De que formas se pode manifestar o cancro da cabeça e pescoço?

Pensando nas duas localizações mais comuns do cancro da cabeça e pescoço, que são a cavidade oral e a laringe, as formas de manifestação são muito acessíveis ao doente e aos profissionais de saúde. São alterações nas gengivas, lesões brancas ou vermelhas ou aftas que não curam no período de três semanas; dificuldade em deglutir; massas no pescoço; rouquidão persistente.

Os nódulos do pescoço são então um sinal de alerta?

São preocupantes se não passarem ao fim de algum tempo. Os nódulos correspondem, geralmente, aos gânglios. Todos temos gânglios em vários sítios do corpo, que nos alertam para vários tipos de doença, habitualmente do foro inflamatório. Os do pescoço não são exceção. Por exemplo, um abcesso num dente ou uma otite são, geralmente, sinalizados por aumento do tamanho e dor de um ou mais gânglios no pescoço. Quando a causa do aumento dos gânglios é tumoral, habitualmente não cursa com dor e vai agravando ao longo do tempo, mesmo sob tratamentos antibióticos ou anti-inflamatórios.

Qual é o tipo de cancro da cabeça e pescoço mais comum? 

É o da cavidade oral, seguido do da laringe e orofaringe.

Quais são os grupos de risco?

Temos o grupo de risco clássico em Portugal, que são os doentes fumadores e/ou alcoólicos. A ação do tabaco e do álcool, mais do que cumulativa, é exponencial.

Um outro grupo de risco que começa a ser cada vez mais frequente nos países desenvolvidos (nomeadamente nos EUA) é o das pessoas que têm infeção por HPV (human papiloma virus), infeção sexualmente transmissível. Este vírus é agente causal do cancro da orofaringe, cuja prevalência está a aumentar. No entanto, em Portugal sabemos que a maioria dos doentes com cancro da orofaringe HPV positivo tem, também, hábitos tabágicos e/ou alcoólicos, à semelhança das outras localizações.

Um outro fator de risco são as próteses dentárias mal adaptadas, o que acontece com alguma frequência nos idosos que usam próteses durante muito tempo, muitas vezes não adaptadas às alterações das estruturas da cavidade oral que as suportam. Esta utilização pode conduzir a traumatismos na cavidade oral. Qualquer destas lesões, quando progressiva e persistente, deve ser valorizada e estudada.

Já se veem os resultados do Projeto de Intervenção Precoce do Cancro Oral, que já existe há cinco anos?

Julgo que sim. A informação libertada é a de que cerca de 8 mil doentes já foram abrangidos, tendo sido realizadas quase 4 mil biópsias pelos médicos dentistas que aderiram ao programa. A taxa de deteção de cancro não é elevada, porque muitas das lesões não são propriamente suspeitas. Neste momento, não lhe consigo dizer quantos casos foram diagnosticados a partir dessas biópsias.

Agora, é preciso dizer que, em geral, o nível de higiene da cavidade oral é muito mau. As doenças orais são das doenças mais frequentes a nível mundial – a cárie não tratada é a condição mais comum em todo o mundo.

Muitos doentes com cancro da cabeça e pescoço precisam de reabilitação oral. No entanto, essa reabilitação continua a ter de ser feita no privado. Porquê?

Saiu um despacho, há já dois anos, que permitia aos hospitais com maior volume de casos de cancro da cabeça e pescoço poderem aceder a uma verba destinada à reabilitação desses doentes. Pelo menos no hospital onde trabalho (Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho) ainda não sabemos como podemos ter acesso a essa verba…

Nós estamos a falar de doentes em idade adulta, submetidos a tratamentos que consomem muitos recursos, tanto humanos como técnicos, científicos e tempo. Estamos a falar de cirurgias demoradas, em que se removem partes da cavidade oral e em que, muitas vezes, se faz reconstrução indo buscar osso e tecidos moles a outras partes do corpo. São doentes que passam, também, por fases de quimioterapia e/ou radioterapia.

Depois de passar por estes processos todos, o que acontece com frequência é termos um sobrevivente em recuperação, que está livre de cancro, que passa por um processo demorado de reabilitação da deglutição, com os profissionais da Fisiatria envolvidos nos cuidados desde o início mas, mesmo assim, não consegue ter uma dieta dita normal por não ter uma prótese dentária.

Ou seja, o doente coloca a prótese no privado mas quem é que suporta o custo?

Ou é o SNS, através das chamadas ajudas técnicas – e muito poucos doentes tem direito a isso – ou, então, tem de ser o doente a ir a consultas privadas que, se por um lado implicam custos muitas vezes incomportáveis para os doentes, por outro, habitualmente,  estão longe da realidade das equipas multidisciplinares que, no terreno, tratam os casos de cancro da cabeça e pescoço.

É muito diferente colocar uma prótese dentária num doente que fez radioterapia comparativamente com um utente saudável. Os sobreviventes de cancro de cabeça e pescoço exigem doentes alguns cuidados especiais e tempo.

Muitos doentes acabam por não ir ao privado?

Muitos não vão e, para outros, não faz grande sentido. Estamos a falar de uma reabilitação pós-tratamento numa doença em que os doentes estão a ser acompanhados no hospital e têm muitas particularidades motivadas pelos tratamentos. Por isso, a ida a uma consulta privada provavelmente não resolve o problema.

No plano do tratamento, em que ponto está, em Portugal, a utilização da imunoterapia?

Neste momento, está indicada para a doente metastizada, avançada e recorrente que não é passível de tratamento com intuito curativo. Está indicada em segunda linha ou posteriores, prevendo-se em breve a aprovação em primeira linha.

Já temos um volume importante de doentes tratados em Portugal com imunoterapia, sendo que apenas 20% respondem à imunoterapia.

Neste momento, a imunoterapia em segunda linha está acessível aos hospitais que proponham esse tratamento aos doentes. Até já tem comparticipação. A questão que se coloca é quais são os doentes que vão responder. Os que respondem fazem-no durante muito tempo, o que é muito bom. Os que não respondem acabam por ter de fazer quimioterapia, que é um tratamento que já não dá uma resposta tão prolongada.

O caminho é ir substituindo a quimio pela imunoterapia?

Cada tratamento tem o seu papel. Já há estudos que mostram que a quimioterapia associada à imunoterapia funciona nalguns doentes também. A imunoterapia é mais um arma terapêutica. Até há uns anos, o cancro da cabeça e pescoço metastizado matava em seis meses. Com o aparecimento de tratamentos dirigidos à doença, a sobrevivência mediana da primeira linha passou para próximo de 1 ano. Agora, com a inclusão da  imunoterapia na estratégia terapêutica, um em cada 5 destes doentes vive anos com a doença controlada. Para estes doentes, passou a ser uma doença crónica.

TC/SO

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