No âmbito do VIII Congresso da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral (SPPCV), que decorre entre 31 de outubro e 2 de novembro, entrevistámos o Dr. Jorge Alves, vice-presidente da Sociedade, que nos explica no que consiste a Doença Metastática Vertebral e como podem a Robótica e a Inteligência Artificial ser aplicadas no tratamento de patologias da coluna vertebral.

 

O que é a Doença Metastática Vertebral?

 A Doença Metastática Vertebral corresponde ao aparecimento de células tumorais na coluna, oriundas de um tumor que se desenvolveu noutra área do corpo humano.

 

Quais os sintomas mais frequentes?

O sintoma mais frequente é claramente a dor. No entanto, o doente pode ter outros sintomas gerais como perda de apetite, emagrecimento e sensação de cansaço. Nos casos em que há compressão dos nervos ou da medula, podem ter alterações sensitivas e/ou motoras nos braços ou nas pernas.

 

Como é realizado o seu diagnóstico?

Normalmente, o diagnóstico é feito através de exames de imagem mais avançados, como a TAC ou a RMN, mas o diagnóstico definitivo consegue-se pela realização de uma biópsia da vértebra envolvida.

 

Segundo a revisão de um estudo, os pulmões, o fígado e o esqueleto são os principais locais de incidência de metástases no corpo humano, havendo entre 30 a 90% de pacientes com cancro em estado terminal a apresentar metástases na coluna vertebral na faixa etária 40-65 anos, sendo o género masculino o mais afetado. Qual a razão para que isto aconteça?

As células tumorais normalmente “viajam” através dos vasos sanguíneos, e essas áreas do corpo humano apresentam uma rede complexa e abundante de vasos sanguíneos, daí a maior probabilidade de serem acometidas pelas metástases.

 

Quais os carcinomas que apresentam maiores taxas de metástases na coluna vertebral?

Os carcinomas da tiroide, do pulmão, da mama, do rim, da próstata (género masculino) e o mieloma múltiplo são os mais frequentes.

 

De acordo com o estudo “Manejo das neoplasias metastáticas da coluna vertebral”, “o aumento da sobrevivência do paciente oncológico decorrente da melhoria e do avanço das modalidades terapêuticas promovem o progressivo aumento da prevalência da doença metastática da coluna vertebral”. Como podem estas novas terapêuticas resultar na presença de metástases na coluna?

O avanço nos tratamentos oncológico permitiu um aumento da sobrevivência, mas em boa parte dos doentes não permite a cura, aumentando assim a probabilidade de desenvolver uma metástase ao longo do tempo.

 

O VIII Congresso da SPPCV incidirá sobre a robótica e inteligência artificial e no seu (reduzido) impacto no tratamento da coluna. Poderá explicar-nos um pouco no que consiste ao certo?

A Robótica tem sido aplicada, com sucesso, em outras áreas da Medicina. É usada conjuntamente com a navegação e a sua introdução tem como principal objetivo a melhoria no posicionamento dos implantes, habitualmente usados para fixação, ou a reconstrução da coluna vertebral, sobretudo em casos de cirurgia de revisão, ou da presença de alterações anatómicas. A diminuição da exposição à radiação e a possibilidade de realização de cirurgias à distância são outras possíveis vantagens.

A introdução da Inteligência Artificial – pela capacidade de os sistemas de computação conseguirem uma análise quase instantânea da informação contida em base de dados – ambiciona melhorar a nossa eficácia na tomada de decisões, relativamente ao tratamento das diferentes patologias, minimizando o risco de complicações e dos custos despendidos, sobretudo em candidatos cirúrgicos. Este tipo de tecnologia vem substituir os modelos preditivos tradicionais da estatística e espera-se que, no futuro, venha a ter um papel decisivo na Medicina.

Como os métodos tradicionais de decisão no tratamento da Doença Metastática Vertebral não conseguem acompanhar de forma célere os avanços nos tratamentos oncológicos, a Inteligência Artificial pode permiti-lo de forma mais rápida e eficaz, através de uma análise quase instantânea das bases de dados.

 

Ainda no âmbito do Congresso, será realizada uma sessão de formação para os especialistas de MGF. O que irá ser abordado e qual o objetivo?

Pela primeira vez no Congresso Nacional da SPPCV criámos uma sessão específica de formação para os colegas de MGF. Vamos tentar dar a conhecer qual a capacidade de tratamento cirúrgico instalada em Portugal; abordar o tratamento da dor antes e após uma intervenção cirúrgica; ensinar como gerir as expectativas dos doentes relativamente à patologia da coluna; esclarecer dúvidas na referenciação dos doentes. Queremos despertar o interesse dos colegas de MGF para a patologia da coluna.

 

Quais os tratamentos inovadores no combate a esta doença e quais as alterações que trazem relativamente aos já existentes?

Um dos grandes avanços no tratamento oncológico baseia-se na medicina de precisão, que consiste no estudo e identificação de alterações genéticas e moleculares implicadas na proliferação dos diferentes tumores, e no desenho de terapêuticas dirigidas para essas alterações específicas. Um novo tipo de radioterapia (a esterotáxica) também foi introduzido com sucesso, aumentando no tempo, o controlo local do tumor. Relativamente às técnicas cirúrgicas, a cirurgia de separação veio permitir que, em doentes com compressão medular, se consiga remover a porção do tumor que está em contacto com a medula, de modo a que se possa utilizar a radioterapia com mais segurança. As cirurgias mini-invasivas também foram introduzidas com sucesso nos doentes oncológicos, pois permitem uma recuperação e retorno mais rápidos à radioterapia e/ou quimioterapia.

 

Quando deverá ser utilizado o controlo medicamentoso do quadro álgico e quando deverá ser a quimioterapia e a terapia hormonal, radioterapia e radio cirurgia ou até mesmo a cirurgia?

O ideal é que os doentes sejam abordados de forma multidisciplinar, através das “consulta de grupo”, em que elementos de várias especialidades (cirurgiões, oncologistas, especialistas na dor e na reabilitação, e radiologistas de intervenção), discutem os casos clínicos de forma exaustiva e concertam uma abordagem específica para cada um.

 

Sendo esta uma doença tão complexa e que pode derivar de inúmeros e diferentes carcinomas, quais os profissionais de saúde que deverão estar na equipa a acompanhar o doente?

Cirurgiões, oncologistas, especialistas na dor e na reabilitação, e radiologistas de intervenção.

 

EQ/SO

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