O especialista, que venceu o “Prémio de Investigação Centro Hospitalar de Leiria 19 – José Ribeiro Vieira”, explicou à agência Lusa que o trabalho incidiu essencialmente sobre doentes com enfartes do miocárdio, sem obstrução das artérias coronárias (myocardial infarction with nonobstructive coronary arteries – MINOCA).

Fernando Sá adiantou que estes casos são pouco comuns e no hospital de Leiria representam entre 05% a 10% dos diagnósticos de enfarte.

Dr. Fernando Sá

“São doentes que tinham uma pequena obstrução que ‘instabilizou’ e causou uma lesão que, quando vamos fazer cateterismo, já desapareceu.

Sendo uma lesão ‘normal’ que deixou de estar presente, é preciso excluir outros diagnósticos, porque são tratados de forma completamente diferente, como a miocardite”.

Ou seja, o diagnóstico de enfarte “pode estar a camuflar uma miocardite”. Sem certezas, a investigação sugere que se realize uma “ressonância magnética cardíaca para esclarecer se é mesmo miocardite ou não”.

Fernando Sá reforçou que dentro do grupo que não tem obstrução coronária, “alguns não têm de facto um enfarte, mas miocardites”.

“Outros têm enfartes, mas de causas mais raras, como espasmos nas artérias”.

O diretor do Serviço de Cardiologia e do Centro de Investigação do Centro Hospitalar de Leiria, João Morais, acrescentou que o enfarte do miocárdio clássico traduz-se numa “doença nas artérias do coração, em que uma delas vai ‘entupir'”.

O cardiologista recordou que só recentemente todas as pessoas são alvo de cateterismo, pelo que os médicos começaram a aperceber-se que “há uma franja de doentes com enfarte do miocárdio que não têm doenças coronárias”.

“Com esta investigação, a nossa mensagem fundamental é que, quando temos situações destas, não fiquemos apenas com os braços cruzados e investiguemos se não são situações inflamatórias do coração, aquilo a que se chama de miocardites”, afirmou João Morais.

O responsável pelo Centro de Investigação do CHL reforçou que “muitos doentes que têm miocardites podem ter complicações a longo prazo, pelo que devem ser acompanhados”, até porque “se está a falar de uma população que é relativamente jovem, com menos de 50 anos, e que vão desenvolver mais tarde situações de insuficiência cardíaca”.

Fernando Sá, médico interno de formação específica em Cardiologia no Serviço de Cardiologia do CHL, referiu que quis aprofundar o tema, uma vez que não é muito estudado pela comunidade científica. “O facto de termos casos aqui despertou-me a curiosidade na altura em que estava a começar a especialidade”.

O trabalho, que se baseou no estudo de 1.047 doentes do Serviço de Cardiologia do CHL, entre 2011 e 2016, adianta como paciente típico de MINOCA mulheres jovens, não fumadoras, com fibrilação auricular sem elevação do segmento ST, e sem historial de enfarte agudo do miocárdio.

Depois de apresentar o seu trabalho no congresso de Munique, Fernando Sá revela que foram contactados por suecos, americanos e australianos, que pediram os dados de Leiria para juntar aos seus e “aumentar o número de doentes a ser em estudados com esta patologia”.

Além disso, “há possibilidade de haver um estudo nacional sobre este tema”.

SO/Lusa

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