O SaúdeOnline entrevistou os responsáveis do laboratório CGC Genetics, primeiro laboratório privado português a conseguir a propósito do mais recente teste não-invasivo para deteção de doenças durante a gravidez, o Tomorrow. Este é um teste não-invasivo que permite, a partir das 10 semanas de gestação, pesquisar doenças cromossómicas  do feto, com especial enfoque nas trissomias 21, 13 e 18 – síndrome de Down, síndrome de Patau e síndrome de Edwards, respetivamente. Além disso, com a ajuda da Dr.ª Purificação Tavares (médica especialista em Genética Médica e CEO do CGC Genetics), Dr. Jorge Pinto Basto (médico especialista em Genética Médica, Diretor Clínico e Diretor do laboratório de Diagnóstico Molecular e Genética Clínica) e Dr.ª Paula Rendeiro (Bióloga especialista em Genética Humana, Diretora do laboratório de Citogenética e da Qualidade), fomos saber um pouco mais sobre a recente aquisição do novo  equipamento médico de vanguarda e único em Portugal, para “Next Generation Sequencing”, que é capaz de analisar todo o genoma humano.

Saúde Online (SO) – Qual a mais-valia de fazer o teste prenatal não-invasivo numa fase tão precoce da gravidez?

Dr Jorge Pinto Bastos (JPS) – A mais-valia de se fazer tão cedo é que a informação que resulta deste teste fica disponível, tanto para o casal como para o médico, também mais cedo, numa fase mais precoce da gravidez, e caso o resultado seja bom [negativo para as trissomias] permite tranquilizar o casal em relação às doenças que foram testadas mais precocemente.

Caso seja o resultado seja  um mau resultado, também permite agir mais cedo na gravidez – seja fazendo um teste a seguir para confirmar esse resultado -, e eventualmente o casal ter também mais tempo para tomar as suas decisões.

SO – No caso de dar positivo para a presença de Trissomia 13,18 ou 21, qual o teste que se pode realizar para confirmar este primeiro resultado?

JPB – Depois do teste de diagnóstico ser realizado e confirmar essa suspeita, os pais e médico assistente que segue a gestação ficam com essa informação e poderem tomar uma decisão. Serão encaminhados para uma consulta de genética médica, que presta aconselhamento genético, na qual poderão ponderar as várias opções disponíveis, desde prosseguir com a gravidez ou, eventualmente, interrompê-la.

SO – Atualmente, cada vez mais grávidas sem quaisquer antecedentes de doenças genéticas optam por realizar um exame pré-natal para saber se existe o risco acrescido do seu bebé ter alguma anomalia nos seus cromossomas. No entanto, também é possível obter esses dados através de outros exames pré-natal, como por exemplo, através a amniocentese, Rastreio Combinado, teste não-invasivo ou do exame Biópsia das Vilosidade Corioniárias.

Em que medida é que este exame se distingue dos restantes? Ou seja, em que medida é que este exame poderá trazer algo de novo para o panorama médico em Portugal na especialidade de Genética Médica e que ainda não se verifica nos exames anteriormente referidos?

Dr.ª Purificação Tavares (PF) –  Para isso temos que pensar o que é que já estava disponível aos futuros-pais e o que é novidade.

Já havia a amniocentese, realizada a partir das 14 semanas de gestação, com observação direta dos cromossomas e com um diagnóstico a partir do resultado deste exame pré-natal. Posteriormente, apareceu o Rastreio Combinado, feito a partir das 11 semanas de gravidez, com uma deteção de anomalias de cerca de 90%.

A CGC Genetics tem uma vasta experiência no Rastreio Combinado (realizados pelos seus profissionais há cerca de 20 anos), consegue identificar grávidas de risco e, posteriormente, orientá-las para a realização da Amniocentese [teste pré-natal invasivo que acarreta algum risco de abortamento].

Já com o Teste Pré-Natal não-invasivo é feito um exame no sangue da gestante, a partir das 10 semanas de gestação, e identificado e estudado o DNA do feto. Existem alguns  testes disponíveis. O Tomorrow é o teste que realizamos integralmente no nosso laboratório. São caracterizados por serem testes não invasivos, com uma taxa de deteção de cerca de 99%. Como a taxa de deteção é elevada dá uma grande segurança aos pais e médicos assistentes, além de reduzir o número de testes de risco não necessários para certos casos. A enorme redução de amniocenteses que são realizadas é um fenómeno que se está a observar no diagnóstico pré-natal devido à maior adesão a estes testes pré-natais não-invasivos. Além disso, o índice de possibilidade de aborto espontâneo que existia, ainda que numa percentagem muito pequena – cerca de 0,5% -, nestes testes não existe.

