Com reputação internacional na área da investigação e desenvolvimento de novos medicamentos, o palestrante foi Vice-presidente e líder da área de Biologia da multinacional GlaxoSmithKline. Esteve envolvido na identificação de mais 40 medicamentos candidatos para o tratamento de muitas doenças gastrenterológicas, intestinais, inflamatórias e neuro-psiquiátricas. Mais de 20 dessas moléculas chegaram a ser testadas em ensaios clínicos com humanos e mais de 5 delas demonstraram “proof of concept”, tendo avançado para as fases finais de desenvolvimento.

Em Portugal, Chas Bountra apresentou um novo paradigma de investigação de novos fármacos.

Apresentado pelo Dr. José Martins Nunes, que presidiu a palestra, Chas Bountra começou por evidenciar os extraordinários progressos feitos pela Gilead Sciences na descoberta de medicamentos inovadores: “Falamos de medicamentos que curam doenças até aqui incuráveis, algo que, na minha área de investigação e para as doenças em que trabalho, se está muito, muito longe de alcançar”, testemunhou para logo suscitar interrogações: “deixem-me partilhar convosco algumas coisas que me preocupam neste momento”, começou por dizer, prosseguindo: “preocupa-me que a área da biotecnologia incluindo a Academia, as empresas biotecnológicas e as instituições públicas de saúde, entre outras, não estejam a produzir suficientes medicamentos inovadores. E que os poucos que vão descobrindo, cheguem até nós a um preço insustentável. Mesmo no Reino Unido, que é neste momento o 6º país mais rico do mundo, o National Health Service (NHS) não aprova alguns novos medicamentos devido ao elevado preço a que chegam ao mercado. Preocupa-me também o facto de no seio da comunidade biomédica existirem demasiadas duplicações; grupos a investigarem, separadamente, de forma secreta e concorrencial, as mesmíssimas coisas. Para mim, isso é um desperdício de dinheiro”, sublinhou.

À numerosa audiência presente no evento, Chas Boutra revelou outras das suas preocupações: “fico também muito preocupado quando falo com colegas e eles me dizem que 50, 60, 70% do trabalho académico que produzem não pode ser reproduzido”. Para o académico e investigador, “há que fazer algo relativamente a isto”.

“Fico também muito preocupado quando falo com colegas e eles me dizem que 50, 60, 70% do trabalho académico que produzem não pode ser reproduzido”, afirmou o Prof. Chas Bountra.

E questiona: “e afinal, o que é que os doentes querem de nós? O que nos pedem? A resposta é clara, apontou: “Novos medicamentos! Medicamentos eficazes; medicamentos a preços que eles possam pagar”.

Um desejo que a realidade não satisfaz: “o que nos mostra a realidade? Que no Reino Unido, no próximo ano, vão morrer 350 mil pessoas, vítimas de cancro; quase mil por dia; uma pessoa a cada 90 segundos. Que metade das pessoas presentes nesta sala, em algum momento da sua vida, terá um diagnóstico de cancro. Nos próximos 12 meses, 40 milhões de pessoas em todo o planeta terão um diagnóstico de cancro, que necessita de ser tratado”.

“Também me preocupo muito com demência”, prosseguiu. “No Reino Unido (RU) temos 850 mil pessoas com demência. Em 2050, serão 2,1 milhões.Um em cada 6 dos que vivem além dos 80 anos de idade vão ter demência. No RU, o custo médio de tratamento de doentes com demência é de 32 000 libras por ano. Esse é o valor que o governo paga. No entanto, 2/3 do valor do tratamento é, atualmente, suportado pela família.

Custos muito elevados que levam Chas Bountra a afirmar: “Não faço ideia de como vamos suportar os custos. Desde 2002 que não temos novos fármacos para esta doença, e o melhor que temos apenas funciona entre os primeiros 9 a 12 meses da doença, parando posteriormente de funcionar, enquanto a doença se deteriora. Precisamos (urgentemente) de novos medicamentos”, insistiu.

O problema não é apenas britânico, aponta o investigador. “A saúde mental preocupa-me cada vez mais. Por toda a Europa há 83 milhões de pessoas que sofrem de algum problema de saúde mental. Estima-se que 20% dos europeus terá tendência a ter depressão no decorrer da sua vida”. De acordo com um estudo britânico, 1 em cada 1050 raparigas de 15 anos terá anorexia.

