Portugal comprometeu-se a eliminar a Hepatite C até 2030. Vamos conseguir atingir esse objetivo?

Não é impossível mas tenho algumas dúvidas. Isto exige um trabalho que tem de ser feito de forma metódica e temos alguma dificuldade em termos de organização. Para conseguirmos erradicar a doença é preciso diagnosticar os casos que ainda não estão identificados (para que essas pessoas deixem de ser foco de infeção) e tratá-los. Pelo contacto que tenho tido com o terreno, não sabemos onde estão muitos dos infetados. Mas sabemos que pertencem a grupos de risco, como os utilizadores de drogas, sem-abrigos, população reclusa.

Há especialistas que defendem que se devia fazer um rastreio universal a toda a população e outros que pensam que se deveria apostar nas populações de risco. Qual a sua opinião?

Essa é a primeira grande questão. Um rastreio universal acaba por ser, em última análise, uma decisão política. É um processo que implica trabalho e custos. Eu tenho dúvidas quanto a isso porque só estamos a falar de, no máximo, 1% da população.

Penso que 0,4% foi o último número que vi referenciado.

Sim, esse foi o resultado de um estudo que abrangeu umas centenas de pessoas em Portugal. Contudo, admitimos que possam ser mais. Agora, os resultados dependem sempre das condições da amostra que é utilizada. Por exemplo, quando fazemos rastreio em pessoas que vão doar sangue, sabemos que há tipos de pessoas que não doam sangue. Só isso, enviesa o resultado. Mas, enfim, admitamos que a percentagem se possa aproximar de 1%. Teríamos de rastrear 100 pessoas para encontrar uma.

Agora, o que se devia fazer era investir de uma forma mais sistematizada no rastreio das pessoas com perfil de risco. Não há uma estratégia nacional a ser implementada no terreno, as coisas estão a ser feitas de uma forma descoordenada. Se ficarem de fora grupos de risco, vamos comprometer o objetivo.

A falta de uma estratégia nacional é um problema. Neste momento, são as associações que estão a fazer a maior parte do trabalho.

Exatamente, são grupos de intervenção social e, que algumas vezes, trabalham em conjunto com instituições de saúde. Está tudo a ser feito base do voluntarismo. Isso não é negativo, temos de o aproveitar. No entanto, é preciso que alguém pegue neste trabalho e o coordene, de modo a otimizar os resultados.

Depois, em relação ao tratamento, é preciso que as pessoas sejam tratadas em tempo útil. Se formos fazer um esforço para rastrear, diagnosticamos os casos e depois temos de ficar três ou quatro meses à espera do tratamento, podemos perder a oportunidade de tratar essas pessoas. Essas pessoas são ‘difíceis’ e desaparecem frequentemente.

Desde que a compra dos medicamentos para a Hepatite C deixou de estar centralizada na ACSS começaram a surgir problemas. Como está a situação em Coimbra?

Por exemplo, conheço o caso de colegas que foram ao um estabelecimento prisional  e fizeram o pedido da medicação para os casos diagnosticados – mais de duas dezenas. A certa altura, tinham 2 ou 3 casos autorizados. Isto às vezes acaba por ser desmoralizador. A forma de financiamento mudou e a burocracia emperra o processo. Com a compra centralizada, acredito que tudo fosse mais fácil, porque acredito que as instituições, que têm um orçamento para gerir, possam ter algumas dificuldades.

Aí em Coimbra, quanto tempo está a demorar a entrega da medicação?

Estamos a falar em esperas de 2 a 3 meses. Mas tenho ouvido queixas de colegas doutros hospitais com tempos de espera substancialmente superiores… Na maioria dos casos, tratar agora ou passados três meses é a mesma coisa. Mas quando estamos a falar de grupos mais difíceis, como os os utilizadores ativos de drogas, esperar todo esse tempo torna-se mais complicado, podendo levar à perda da oportunidade de tratar.

Outra dificuldade é o grande número de etapas a que os doentes têm de se sujeitar até terem a medicação.

Sim, nós temos tentado simplificar um pouco as coisas. Agora, já somos mais sumários na avaliação dos doentes. Por exemplo, a ecografia e a elastografia (para avaliar a fibrose) já não são imprescindíveis. No entanto, há sempre alguma burocracia que ainda temos de cumprir. Temos o portal onde é registado cada caso e que gera sempre uma dificuldade, embora me pareça que a maior parte dos médicos já se habituou e ache que é um mal necessário.

Uma pessoa em situação de sem-abrigo ou um toxicodependente, por exemplo, tem de ir quantas vezes ao hospital até obter a medicação?

Tem de ir uma vez para ser observada pelo médico. Depois, o médico poderá, até no próprio dia (se a instituição funcionar bem), pedir as análises que precisa que o doente faça. A seguir, é necessária uma segunda ida ao hospital, para uma consulta já com os dados e aí começa o tratamento. A partir daqui, depende. A prática em muitos hospitais é que a medicação seja dispensada mensalmente, portanto, o doente não leva logo a medicação completa. Portanto, estamos a falar de 4 ou 5 idas ao hospital.

Que medidas concretas poderia o Ministério da Saúde tomar para agilizar o processo?

Este tema já esteve mais na agenda mediática e agora caiu no esquecimento. Em termos políticos, o tema esmoreceu. Por exemplo, em 2018, foi publicado um despacho que autorizava que se fizessem testes de rastreio rápidos em farmácias. Até agora só em Cascais está a ser feito. É uma boa ideia, já devia estar em todo o país.

TC/SO

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