JPB – Gostaria ainda de deixar apenas uma nota. Os outros testes não-invasivos existentes em Portugal são requisitados no país e enviados para laboratórios internacionais, a fim de se apurarem e analisarem os resultados, enquanto o Tomorrow é o primeiro teste total e exclusivamente feito e analisado nos laboratórios em Portugal, quer seja a recolha da amostra de sangue, como a análise, a interpretação e o relatório.

SO – Existe a probabilidade de, numa fase precoce, não ser detetado qualquer problema com o feto e, numa fase mais avançada da gravidez, descobrir que se desenvolveram problemas genéticos que originaram uma condição médica grave?

JPB – Temos aqui duas questões. Uma é a doença genética estar presente e não ser detetada e outra é analisar um grupo específico de genes no feto.

O Teste não invasivo rastreia apenas as alterações de cromossomas 13, 18 e 21. Para além dessas três alterações cromossómicas, existem mais de 5 mil doenças genéticas que existem e não estão a ser testadas nestes exames pré-natais não-invasivos, as chamadas doenças raras. Não existe, para já, nenhum teste que diga que está tudo bem do ponto de vista genético. Há, sim, a possibilidade de escolher testes adequados a diferentes circunstâncias, diferentes casais e a diferentes histórias clínicas.

No entanto, quando existe histórico de uma doença genética na família podem fazer-se testes dirigidos a essa doença – um outro estudo que não o teste Tomorrow. Deve ser um teste especificamente dirigido para aquela doença em concreto.

PF – As pessoas têm muito a ideia de que o diagnóstico pré-natal deve ser efetuado a partir dos 35 anos de idade, mas está provado que a típica mãe do portador de Trissomia 21 é jovem, saudável e a notícia  é uma surpresa. Portanto, apesar de estas mulheres se situarem nos índices com menor risco, são precisamente nas faixas etárias abaixo dos 30 anos que se nota uma maior incidência de bebés com trissomias, especialmente da 21. Por esse motivo é que se recomenda realizar o teste NIPT, o pré-natal não-invasivo sem riscos para a mãe, a toda a população de grávidas.Este tipo de testes está a ser muito requisitado, porque, não acarretando riscos para a mãe nem para o bebé, exclui as anomalias cromossómicas mais frequentes.

SO – Quais os fatores genéticos que comportam um maior risco para o bebé desenvolver uma doença genética ou para que a mãe tenha possíveis complicações na gravidez?

PT – Estamos a falar de doenças acidentais como a Trissomia 21, Trissomia 18 ou Trissomia 13. Contudo, temos outro tipo de doenças genéticas em que os portadores são muito frequentes na nossa população; doenças que, apesar de raras, se manifestam com alguma frequência. Como por exemplo, a atrofia muscular espinhal, em que a taxa de portadores é de 1 para cada 60 indivíduos. Caso um membro do casal tenha o gene e se junte a alguém que tenha também esse mesmo gene, têm 25% de probabilidade de ter um bebé afetado. Portanto, estas situações de portadores de doenças raras, acabam por ser frequentes entre a nossa população: fibrose quística,  atrofia muscular espinhal e síndrome de X-Frágil. Assim, atualmente, preconiza-se que pelo menos um dos membros do casal seja testado e, caso se confirme que é portador de uma destas doenças, deve então partir-se para o teste no outro membro.

JPB – A estratégia neste cenário [estudos de portador] é diferente do teste não invasivo. Aqui começa-se pelo estudo de portador do casal, como referiu a Prof.ª Purificação Tavares.

No entanto, independentemente de ter ou não história familiar de alguma destas 3 doenças, o Colégio Americano de Ginecologia e Obstetrícia, recomenda que qualquer casal faça o teste de portadores, uma vez que estes são frequentes na população.

Existe ainda a possibilidade de fazer um estudo mais alargado de outro tipo de doenças genéticas mais raras, que permite aos casais terem esta informação antes da gravidez ou numa fase muito inicial da gestação.

