Olhando para o terreno e para o que tem sido feito, a perceção é de que vamos conseguir atingir a meta da eliminação da Hepatite C enquanto problema de saúde pública até 2030?

Há um conjunto de especialistas que defendem que, a este ritmo, não chegamos lá. São pessoas com créditos e que têm apresentado as razões pelas quais acham que não vamos chegar à eliminação em 2030.

Eu aderi a uma iniciativa que reúne um conjunto de especialistas, que defendem que não vamos atingir os objetivos a não ser que corrijamos algumas coisas.

Mas a posição oficial é a de que vamos alcançar essa meta.

A Dra. Isabel Aldir (Diretora dos Programas Nacionais Prioritários Para a Infeção VIH/SIDA e ParaHepatites Virais) escreveu um artigo em que, usando argumentos racionais, defende que vamos atingir esse objetivo.

O que se passa? Os dados disponíveis não permitem quantificar a realidade?

Temos que ter melhores instrumentos para medir a realidade. Melhores estimativas do número de pessoas que vivem com hepatite C, de quantas estão por diagnosticar. Quantos mais dados de qualidade existam, mais nos aproximamos de estimativas fiáveis. Depois precisamos de saber onde estão as pessoas que ainda não foram tratadas nem diagnosticadas.

Quais as medidas preconizadas? Rastreios à população, a grupos-alvo?

Há diferentes teses: testar toda a gente uma vez na vida é uma delas, como também há quem defenda que se devem centrar atenções nos grupos-chave e áreas geográficas prioritárias. Pessoalmente acho que o importante é que se tomem decisões. Isto é, pode até não se tomar a decisão correta, mas tem que se decidir. Enquanto cidadão tenho o direito de saber o que o Estado se compromete a fazer nos próximos anos. Depois mede-se e conclui-se se foi um sucesso, ou um fracasso e se for um fracasso corrige-se.

O pagamento dos antivirais de ação direta, que no início era centralizado na ACSS, é hoje responsabilidade de cada hospital. Houve ganhos com a mudança?

Não, de maneira nenhuma. Bem pelo contrário. No modelo de pagamento centralizado, os hospitais não estavam dependentes dos seus próprios orçamentos e da sua capacidade de cabimentar despesa. Com o fim do pagamento centralizado, os hospitais herdaram esse custo que antes não tinham. Passámos a ter uma situação de iniquidade, no sentido em que num hospital que esteja em boas condições financeiras ou em que os serviços que tratam a hepatite têm capacidade negocial face ao conselho de administração, as pessoas têm o acesso facilitado e em hospitais com dificuldades (como o Centro Hospitalar de Lisboa Central, por exemplo), está a dar-se medicação para o VIH para um mês, quando a regra devia ser de três meses.

Como se explica?

Não têm folga orçamental para fazerem as encomendas que precisam para gerirem os stocks na farmácia. Ao fim do ano, a despesa é exatamente a mesma. Portanto, fazem um racionamento da dispensa dos medicamentos exclusivamente por esta razão, por causa da cabimentação financeira.

Há também quem diga que se forem adotadas medidas concretas, era possível atingir a eliminação em cinco anos.

É possível e seria desejável para 2025. Para isso, três coisas deveriam ser asseguradas: haver prioridade política na área das doenças transmissíveis e da saúde dos grupos em maior risco, para que Portugal assumisse a dianteira a nível global (uma via rápida). Esse compromisso político tem de se traduzir num consenso sobre como medimos o que estamos a fazer.

A investigação não se traduz em conhecimento?

Nem sempre em bom conhecimento, o que é errado. As áreas da produção de conhecimento, do rastreio e da adesão aos tratamentos são três das lacunas às quais é possível dar resposta. Falando na hepatite C, estamos a pagar cerca de 7 mil euros por tratamento. Com o pagamento centralizado, é possível impor um teto de despesa anual, acordado com o Ministério das Finanças. A nossa proposta é no sentido de Portugal, usando a concorrência entre as três companhias, poder pagar 4 mil euros por tratamento. Para isso, é preciso impor algum volume para poder negociar com a indústria farmacêutica. O teto que o GAT propõe é de 20 milhões de euros/ano mas poderemos descer mais (em 2015 e 2016, gastámos 60 milhões/ano). Quando defendemos que é possível gastar 20 milhões de euros/ano e tratar toda a gente, achamos que parte do montante que for poupado seja alocada às áreas onde temos falta de recursos e o resto vá para “ajudar” no atual desmando com o aumento de gastos noutras áreas terapêuticas hospitalares.

