Nascido em Lisboa em 1930, António Gentil Martins dividiu a sua carreira entre o Instituto Português de Oncologia, criado pelo seu avô materno Francisco Gentil e o Hospital D. Estefânia, tendo acompanhado a criação e o desenvolvimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Nas vésperas de se assinalar os 40 anos do SNS (15 de setembro), o cirurgião criticou o modelo de funcionamento do SNS e propôs soluções para acabar com as desigualdades.

Para o cirurgião plástico e cirurgião pediatra, que realizou mais de 12 mil cirurgias, entre as quais a separação de sete pares de gémeos siameses, o modelo do SNS que “agora se glorifica pelos seus 40 anos” está errado e a degradar-se.

“As pessoas que têm um dinheirito arranjam um seguro, os que são ricos têm tudo quanto querem, ou quase, e aqueles que não conseguem ter um seguro, porque são da classe média baixa ou pobres, esperam seis meses, se não for um ano, por uma consulta, cirurgia”, lamentou.

Portanto, o que se dizia da universalidade do SNS “é completamente falso”, porque “universalidade significa tratar a maioria da mesma forma” e o que se está a assistir é que “a maioria é tratada desigualmente”.

Como solução aponta um modelo que defende há 40 anos assente na liberdade de escolha e numa Medicina convencionada suportada num seguro nacional de saúde, independente do Orçamento do Estado.

“Fez-se uma revolução em 1974 por causa da liberdade e no Serviço Nacional de Saúde não há liberdade de escolha. Para mim, a liberdade de escolha é poder ir a um médico aqui ou acolá, porque é da minha confiança, aquele que eu escolhi e não aquele que me impuseram ou deram simpaticamente”, frisou o médico distinguido com o Prémio Nacional de Saúde 2016.

Por isso, defendeu, em vez de um SNS estatal devia haver “um sistema nacional de saúde que põe em equilíbrio o público, o social e o privado, todos tratados da mesma maneira, sem privilegiar um em detrimento do outro”.

Gentil Martins contou que apresentou este projeto quando foi presidente da Ordem dos Médicos, entre 1977 a 1986, em alternativa ao modelo proposto por António Arnaut, considerado o “pai” do SNS, por o considerar “irrealista”, tendo mesmo impresso 100 mil exemplares de um folheto com o lema “Escolha o seu próprio médico” em que explicava esta proposta.

“Continuamos a pensar que a solução é um seguro nacional de saúde em que todos contribuem quando estão saudáveis para não ter que desequilibrar o orçamento da família quando estão doentes, altura em que têm de pagar o menos possível”, adiantou.

O seguro seria gerido por uma entidade com representantes do Estado, dos prestadores de serviços e da população e seria pago de acordo com a capacidade dos utentes: “São ricos pagam muito, têm dificuldades pagam pouco. Se depois quiserem ter seguros complementares podem ter, mas o seguro nacional cobre toda a gente a preços controlados”.

“Na clínica privada posso levar o preço que quiser, mas isso só é acessível a uma minoria, socialmente não é justo. Por outro lado, a Medicina do Estado também não é justa porque acaba por falhar”, frisou.

No privado, o cirurgião condenou ainda o “teto dos seguros” que para “as coisas simples resolve tudo”, mas quando é complicado envia o doente para acabar o tratamento no Estado porque já não tem capacidade de pagar.

“Por amor de Deus, isso não é honesto. Eu falo contra o Estado, mas também falo contra o privado, porque tem que haver um sistema equilibrado que cubra toda a gente”, reiterou.

LUSA/SO

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