Na Europa, as pessoas com deficiências visuais rondam os 3% da população total (ou seja, cerca de 15 milhões e 387 mil pessoas, segundo dados de 2018 da PORDATA). Estes 3% representam os números divulgados mais recentemente. Contudo, como temos visto e enfatiza Fabio Rodriguéz, responsável de Desenvolvimento de Negócios da Península Ibérica da empresa OrCam, é um número com tendência a crescer uma vez que a Diabetes Tipo 2 (patologia que tem como complicação grave a cegueira) está a aumentar.

Em 2010, dois empresários israelitas, Prof. Amnon Shashua (CTO) e Ziv Aviram (CEO), cofundadores da Mobileye, líder no desenvolvimento de um sistema inovador de prevenção de colisões e para direção autónoma, aperceberam-se que a tecnologia até então utilizada no mercado automobilístico poderia ajudar indivíduos com dificuldades visuais. Por esse motivo, decidiram criar  a OrCam Technologies, uma empresa cuja missão passa por explorar o potencial da visão artificial, incorporando tecnologia pioneira em dispositivos wearable, de modo a melhorar as vidas de indivíduos cegos e amblíopes, com dificuldades visuais, de leitura ou de reconhecimento facial.

Em 2017, começaram a vender os seus produtos e no início deste ano, entraram no mercado português com dois produtos que prometem revolucionar a área da visão: o OrCam MyEye e o OrCam MyReader.

O primeiro (OrCam MyEye) permite o reconhecimento facial, a leitura e identificação de produtos, cujo valor é de 4.500€, e o segundo (OrCam MyReader), cujo preço de aquisição é de 3.500€, serve apenas o propósito da leitura. No entanto, estes valores podem ser reduzidos mediante uma comparticipação do governo. Essa é variável, podendo ser comparticipada em distintas percentagens mediante a condição clínica do indivíduo que quer adquirir o produto.

Quanto ao público-alvo, “o principal target da ORCAM são as pessoas cegas ou com graves problemas de visão”, quer se trate de adultos ou crianças. “No entanto, pode abranger também pessoas que tem dificuldades em ler ou que são disléxicas ou mesmo que não saibam ler”, explica-nos Fabio Rodriguéz, responsável de Desenvolvimento de Negócios da Península Ibérica da empresa.

Fabio Rodriguéz

O produto foi lançado em Portugal no início do ano, uma vez que a Europa está com uma população bastante envelhecida e os problemas de visão são inevitavelmente mais notórios, afetando sobretudo a população mais velha. Além disso, Fabio considera que “não existem, no mercado atual, produtos que preencham as necessidades desta parte populacional”.

A nível mundial, a empresa conta com 200 trabalhadores, sendo a maioria engenheiros, sendo que “o objetivo principal da empresa é fazer o melhor do melhor” de forma a conseguir ajudar estas pessoas.

 

Como funciona?

 

O dispositivo offline não é mais do que uma câmara, com 13 megapixéis e dois flashes estrategicamente colocados nas pontas do dispositivo, que é posteriormente colocado na parte lateral dos óculos.

Constituído por um menu, que permite voltar atrás, definir a velocidade do áudio, tirar fotografias e um microfone, para gravar áudio. Uma vez que estes produtos fazem o reconhecimento facial das pessoas que rodeiam o paciente, este tem a possibilidade de tirar uma fotografia à pessoa e gravar, através do microfone e com a sua própria voz, o nome desse indivíduo. Este detalhe permite ao paciente que, numa próxima vez, quando vir essa pessoa, consiga identifica-la com facilidade.

Dispositivo: sistema de saída de som, botão de ligar e desligar e ímanes para ligar aos óculos

A tecnologia utilizada nos dispositivos MyEye e MyReader fazem a junção perfeita de inteligência artificial e machine learning, através de ORC. Este permite, por exemplo, que o sistema reconheça caractere a caractere e, em microssegundos, os junte formando uma palavra e “pronunciando-a da forma correta”, como nos diz Fabio Rodriguéz.

Dispositivo: Câmara, flash, menu (parte exterior esquerda)

O facto de ser um aparelho offline permite que a informação recolhida seja apagada de imediato, o que lhe confere 100% de privacidade.

 

“Isso é um fator muito importante. As pessoas estão bastante mais preocupadas com a privacidade das suas informações e, com a OrCam podem estar tranquilas, uma vez que há apenas duas coisas que ficam gravadas no dispositivo – os rostos e os produtos – porque é o que as pessoas mais usam “, explica.

A única altura em que é necessária uma ligação à internet é quando surgem novas atualizações de softwares, o que acontece uma a duas vezes por ano.