Por exemplo onde?

Não é possível fazer melhores rastreios se não tivermos mais recursos. Não é possível produzir conhecimento e montar respostas eficazes para melhorar a adesão das pessoas que usam drogas, por exemplo, sem recursos. Portanto, realoquem uma pequena percentagem e nós asseguramos a resposta muito rapidamente para “estarmos despachados” em 2025.

Falta liderança política?

Era importante que houvesse um desígnio nacional, uma liderança política forte, uma racionalidade económica e de saúde pública forte. Nós, doentes e associações de doentes, nesta área estamos disponíveis para fazer a pressão onde fosse necessário para controlarmos as despesas com os medicamentos. Mas temos de ter contrapartidas para situações onde a resposta é insuficiente, por exemplo nas prisões, na população que usa drogas – e que são ainda o reduto de transmissão. Vamos ter ainda umas centenas de transmissões todos os anos enquanto não conseguirmos resolver satisfatoriamente o acesso ao rastreio, ao diagnóstico e ao tratamento.

Qual é a população que vos merece maior cuidado?

Temos, em termos epidemiológicos, um grupo que o GAT tenta monitorizar, pelo menos na ARS de Lisboa e Vale do Tejo, que é o dos homens que fazem sexo com homens. Em Portugal temos sinais de que a transmissão começa a aumentar neste grupo. É verdade que não temos ainda os níveis que se viram em Londres, Berlim, Paris, Antuérpia, Barcelona, etc. mas, se não atuarmos cedo, podemos criar as condições para que haja um surto epidemiológico neste grupo. Ele pode agora ser controlado com poucos custos. Se nada se fizer e o surto de facto vier a verificar-se vai-nos custar dez vezes mais do que a prevenção que seria necessário fazer agora. Dou um exemplo, o GAT-Checkpoint Lx detetou um aumento de novos casos de VHC em HSH, com uma origem comum, fomos lá estudámos, propusemos medidas preventivas práticas que, parece funcionaram. Pensávamos que era possível melhorar o que tinha sido conseguido em 2015, em termos de custos/ano

Ainda assim houve ganhos muito bons em termos de negociação.

Sim mas se se considerar que, no momento em que a terapêutica era verdadeiramente revolucionária, só havia uma companhia no mercado, e se virmos que 3 ou 4 anos depois, com três players no mercado, se tenha conseguido uma redução na despesa por doente que deve rondar os mil euros, isso é claramente insuficiente. Os 7500 euros por doente em 2015 era o melhor preço da europa. Neste momento, há vários países a pagar menos por doente curado. Em Portugal deveria acontecer o mesmo. E se não acontece é por miopia dos políticos.

Qual é a média de espera pelos medicamentos? Quais são os piores casos?

Há dados muito díspares ao longo do país. Há hospitais que tratam em dois meses, outros em seis e temos pessoas que levam mais de um ano a ter acesso ao tratamento. Pior do que isso é o número de pessoas que desistem do acompanhamento hospitalar. É uma verdadeira “corrida de obstáculos”: hoje é o fibroscan, no outro dia é a ecografia e no outro dia mais não sei o quê. Ora, um grupo de pessoas, com vidas muito complicadas, e em situação económica difícil, ou ainda porque trabalham, é frequente desistirem. Não temos os dados de quantas pessoas são diagnosticadas e não chegam a iniciar o tratamento. É evidente que ninguém morre se esperar 3, 4, 5 meses pelo tratamento. O que acontece é que essas pessoas continuarão a ser potenciais  focos de infeção. Tem de ser fazer um investimento sério no diagnóstico e no conhecimento da realidade e no apoio às populações mais marginalizadas.

MMM/SO

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