Qual impacto é que o excesso do colesterol LDL pode ter ao nível cardiovascular?

Os níveis elevados de colesterol no sangue são o principal fator de risco para o desenvolvimento da doença aterosclerótica na população. Esta doença começa com a deposição de colesterol na parede das artérias, formando placas que crescem de forma lenta e silenciosa ao longo de anos ou décadas. Algumas delas acabam por romper de forma súbita, provocando enfartes ou acidentes vasculares cerebrais (AVC).

As sociedades científicas recomendam valores de LDL diferentes consoante o risco cardiovascular. De que valores estamos a falar?

Essa é uma noção muito importante a ter. Os valores a atingir são diferentes de pessoa para pessoa e dependem do risco cardiovascular de cada um. Resumidamente, se o risco é considerado muito elevado (por exemplo devido à presença de diabetes com outros fatores de risco, ou por já terem tido um enfarte ou AVC), os valores de colesterol LDL (por vezes chamado de “colesterol mau”) devem ser inferiores a 70 mg/dL. Se o risco é considerado elevado, os valores devem ser inferiores a 100mg/dL, e se for moderado ou baixo, deverão ser inferiores a 115 mg/dL.

Existe uma estimativa em relação ao número de portugueses com colesterol elevado?

Estima-se que mais de metade da população adulta em Portugal tenha colesterol elevado. São números muito expressivos.

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Dr. António Miguel Ferreira, Cardiologista.

Regra geral, os portugueses controlam bem os seus níveis de colesterol?

Infelizmente, não. Muitos dos que têm colesterol elevado não sabem que o têm. E entre os que estão diagnosticados, a maior parte não atinge os valores alvo recomendados, sobretudo quando o risco é mais elevado e os alvos são consequentemente mais exigentes. As causas para este fenómeno são múltiplas e incluem a inércia terapêutica e o sub-tratamento (quando se usam fármacos menos potentes ou em doses inadequadas para os objetivos a atingir).

Quais as conclusões do estudo EUROASPIRE V, realizado em 2016 e 2017 em 21 países?

O estudo EUROASPIRE V mostrou que, mesmo em doentes que já têm doença das artérias coronárias, o controlo dos fatores de risco deixa muito a desejar. A maioria mantém hábitos de vida pouco saudáveis em termos de dieta, sedentarismo e tabagismo e são relativamente poucos os que atingem os seus alvos de pressão arterial, colesterol e açúcar no sangue. Este estudo vem mostrar o trabalho colossal que todos temos pela frente, não apenas a comunidade médica, mas como sociedade em geral.

Que grupos populacionais são mais atingidos pelo colesterol elevado?

O colesterol elevado afeta em geral pessoas adultas de ambos os sexos. A partir dos 40 anos de idade torna-se muito frequente, mas não é mais frequente no idoso do que na pessoa dita “de meia idade”.

Que medidas podem as pessoas adotar para reduzir o colesterol e reduzir o risco de doenças cardiovasculares?

Algumas medidas muito simples podem ter um efeito enorme, sobretudo se adoptadas relativamente cedo na vida. Ter uma dieta equilibrada (de preferência de estilo mediterrânico), praticar exercício físico regular e não fumar são medidas importantíssimas.

No que diz respeito à dieta, importa sobretudo reduzir o consumo de gorduras saturadas que podem ser encontradas na carne (sobretudo a processada na forma de salsichas, hambúrgueres, etc.), na manteiga, nos bolos, pastéis e biscoitos, etc. Mais importante do que o teor de um alimento em gorduras ou colesterol, é o seu teor em gorduras saturadas. Para escolher bem pode ajudar saber que as gorduras saturadas (como a gordura da carne ou a manteiga) são geralmente sólidas à temperatura ambiente, ao passo que as gorduras insaturadas (como o azeite) são geralmente líquidas à temperatura ambiente.

Qual é o tratamento farmacológico standard usado hoje em dia? Há razão para se duvidar da eficácia das estatinas?

Quando a dieta e alterações do estilo de vida não são suficientes, recorremos ao tratamento farmacológico. Os medicamentos que usamos em primeira linha são as estatinas, fármacos que diminuem a produção de colesterol no fígado. Existem sete estatinas disponíveis em Portugal, com diferentes potências e doses e com as quais seria possível controlar a maior parte dos doentes. São fármacos bastante seguros mas, como qualquer medicamento, podem ter efeitos secundários, dos quais os mais comuns são as dores musculares. Ultimamente, uma certa corrente tem tentado “diabolizar” as estatinas mas na verdade, se utilizadas nas pessoas adequadas, a relação risco-benefício é geralmente muito favorável.

Tiago Caeiro

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