Quando é adquirido, traz consigo uma bolsa com tudo o que é necessário para que possa usufruir totalmente deste produto: o dispositivo, uns óculos, um carregador e cabo USB para carregar a bateria do aparelho, e uma corda para poder transportá-lo para qualquer lugar, estando assim acessível a qualquer altura.

 

Funções do dispositivo

 

A principal função é a leitura, segundo nos diz o representante da marca da Península Ibérica. Isto porque “estamos a ler a toda a hora, seja jornais, revistas, livros, notícias, mensagens nas redes sociais… O dispositivo reconhece jornais, revistas, folhetos informativos, placas de sinalização em vários locais, como a placa de saída de emergência. Tem apenas de ser letras formatadas, porque o dispositivo não reconhece a caligrafia manual”.

No entanto, não é a única característica e função do dispositivo. Como já foi mencionado, o aparelho permite o reconhecimento facial – pode tirar-se uma fotografia a uma pessoa e guardar a fotografia com o seu nome igualmente gravado em áudio. É importante mencionar que o dispositivo permite guardar até 100 nomes, ou seja, dá para um leque variado de amigos e familiares.

A tecnologia presente no dispositivo permite ainda reconhecer o dinheiro, evitando situações inconvenientes quando as pessoas vão às compras ou precisam de utilizar dinheiro e não sabem quanto têm na sua posse.

Também as horas do dia são reconhecidas e transpostas para áudio, bastando, para isso, apontar os olhos e os dedos para o relógio.

O reconhecimento das cores é apenas mais um dos benefícios deste produto. No entanto, Fabio Rodriguéz não quis deixar de frisar que, “como é óbvio, as cores irão depender da luminosidade do local e das sombras [que podem alterar ligeiramente o tom das cores]”, explica Fabio. “Mas é como tudo… As pessoas habituam-se a fazê-lo da maneira correta”, continua.

Além desta lista de funcionalidades, o OrCam MyEye também lê códigos de barras indicando que tipo de produto tem na sua mão ou à sua frente, uma ferramenta para pessoas com qualquer tipo de deficiência visual e não para os cegos, visto que estes últimos não sabem em que parte do produto está o código de barras.

Também identifica produtos. Contudo, “esta é uma função complicada, porque o aparelho não vai reconhecer se está perante uma garrafa de água da marca x ou y, mas um bom exemplo, são os cartões”, explica. A maioria das pessoas têm vários cartões e o dispositivo consegue distinguir se se trata do cartão do hotel ou do seguro de saúde. “Existe outro bom exemplo – os medicamentos. Há pessoas que tomam vários medicamentos que têm caixas e cuja estética dos fármacos são muito parecidas, o ORCAM Eye diz qual a caixa que tem na mão”, exemplifica.

 

Benefícios

“Coisas simples como ler o jornal, ou ir a um restaurante e não conseguir ler o menu sem ajuda de alguém afeta a saúde mental, porque sente que não é autónomo e precisa sempre de alguém para o ajudar. Se uma câmera conseguir fazer com que a pessoa vá para a rua sozinha, e se reconhecer textos, cores e tarefas simples, mas diárias. No final de contas, nós [que não temos problemas visuais] não nos apercebemos mas são estas coisas simples que estamos a fazer constantemente”, resume Fabio.

Se é verdade que existem outras opções no mercado, ninguém o pode negar, nem mesmo Fabio, representante da empresa israelita. No entanto, “os outros produtos existentes são tão difíceis de usar que apenas algumas pessoas optam por comprá-los”.

Frisa a fácil acessibilidade do produto ao dizer: “Já vi crianças com 5 anos a usar o ORCAM com muita facilidade ao fim de 10 minutos, mas mesmo as pessoas mais velhas (que precisam de mais algum tempo) conseguem manejar bem o equipamento”.

Apesar de todas as vantagens, a empresa não tem nenhuma loja em Portugal, sendo a vendas destes dois aparelhos realizada através de revendedores. Através do preenchimento de alguns dados no website da OrCam, tais como nome, morada e patologia associada à perda de visão um especialista entrará em contacto com essa pessoa e vai indicar-lhe onde pode adquirir os óculos, num dos seus revendedores.

Atualmente, os produtos estão disponíveis em 25 línguas e em 48 países. Contudo, Fabio desvendou que continuam a apostar no desenvolvimento. “Continuamos a desenvolver novas línguas e a crescer no mercado, mas, uma vez que a leitura é uma das principais características, fazemos bastantes testes antes de lançar o produto para que essa ferramenta seja 99,99% precisa”.

EQ/SO

 

ler mais