Atualmente, em Portugal ¼ dos adultos portugueses com Dermatite Atópica (DA) moderada a grave não tem a doença controlada, apesar de estar a fazer tratamento. Estima-se que existam cerca de 34 mil doentes acompanhados por um especialista médico e que deste número, 12.5 mil pessoas têm DA grave.

No âmbito do primeiro Dia Mundial da Dermatite Atópica, o SaúdeOnline entrevistou o Prof. Doutor Tiago Torres, dermatologista, professor de Dermatologia que alerta que a dermatite atópica tem um elevado impacto na qualidade de vida dos doentes e é, muitas vezes, difícil de tratar.

 

Sabemos que em Portugal ¼ dos portugueses com DA moderada a grave não tem a doença controlada, como referiu, mas estão a receber tratamento. Qual a realidade deste problema em Portugal?

A Dermatite Atópica é uma doença inflamatória cutânea crónica da pele muito frequente. Apesar de ocorrer essencialmente da criança, também nos adultos é um problema importante. Cerca de 15% das crianças podem ter dermatite atópica, que costuma aparecer até aos 5 anos de idade, que se manifesta também em 7% dos adultos.

 

A DA pode também surgir durante a infância e persistir na transição para a idade adulta. Qual a percentagem de casos em que isso acontece, comparativamente com os que aparecem em idade adulta?

A tendência é para as crianças que têm esta patologia melhorarem com a idade, mas há um grupo de doentes (os que têm uma forma mais grave da doença) que a mantém na transição e idade adulta. A dermatite atópica no adulto é habitualmente mais grave do que a que se manifesta e se controla nas crianças.

 

Qual o impacto que a DA tem no dia a dia dos doentes, relativamente ao bem-estar, à sua rotina?

Tem um impacto elevado no dia a dia. Tem um impacto físico, devido às lesões que aparecem e que podem ser extensas, cobrindo vastas áreas do corpo, e que devido ao seu sintoma principal, o prurido, tem um enorme impacto psicológico, impedindo o doente de ter uma vida normal, causando distúrbio do sono, incapacidade de descansar, que leva depois a alterações do dia a dia, como cansaço, produtividade diminuída, piores prestações escolares nas crianças, assim como distúrbios psicológicos, como ansiedade, depressão.

 

Quais os sinais a que os pais devem estar alerta?

O aparecimento de lesões de eczema, vermelhas, com descamação e com muito prurido que normalmente na criança surge em zonas específicas, como as pregas dos braços e das pernas, na face, à volta dos olhos pode alertar para a possibilidade de ser dermatite atópica. Portanto, com o aparecimento deste tipo de lesões devem procurar um médico dermatologista para efetuar um correto diagnóstico. Isto porque existem doenças que têm lesões semelhantes.

 

Não existindo ainda uma cura, quais as terapêuticas a que os doentes têm acesso?

A dermatite atópica é uma doença de difícil tratamento, crónica e sem cura, cujo objetivo é controlar as lesões e os sintomas, devolvendo ao doente a qualidade de vida que foi perdida com a doença. O tratamento das formas mais ligeiras desta patologia é efetuado com terapêuticas tópicas (pex   corticosteroides e inibidores da calcineurina). Já nas formas mais graves, o tratamento tem de ser com terapêuticas orais ou injetáveis que, até há pouco tempo, eram de difícil utilização a longo prazo, devido aos riscos associados, no entanto está realidade esta a mudar.

 

Quais os efeitos secundários mais comuns nos tratamentos a longo prazo?

Por exemplo, na terapêutica tópica, os corticosteroides trazem riscos para a pele, como atrofia, infeções cutâneas, alterações na pigmentação, entre outros. Nas terapêuticas orais, em que estão incluídos os corticosteroides orais, a ciclosporina, metotrexato tem efeitos secundários relacionados com a imunossupressão crónica, risco de toxicidade renal, de toxicidade hepática, entre outros.

 

Quais as comorbilidades que podem agravar esta doença?

A dermatite não é uma doença só da pele. É uma patologia que se associa a outras patologias e existem comorbilidades quer atópicas, quer não atópicas.

No que diz respeito às atópicas falamos essencialmente de asma, a rinite alérgica, as alergias alimentares, por exemplo. Nas não atópicas, sabe-se que existem outras patologias que podem estar presentes na dermatite atópica – poderá haver um certo aumento de risco cardiovascular, de algumas doenças autoimunes e o aumento de infeções (quer cutâneas quer extra-cutâneas). Estas são as principais comorbilidades, às quais podemos ainda acrescentar as comorbilidades psiquiátricas, como a ansiedade e a depressão.

 

Há casos em que os profissionais de saúde recorrem a fármacos que são utilizados para tratar outras patologias. Pode dar-me um exemplo específico em que isso aconteça?

Até à aprovação do Dupilumab, o primeiro agente biológico desenvolvido para o tratamento da Dermatite atopica, os únicos fármacos que estavam aprovados eram os corticosteroides e a ciclosporina. No entanto, estes tratamentos não podiam ser utilizados a longo prazo. Além disso, muitos doentes não respondiam de forma eficaz, pelo que havia a necessidade de utilizar medicamentos que constituem terapêuticas noutras patologias e que, na Dermatite atopica, podiam ter alguma eficácia, como é o caso da azatioprina, o metotrexato, entre outros.

Atualmente, com o aparecimento de um fármaco com indicação para o tratamento da Dermatite atopica, é expectável que a utilização off-label de certas terapêuticas diminua e sejam utilizados apenas os fármacos aprovados com indicação para o tratamento da Dermatite atopica.

 

Portugal era, até à data, um dos poucos países da EU que ainda não oferecia aos doentes com DA moderada a grave o tratamento biológico específico para a patologia. No entanto, foi agora aprovado em Portugal esse novo fármaco biológico, correto? Em que consiste?

Sim, recentemente foi desenvolvido e aprovado uma nova terapêutica biológica que tem o nome de Dupilumab e que atua de uma forma muita seletiva no mecanismo da doença, o que permite ter taxas de eficácia e de segurança muito boas, e assim tratar e controlar a doença a longo prazo com uma diminuição significativa dos efeitos secundários.

 

Portanto, com esse novo tratamento aprovado pelo Infarmed a doença não progride, não se agrava e existe a possibilidade de reverter a situação ou, por outro lado, torna-se uma situação controlável?

[A doença] É controlada, ou seja, há o desaparecimento das lesões e dos sintomas. Não tem tanto a ver com o evitar a sua progressão, mas sim com um controlo seguro e eficaz da doença a longo prazo.

 

Quais as inovações terapêuticas que se espera que surjam no mercado num futuro próximo?

Felizmente, estão a aparecer inúmeros tratamentos para a dermatite atópica, o que significa que no futuro teremos mais armas que nos permitam controlar esta difícil doença. Estão a ser desenvolvidos novos fármacos que serão, provavelmente, e tal como o Dupilumab, fármacos de primeira linha de tratamento, como os inibidores da interleucina 13 ou inibidores da via JAK-STAK. Apesar da cura da dermatite atópica estar ainda distante, o futuro é muito promissor.

 

EQ/SO

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