Para esta especialista, as implicações de uma resposta virológica sustentada ultrapassam a eliminação de uma infeção viral. “Estamos a falar em melhorar os resultados clínicos a longo prazo, em melhorar a qualidade de vida e até em benefícios económicos”, disse na sua apresentação.

No que diz respeito à qualidade de vida, a docente universitária referiu o facto de muitas vezes os estudos definirem esta “qualidade de vida” não tendo propriamente em conta o significado ou a perspetiva das pessoas que injetam drogas. “Normalmente são pessoas que estão resignadas ao silêncio e a serem recetores passivos de cuidados de saúde com medo de perderem o acesso. São pessoas sem voz e com baixas expectativas na qualidade dos cuidados”.

Citando estudos em coautoria com outros profissionais e especialistas, nomeadamente Annie Mandde, Max Hopwood, Jo Neale, Elena Cama, Loren Brener, Tim Broady e John de Wit, Carla Treloar apresentou diversos testemunhos de participantes nos estudos que deram a sua visão no que diz respeito a temáticas como a cura, o dia-a-dia, a identidade, a atitude perante a vida e também os efeitos na saúde.

 

 

“Não tem propriamente a ver com ficar saudável. Tem a ver com prevenção… Para mim, é mais uma medida preventiva do que ficar saudável. Espero que, ao fazer o tratamento, a minha saúde no futuro melhore, em oposição a ficar saudável agora”, testemunhou uma paciente, mulher, de 58 anos, citada por Jason Grebely. Um outro testemunho, agora de uma jovem mulher com 18 anos de idade, referiu: “Não mudou muito a minha vida porque eu não tive realmente qualquer sintoma. A maior mudança que senti foi emocional. Passamos a ser uma pessoa com uma doença crónica que tem o potencial de cortar a esperança de vida”.

A complexidade de vida, muitas vezes associada aos portadores de vírus de Hepatite C, é uma realidade. Carla Treloar referiu dificuldades económicas, doenças mentais, dependência e abuso de drogas para além de relações pessoais complicadas, tudo isto envolto num estigma social.

A especialista defendeu a necessidade de se expandirem os cuidados para além do vírus. Ou seja, usar os cuidados que visam o tratamento da Hepatite C junto da comunidade como uma infraestrutura ‘core’ para outras iniciativas de saúde, como a cessação tabágica, a prevenção de cancro ou outros cuidados de saúde muito prevalentes nesta população, como os hepáticos.

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