A evolução demográfica é outra das fontes de preocupação do académico. “Em todo o mundo temos sociedades envelhecidas. A maioria dos presentes irá viver até aos 80 anos, alguns até aos 90 e outros que viverão mais do que 100 anos. Nos próximos 20 anos, o Reino Unido verá subir o número de casos de cancro em 180%. O número de doentes com diabetes vai aumentar em 120%”.

O trabalho a realizar é vasto, afirma: “temos também estado a trabalhar nas doenças raras – em todo o planeta existe mais de 7 mil doenças raras, sendo que 30% das crianças com estas doenças não atingem os 5 anos de idade. O diagnóstico para uma doença rara costuma ocorrer entre os 6 e os 8 anos de idade – 95% desses doentes não têm tratamento”, sublinhou, para questionar os presentes: “Consegue imaginar ser pai de uma criança com uma doença rara que não tem acesso a qualquer tratamento?”

“Mas há mais”, afirma: “Hoje em dia, morrem, por ano, 700 mil pessoas em todo o mundo porque são resistentes aos antibióticos existentes no mercado farmacêutico”.

Há uma hipótese de um de nós ir ao hospital, apanhar uma infeção e não melhorar – estima-se que aconteça a 10 milhões de pessoas, em 2050, e de acordo com um estudo, se não desenvolvermos uma nova geração de antibióticos, o problema irá custar ao planeta 100 triliões de dólares. Precisamos de novos e eficazes medicamentos”.

 

São necessários mais medicamentos…. Eficazes

 

Chas Bountra recordou na Figueira da Foz que “há 3 ou 4 anos houve uma investigação que observou os tratamentos que tínhamos disponíveis para tratar tumores sólidos. Tínhamos 71 medicamentos para os tratar. Estes fármacos estão no mercado. Neste estudo, investigaram qual o aumento médio de vida nos doentes que eram tratados com esses medicamentos e chegaram à conclusão que eram 2,5 meses, enquanto a média geral de sobrevivência era de 2,1 meses”. Além disso, avançou, “de entre os 71 medicamentos, concluiu-se que apenas 30% tinham efeitos clínicos comprovados”.

“A forma como estamos a descobrir e fabricar novos medicamentos e terapêuticas não é a forma mais eficaz de o fazer – é demasiado caro, perigoso e lento”, alertou o académico.

O custo dos novos medicamentos é, insistiu, um dos principais problemas “não vamos conseguir suportar estes novos tratamentos e medicamentos Nobel. E é claro que precisamos destes fármacos rapidamente. Para alguns doentes, o ‘amanhã’ é tarde demais. Eles querem-nos agora”.

Chas Bountra partilhou com a audiência uma experiência pessoal ilustrativa do problema: “Eu vivia e trabalhava em Oxford, no Reino Unido, e de uma cidade, a 60 milhas de distância, uma senhora veio ter comigo porque a filha tinha uma doença rara que afeta 1 em cada um milhão de pessoas. O médico e a mãe foram ter comigo ao meu consultório e a mãe começou a chorar por não ter esperança na cura da filha. Não havia tratamento e ninguém procurava encontrar uma terapêutica para a jovem. Perguntei como estava a filha e a mãe disse-me ‘Ela tem 22 anos e acabaram de lhe remover todo o intestino’. Em agosto do ano passado, recebi um email da mãe a contar que a filha tinha morrido. Nos dias seguintes, senti-me horrível, porque a mãe tinha vindo ter comigo para pedir ajuda e eu não tinha como”.

Um outro caso: “No ano passado durante uma conferência, uma senhora disse-me que a filha tinha morrido com um tumor no cérebro e que se quiséssemos estudar o seu cérebro, poderíamos fazê-lo. Isto demonstra o desespero das famílias, dos pais e cuidadores. A forma como estamos a descobrir e fabricar novos medicamentos e terapêuticas não é a forma mais eficaz de o fazer – é demasiado caro, perigoso e lento”, denunciou.

Interroga-se o especialista: “Se a indústria farmacêutica emprega algumas das pessoas mais inteligentes do planeta, que têm acesso a tecnologia de ponta, a grandes recursos… Então porque é que se continuam a cometer estes erros?”

