A Idade dos Médicos

Luis Gouveia Andrade

Luis Gouveia Andrade

Médico Oftalmologista

Grupo Lusíadas Saúde

Director Geral da InfoCiência

Qual a idade ideal de um médico?

Em que médicos confiamos mais?

Nos mais novos, acabados de se formar e de se especializar e, por isso, com toda a informação mais “fresca”?

Nos mais velhos que, embora potencialmente menos actualizados, encerram em si uma enorme experiência resultante de milhares de pacientes, de fracassos, de sucessos, de partilha de casos com os seus pares?

E no caso de uma cirurgia? Como colocar na balança a juventude, a destreza, os reflexos versus a maturidade, a serenidade, a “mão feita”?…

Não são questões fáceis e, provavelmente, nem têm uma resposta linear mas, na verdade, a definição do limite de idade a partir do qual um médico deve reformar-se ou um cirurgião deixar de operar continua a merecer a nossa atenção, tendo sido objecto de dois artigos no último número da Acta Médica Portuguesa.

Todo o limite de idade, seja para votar, para casar ou para tirar a carta, é profundamente subjectivo, deixando de fora do exercício desses direitos muitas pessoas plenamente aptas para os exercerem e, inversamente, abrindo a porta a outras com um nível de imaturidade emocional ou cognitiva que recomendariam maior ponderação.

Sendo impossível uma avaliação individual, o estabelecimento de limites com bases em elementos estatísticos devidamente robustos continua a ser a única forma de, em sociedade, se poder tomar decisões destas e de outras naturezas.

No caso da actividade médica, o Serviço Nacional de Saúde define como limite máximo os 70 anos de idade. Nos hospitais privados, os critérios variam, alguns definindo um limite enquanto noutros esse limite não está formalizado.

Como proceder?

É inquestionável que a maior mais-valia de um médico ou de outro profissional da saúde é a sua experiência. A formação é essencial, a actualização obrigatória mas, pela sua essência, a actividade médica cresce no quotidiano, ouvindo os pacientes, observando-os, tratando-os, identificando sinais e sintomas quase imperceptíveis, correlacionando casos, cruzando memórias, exercitando os afectos e a humanidade que deve ser a base da Medicina.

A formação de um médico não termina no final na licenciatura ou do internato complementar. Pelo contrário, é aí que tudo começa, é aí que a matriz do futuro médico começa a ganhar forma, a moldar-se e a preparar-se para os desafios que cada caso, cada doente coloca. É uma curva de aprendizagem longa e nunca concluída onde, ao longo do seu caminho, ocorrem recuos, reposicionamentos, derivações que enriquecem todo esse percurso e o tornam único.

Como regra, a idade melhora o desempenho de um médico, afina os seus processos de decisão, permite-lhe ver o que outros não vêm, torna-o mais ágil e intuitivo.

Naturalmente, esse processo é finito e a deterioração mental e física irá surgindo, a memória ir-se-á esfumando, a energia e disponibilidade para estudar será menor, a destreza cirúrgica reduzir-se-á e os gestos reflexos, por vezes decisivos em ambiente operatório tornar-se-ão mais lentos. Nesse contexto, o risco de um médico poder prejudicar os seus doentes tenderá a aumentar…

Mas, como para qualquer ser humano, esse processo pode ser mais rápido ou mais lento, mais precoce ou mais tardio e irá sempre depender da existência de comorbilidades, da predisposição genética, da natureza da própria actividade médica ou cirúrgica.

Um médico pode estar plenamente apto para tratar e operar doentes aos 75 anos como pode não o estar aos 60 e essa avaliação deve ser constantemente realizada pelo próprio e pelos seus pares.

Os limites são úteis como referenciais e permitem que se criem janelas de oportunidade para renovação dos quadros clínicos. Contudo, parece-me central reter que a Medicina é um repositório de conhecimento e de experiência e que esta ocupa um lugar destacadíssimo na procura da excelência nos cuidados médicos.

Dispensar um médico sénior apenas em nome desse limite é um desperdício incalculável de saber que pode e deve ser colocado ao serviço dos doentes e dos médicos mais novos e, sobretudo, pode permitir a manutenção em funções de profissionais cujas competências estão comprometidas.

Parece-me, por tudo isto, que o mais sensato e o mais útil para todos é a criação de mecanismos de auto-avaliação e de avaliação por pares que possam aferir, por exemplo, taxas de complicações cirúrgicas, tempos operatórios, reclamações relativas a consultas, pontualidade, assiduidade, entre outros parâmetros.

Em conjunto, com espírito de equipa e de forma construtiva, será possível detectar e corrigir alterações nos padrões habituais e implementar as melhores medidas para cada caso. E essas medidas poderão passar pela redução da carga horária, pela manutenção da actividade clínica mas não da cirúrgica, pela transição para funções consultivas e/ou académicas ou mesmo pela reforma, tudo isto dependendo do perfil de cada profissional, das suas competências e da sua vontade.

A reforma apenas porque sim, quando um médico não a deseja e, mais do que isso, quando as suas qualificações não estão em causa, é um desbaratar sem perdão de um capital que demorou décadas a juntar, que é irrepetível e que merece ser colocado ao serviço de todos.

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