ser ainda pior do que o último – resultado da saída constante de especialistas e do impacto das cativações.

Perante a sobrecarga de alguns serviços, Alexandre Valentim Lourenço deixa um aviso: “Se eventualmente acontecer alguma coisa, não é por erro médico, não é porque o médico não quer trabalhar, é porque não tem uma equipa suficiente para
trabalhar nessas situações”.

TC/SO

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