Tempo para Escutar; Tempo para Pensar; Tempo para Tratar…

Luis Gouveia Andrade

Luis Gouveia Andrade

Médico Oftalmologista

Grupo Lusíadas Saúde

Director Geral da InfoCiência

Numa consulta acontecem diversas coisas ao mesmo tempo…

Escutar, pensar e decidir o que fazer são, apenas, algumas delas. Outras, não menos importantes, são olhar para os doentes, observá-los, transmitir-lhes o nosso interesse e afecto, explicar-lhes o que pensamos e o que nos propomos fazer.

Existem casos e casos. Alguns muito lineares. Outros, mais invulgares, pela complexidade, pela raridade, pela conjunção de inúmeras condições clínicas e/ou de terapêuticas, pelo histórico pessoal ou familiar ou pelas próprias características de personalidade do doente que está perante nós.

Mesmo um caso mais simples implica tudo o que referi e é essencial que quem nos procura sinta que foi compreendido, mesmo que dessa consulta nada resulte, nem um exame, nem uma receita, apenas uma palavra de tranquilidade ou de reavaliação noutro momento.

Os outros casos implicam, para lá da nossa experiência, da nossa capacidade de congregar naquele momento décadas de estudo e milhares de doentes observados, que tenhamos tempo para reflectir, recordar e pensar. E isso não pode ser feito no tempo útil de uma consulta.

Imaginemos um doente que nos traz incontáveis exames, múltiplos tratamentos presentes e passados e uma história clínica pesada na qual se concentram diversos quadros clínicos potencialmente interligados. Imaginemos que não lidamos há muito tempo com algumas dessas doenças e que não conhecemos alguns dos medicamentos que o doente está a utilizar. Não é difícil conceber este cenário…

Enquanto escutamos o doente, enquanto olhamos para tudo o que nos traz, tentamos recordar o que sabemos, sem termos a certeza se a informação está ainda actualizada.

Que opções temos? Pedir exames adicionais para ganhar tempo? E que exames? Referenciar para um médico especialista? E especialista em quê? Pedir ao doente para deixar os exames connosco, para que os possamos avaliar com mais tempo e marcar nova consulta? E, neste caso, quando iremos ver os exames desse doente e, provavelmente, de outros que forem surgindo? Quando conseguiremos tempo para falar sobre eles com outros colegas, para ler sobre eles?

A Medicina evolui a um ritmo muito acelerado e muito do que aprendemos deixa rapidamente de ser verdade. A actualização permanente é uma impossibilidade e, como tal, nem sempre podermos estar certos dos melhores passos a dar.

E se o doente tiver de regressar? Irá gostar de ter pagar uma segunda consulta por não ter tido resposta na primeira? E a seguradora que pensará disso? E, já agora, como são os médicos remunerados pelo “trabalho de casa” que tiveram de levar consigo?

Eis um texto feito de questões…

O tempo da Medicina, e da vida em geral, é cada vez mais frenético e deixa pouco espaço para a reflexão, o pensamento, o raciocínio.

Pedir uma “bateria” de exames acaba por ser mais rápido e mais intuitivo mas não é, seguramente, mais científico, mais correcto ou… mais económico.

Referenciar um doente para outra especialidade é também simples mas nem sempre justificado. No fundo, muitas vezes acaba por ser a forma mais rápida de resolver a falta de tempo para integrar todos os elementos que os doentes nos trazem com os que resultam da nossa observação.

Que resulta disto? Maior risco de erro médico, mais frustração e custos adicionais.

A Medicina, nos seus complexos sistemas de codificação e sistematização, não contempla a actividade de pensar, analisar, ponderar. Estes processos tenderão, até, a serem vistos como ineficientes.

Mas, muito pelo contrário, este tipo de actividade contemplativa é essencial e faz parte integrante do processo de avaliação e tratamento dos doentes. Não só permite diagnósticos mais precisos, tratamentos mais orientados, mas, sobretudo, permite que ofereçamos aos doentes o melhor conhecimento disponível. E esse é o nosso dever.

No fundo, podemos praticar Medicina como quem executa uma receita e segue todos os passos que vêm no Manual. Não é que tal automatização esteja errada e, muitas vezes, é ela que nos impede de saltar ou esquecer procedimentos. Mas acaba por se tornar uma prática mais desumanizada, mais mecanizada, menos humana, provavelmente mais próxima daquilo que a inteligência artificial já vai fazendo e cada vez mais fará.

Olhar para cada caso de um modo único, ponderar todas as variáveis, interligá-las, estudar o que não se sabe ou rever o que já se esqueceu é um cenário totalmente distinto, mais rico, mais completo, mais verdadeiro. Mas exige um tempo que, cada vez menos, escasseia.

Recordo-me da canção de Rui Veloso, “Todo o tempo do mundo”, onde ele canta “Podes vir a qualquer hora/Cá estarei para te ouvir/O que tenho para fazer/Posso fazer a seguir”.

Eis um cenário ideal na prática clínica…

No mundo real tudo é diferente e, mesmo assim, felizmente, quase tudo corre bem. Os médicos aprendem a, num curto período de tempo, ouvir os seus doentes, examiná-los, formular hipóteses de diagnóstico e prescrever tratamentos. Tudo em simultâneo… Acaba por ser um exercício denso, intenso e desgastante mas, sinceramente, não vejo como alterar este estado de coisas.

Importa é nunca esquecer que temos perante nós alguém que precisa de nós, que deseja a nossa ajuda ou opinião e que deseja ser ouvido. Se esquecermos isso, então não vale mesmo a pena…

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