É importante, caso ambos os elementos do casal sejam portador de alterações no mesmo gene,  sejam disponibilizados os testes pré-natais adequados a esse casal.

Idealmente, estes testes de portadores devem ser realizados ainda antes de uma gestação, de forma a poder planear a gravidez, os exames necessários, os cuidados a ter, etc.

SO – O laboratório CGC Genetics efetuou um grande investimento em equipamentos de última linha de “Next Generation Sequencing” (NGS), que permitem num único teste sequenciar um gene, vários genes ou mesmo o genoma completo, tecnologia esta que permitiu um grande avanço tecnológico no diagnóstico genético ao encurtar prazos e diminuir custos.

O que permite esta tecnologia ao certo? Encurtar prazos em que sentido? A diminuição dos custos representa uma redução da despesa para a gestante?

JPB – Adicionalmente aos dois sequenciadores de NGS que já dispomos, este investimento mais recente, permite sequenciar desde um gene até ao genoma, ou seja, todo o DNA do indivíduo pode ser sequenciado com este novo equipamento. O seu uso predominante é para o diagnóstico de doenças genéticas raras em crianças ou adultos.

A maioria das doenças genéticas têm manifestações numa idade precoce – durante a infância. Muitas vezes o diagnóstico não é fácil. Pode demorar anos a conseguir chegar-se a um diagnóstico, sendo uma odisseia, porque se tratam de doenças raras difíceis de enquadrar num determinado quadro clínico. Muitas vezes, os pais andam anos, de médico em médico, a tentar saber que doença tem o seu filho.

Com esta tecnologia, conseguimos analisar todo o genoma da criança, com vista a encontrar a causa da doença e a alteração genética que está a originar os sintomas que a criança manifesta. Em Portugal é a primeira vez que um equipamento desta dimensão permite fazer um estudo exaustivo dos genes que compõem o ADN. Esse estudo e avaliação é realizado nos nossos laboratórios [no CGC Genetics].

Os resultados dos exames de genética são normalmente demorados, podendo tardar semanas ou meses a sair.

A capacidade de processamento deste equipamento permitirá fazer e testar, de uma só vez, uma quantidade muito maior de doentes numa única sessão, o que vai permitir diminuir substancialmente o tempo de resposta e os custos a ele associados, tanto para o SNS, como para os doentes.

SO – Quanto custa, em média, o teste NIPT Tomorrow realizado no vosso laboratório?

JPB – O Tomorrow tem duas versões, um mais complexo, que analisa uma maior quantidade de alterações cromossómicas, e um outro que deteta as trissomias mais comuns [as já referidas ao longo da entrevista] e o sexo do bebé. O preço varia entre os 370€ e os 495€.

SO – Como podem as grávidas chegar até vós? E o que devem levar consigo – análises, exames ou alguma outra informação/exame relevante?

JPB – Necessitamos apenas da requisição médica com alguma informação sobre a gravidez para darmos início ao processo de estudo genético. Não há, ao contrário de outras análises efetuadas durante a gestação, a necessidade da grávida estar em jejum.

Para a realização da colheita podem vir aos nossos laboratórios ou ir a qualquer posto de colheita da Unilabs, ou ainda, fazer a recolha num dos nossos parceiros, localizados entre o Minho ao Algarve, que, posteriormente, nos enviarão a amostra para a análise.

SO – Aquando da acreditação do IPAC ao laboratório, a ª Purificação Tavares disse que esta “acreditação se assume como o corolário de todo o investimento. Sempre tivemos elevada competência técnica, mas agora, com esta acreditação, podemos demonstrá-la para lá de qualquer subjetividade”.

O que quer exatamente dizer com isto, especificamente com a parte em que diz que pode “demonstrá-la para lá de qualquer subjetividade”?

Drª Paula Rendeiro (PR)-  O que queremos dizer é que uma coisa é dizermos que temos qualidade, que sabemos fazer, que temos experiência, know-how, outra coisa é ter um certificado de uma entidade terceira, neste caso uma entidade pública, o IPAC, que nos avaliou e concluiu que cumpríamos os requisitos de uma norma de acreditação internacional que pretende garantir que o laboratório que os cumpre tem competências técnicas para fazer aquele trabalho.

Erica Quaresma

ler mais