A Good Shepherd Pharmacy e a RemediChain são duas organizações dedicadas à reciclagem de medicamentos caros contra o cancro bucal fazem parte de um consórcio de entidades de saúde recentemente escolhidas pela Food and Drug Administration (FDA), dos EUA, para um projeto-piloto da cadeia de fornecimento de medicamentos.

Estas start-ups, sediadas em Memphis, no Tennessee, nos EUA, utilizam as cápsulas de quimioterapia e comprimidos doados por indivíduos e clínicas ou hospitais e dão-nos, depois, a pacientes que não têm suficiência económica para pagá-los, visto serem medicamentos muito dispendiosos.

A reciclagem de medicamentos contra o cancro está a ganhar força na comunidade de oncologia, como foi evidenciado por um recente estudo que classificou este conceito de “medicamente correto” e ambientalmente sensato.

A ideia baseia-se na premissa de doar medicamentos não usados, ideia esta totalmente  apoiada pela comunidade científica, uma vez que não ficam inutilizados e podem ajudar alguém que não tem posses para comprar os medicamentos “em primeira mão”.

“Estou muito entusiasmado com o projeto-piloto do FDA, porque acrescenta credibilidade ao nosso trabalho inovador, que é a recuperação de medicamentos valiosos que salvam vidas”, disse Phil Baker, cofundador da Good Shepherd Pharmacy e da RemediChain, em entrevista ao Medscape Medical News.

A Good Shepherd e a RemediChain são organizações recentemente estabelecidas, que utilizam tecnologia de dados de ponta – “blockchain-enabled” (tecnologia adequada para indústria muito controlada em termos de regulamentação, como a farmacêutica) para rastrear “transferências de medicamentos” na cadeia de suprimento de drogas.

Na Good Shepherd Pharmacy, as transferências de medicamentos ocorrem quando, por exemplo, a família de um paciente morto com cancro de mama metastático decide doar Palbociclibe não utilizado para a organização. Posteriormente, a RemediChain, responsável pelo conceito de reciclagem de Phil Baker, combina os medicamentos doados com os pacientes mais adequados nos vários estados dos EUA.

No entanto, segundo o cofundador das organizações, “o processo está repleto de desafios”, incluindo o facto dos medicamentos serem estigmatizados.

“Alguns pacientes podem mostrar-se relutantes em tomar remédios doados porque não sabem ‘de onde vêm’, por assim dizer”, explicou.

É aí que entra em cena a gestão inovadora da cadeia de suprimento de medicação. A RemediChain, que trabalha com doações de várias fontes, incluindo indivíduos e clínicas de cancro, acede novamente aos dados da cadeia de suprimentos e recria as informações que faltam, como a fabricação e as datas de validade dos medicamentos, esclareceu Phil Baker, adiantando que essa nova cadeia de dados através da tecnologia blockchain garante a origem e a qualidade do remédio.

“Os novos quimioterápicos são fabricados como pílulas [em enormes quantidades], mas custam cerca de 30 mil dólares [26.740 euros] e servem apenas para um mês. Com mais de 40% dos pacientes a morrer com cancro, trata-se de um duplo golpe: a maioria dos doentes não pode pagar [estes medicamentos], e quase metade da sua fabricação está a ser colocada no lixo”, afirmou o empresário o ano passado ao jornal.

Para o projeto-piloto, a FDA escolheu um consórcio liderado pela empresa de blockchains, Rymedi. O grupo inclui as duas startups de Memphis, juntamente com dois enormes sistemas de saúde, a Indiana University Health e a WakeMed Hospitals and Health. Além destes, mais três outros grupos completam o consórcio: Temptime / Zebra Technologies, Global Health Policy Institute e o Center for Supply Chain Studies.

A indústria farmacêutica foi uma das primeiras utilizadoras da tecnologia disponíveis na Good Shepherd e na RemediChain, utilizando-as para rastrear produtos desde a sua criação na fábrica até à deslocação para a farmácia, local onde os medicamentos são dispensados. Portanto, quando o remédio sai da farmácia deixa de ser seguido. Não há como rastrear os medicamentos após estes saírem de uma farmácia e irem para outro lugar (como uma clínica de infusão de quimioterapia ou uma clínica de repouso) ou para um hospital num sistema de saúde com diversas instalações. Também não há rastreio quando um medicamento é fornecido a um paciente individual.

Uma vez que a agência federal norte-americana que regula o uso de medicamentos, FDA, está interessada em estudar se é importante acompanhar o trajeto do medicamento após a sua dispensa, decidiu criar este projeto-piloto.

“O programa destina-se a ajudar as partes interessadas da cadeia de fornecimento de drogas a desenvolver o sistema eletrônico interoperável que identificará e rastreará certos medicamentos prescritos à medida que forem distribuídos nos Estados Unidos”, declarou.

Erica Quaresma

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