Para Chas Bountra, há três razões que podem explicar os erros:

“Em primeiro lugar, pela ciência – para muitas doenças os médicos não encontram uma causa específica ao nível da molécula. Para muitas doenças não temos bons biomarcadores. Se fizer um estudo clínico assente na depressão, não consigo dizer ao doente ‘Está menos deprimido hoje do que estava no mês passado?’. Se estiver a estudar o Alzheimer não posso perguntar ‘Está a sua memória melhor hoje do que no mês passado?’”

Outra das causas possíveis, tem a ver com o modelo de investigação seguido: “muitos de nós, tanto na faculdade, como na indústria guiamo-nos pelos ‘modelos dos animais’. Não acredito que esses modelos consigam prever o que irá acontecer na prática clínica com humanos na maioria destas doenças. Podem ajudar nas doenças infeciosas, mas não em muitas práticas clínicas. Aliás, vi muitos resultados surpreendentes acontecerem quando eram realizados testes em animais, mas que na prática clínica não resultavam. Existem muitos medicamentos que não sabemos como funcionam e a maioria de nós já tomou – paracetamol, por exemplo. Por esse mundo fora, há cerca de 100 milhões de pessoas a tomar este medicamento. Contudo, não sabemos qual o alvo da molécula desse fármaco. E, se não sabemos, como podemos melhorar e inovar, criando novos medicamentos?”

O segundo grande desafio indutor de erros é o da organização, apontou o investigador. “A maioria das empresas concorrentes (cerca de 200) do ramo farmacêutico trabalham em segredo, no target de uma determinada molécula durante 5, 6 ou 7 anos e depois, quando é transportada para a clínica para a fase final de teste, 90% das vezes não resultam – mais uma vez, uma perda imensa de tempo e dinheiro!”

O pior, disse, “é que há pessoas que trabalham nessas clínicas que sabem que a experiência vai falhar quando chegar à fase final e não o dizem às outras empresas/laboratórios”.

Uma situação que no seu laboratório está a mudar, revelou: “em Oxford, estamos a tentar juntar recursos e dessa forma partilhar o conhecimento. Estamos a conseguir recolher bastante financiamento – já conseguimos recolher mais de 40 milhões de euros. Estamos a recolher fundos junto de organizações para, posteriormente, partilhar com os restantes”.

Mas fazem mais: “depois, estamos a tentar trabalhar em ideias totalmente inovadoras. Não vamos trabalhar a partir de ideias que são já citadas em 100 estudos e que estão a ser utilizados por 50 laboratórios para encontrar novos medicamentos para combater estas doenças.

Questionou-se então sobre o que poderiam fazer com essas experiências. “Em primeiro lugar, purificamos a proteína humana, depois trabalhamos na fórmula para verificar qual o seu dano. Posteriormente, criamos novas moléculas para essa mesma proteína (o ponto de partida para a descoberta de um novo medicamento) e geramos anticorpos”.

Afirma que tudo o que é gerado é, como disse, “de grande qualidade”. E isso (a descoberta de novas fórmulas) não acontece só porque se trata de uma equipa com muito conhecimento, mas sim porque se encontram a trabalhar com nove grandes empresas farmacêuticas, que lhes dão acesso à forma como fazem medicina química.

O terceiro passo neste processo, de acordo com o investigador, “e que é, provavelmente, aquilo que mais nos distingue, é que todas estas ferramentas, todo o nosso conhecimento e experiências estão disponíveis gratuitamente. Abdicámos de ter propriedades intelectuais ou patentes das nossas descobertas. Portanto, qualquer pessoa pode aceder às nossas descobertas, processo de descobrimento e implementação das experiências no processo de criação de novos fármacos – os estudantes, profissionais de biotecnologia e profissionais de farmacêuticas”.

O cientista afirma ser esta a “melhor forma para acelerar a ciência” e assegura: “a transparência em que nos baseamos é excelente para a ciência, para a saúde e esse é a razão pela qual muitos estudantes e outros profissionais querem trabalhar connosco”.

“Temos cerca de 300 laboratórios universitários que utilizam a nossa partilha para testarem novos medicamentos/tratamentos em diversos projetos/áreas”, sublinhou.

Outra coisa que fazemos é publicar e dar livre acesso de todos estes dados aos media” concluiu.

 

Miguel Múrias Mauritti

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