A Idade dos Doentes

Luis Gouveia de Andrade

Luis Gouveia de Andrade

Médico Oftalmologista

Grupo Lusíadas Saúde

Director Geral da InfoCiência

Escrevi recentemente sobre a idade dos médicos, na perspetiva do seu impacto no desempenho profissional.

Essa reflexão, associada a uma consulta a um casal meu paciente já há muitos anos, suscitou este segundo texto dedicado à idade dos nossos doentes.

Um dos fascínios do exercício da Medicina é poder acompanhar um mesmo paciente ao longo de muitas décadas, vendo-os crescer ou envelhecer, dependendo dos casos.

E são dois processos geradores de sentimentos muito diversos. No caso das crianças que vão crescendo ano após ano, que se vão tornando adultos, constituindo família que passa a ser também por nós acompanhada, é gratificante poder testemunhar essa evolução e poder, em muitos casos, participar nela oferecendo sugestões sobre vias profissionais, sobre viagens, restaurantes, livros, etc. Muitas vezes sem o sabermos, acabamos por deixar a nossa marca nessas vidas, nas suas opções, no seu rumo, muito para lá do âmbito dos cuidados de saúde. E estes podem ser igualmente decisivos. Por exemplo, uma cirurgia refrativa pode decidir o rumo académico, uma intervenção precoce numa ambliopia pode impedir uma criança de se tornar um adulto com limitações visuais.

No caso dos adultos que vemos envelhecer, é mais pesado. As faculdades vão-se perdendo, o discurso vai-se alterando, a marcha torna-se penosa. Pacientes com quem falávamos sobre tudo, com quem nos ríamos, vão-se apagando aos nossos olhos, perdendo a chama que neles brilhava. E vamos sabendo que muitos vão ficando pelo caminho.

Todos nós passamos por estes processos com os nossos filhos e com os nossos pais. Mas os médicos replicam esse processo vezes sem conta nos seus doentes. E, do mesmo modo que vemos o decurso da nossa vida na dos nossos pais e filhos, acabamos por o ver também em todas essas pessoas com quem nos cruzamos na intimidade de um consultório mas que contaminam a nossa própria vida com as suas experiências, as suas alegrias, as suas conquistas, os seus receios.

Não ficamos impunes a toda essa exposição. Mesmo sem darmos conta ou sem o querermos assumir, a nossa essência, o nosso processo de pensamento, a nossa visão do mundo, os nossos afetos vão sendo modulados por esse contacto, seja ele mais ou menos agradável, deixe ele mais ou menos memória.

Recordo-me, com frequência, de doentes que vi apenas uma ou duas vezes há já muito tempo, e que não voltei a ver. Pergunto-me o que lhes terá acontecido e por que razão não regressaram. Passam-me imagens, sons, momentos pelo espírito. Ao fim de milhares e milhares de consultas, esse fluxo é enorme e incontrolável.

Este processo constante de transferência de influências, para lá do impacto no nosso percurso, acarreta algo ainda mais importante: a responsabilidade. E a dois níveis distintos.

Primeiro, a responsabilidade estritamente profissional. Aquela que emana da deontologia, da ética, do nosso dever de bem tratar todos os que nos procuram e de lhes proporcionar os melhores cuidados. Esta responsabilidade adquire este carácter transgeracional. Tratamos uma geração e ela confia-nos as que a antecedem e as que lhe sucedem e essa confiança que em nós é depositada só pode merecer a nossa dedicação, o nosso rigor e… o nosso agradecimento…

Em segundo lugar, a responsabilidade social e humana. Embora, face aos nossos doentes, a componente técnica e científica seja o motor que inicia todo o processo, é impossível dissociar essa componente da emocional, da afetiva, da subjetiva. Sobretudo, em relações que se estendem ao longo de décadas. Tornamo-nos confidentes e amigos e o nosso papel na vida dos nossos doentes adquire novas funções que devemos exercer sempre com zelo e bom senso.

Referi no início um episódio recente na minha vida profissional. Um casal nos seus 80 anos que conheço, acompanho e já operei há cerca de 20 anos. Ele altivo, firme, forte, inteligente. Ela extrovertida, de sorriso fácil, exuberante a vestir, enérgica em tudo. Assisti a tudo isso, à cumplicidade entre ambos, aos sucessos e às perdas. Ouvi, partilhei, tentei ajudar. Após uma vida bem-sucedida, hoje recebo-os a ambos pro bono. E não poderia ser de outra maneira.

Ano após ano, sobretudo nos últimos 5, presencio a perda de energia, a postura rendida, o olhar indiferente, apagado e cansado, a autonomia perdida. É um processo lento mas que vai acelerando, tornando-se mais percetível, mais palpável, mais doloroso.

Neste casal vejo igualmente o meu passado, o meu presente e o meu futuro. Imagino o passar do tempo e o seu efeito naquilo que serei. Sinto a minha vulnerabilidade.

Eis um texto mais pessoal. Como para mim é a Medicina. E como devia ser sempre.

A idade dos médicos conta. E a idade dos doentes também. De formas diferentes mas estranhamente iguais. Enquanto envelhecemos e os nossos doentes também, sabemos tratá-los melhor mas sabemos que muitos irão partindo e, também por isso, é importante sermos capazes de tornar cada vida que por nós passa não apenas mais saudável mas mais rica, mais preenchida, mais completa.

Enquanto médicos temos esse enorme poder de influenciar e, com esse poder, vem a responsabilidade de merecer a confiança dos nossos doentes, de lhes dar o melhor de nós e de ver em cada um deles não o recetáculo do nosso conhecimento mas um ser humano que precisa de nós e a quem podemos dar muito mais do que uma prescrição.

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