Atualmente existem 360 camas no país, aumentaram em 14 nos últimos dois anos, mas “a Associação Europeia de Cuidados Paliativos afirma claramente que em Portugal são precisas 800 a 1.000 camas de cuidados paliativos em Portugal”, disse Duarte Soares numa audiência na Comissão Parlamentar da Saúde.

O mesmo se passa em relação aos cuidados paliativos domiciliários, com a associação europeia a apontar a necessidade de 100 equipas para o país e a haver apenas 19 equipas.

“Somos otimistas, somos resilientes, queremos participar”, mas “achamos que temos décadas de atraso em relação a esta matéria” e que “há melhorias que devem ser feitas”, que a associação quer que “aconteçam o mais rapidamente possível”.

Para o médico, é preciso melhorar nos recursos humanos, no envolvimento das políticas dos cuidados paliativos nas políticas de saúde atuais e a nível comunitário com “melhores políticas de saúde pública”. “Os cuidados paliativos devem ser considerados uma prioridade”, disse, considerando que “é a maior urgência clínica e social das próximas décadas para o país”, que precisa de ser refletida no Orçamento do Estado.

São precisas “mais camas, mais equipas na comunidade, um melhor relacionamento com a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados” e hospitais centrais com resposta de internamento de cuidados paliativo, defendeu.

Duarte Soares disse que “faz todo o sentido” haver uma “partilha de responsabilidade e competências” entre os vários setores.

“Eu não consigo acreditar que o Serviço Nacional de Saúde tenha capacidade para absorver e cuidar de todas as pessoas que precisam de cuidados de fim de vida”, sustentou, adiantando que é preciso deixar que os médicos desta especialidade sejam “uma prioridade” no terreno.

“Não vale a pena estar a dizer que há 68 médicos, que são poucos, quando na verdade destes médicos haverá 30 ou 40 que nem sequer estão a trabalhar nas suas tarefas e para aquilo que estudaram”, sublinhou.

Duarte Soares deu o seu próprio exemplo. “Se eu estudei para o efeito, se eu quero dedicar-me àqueles doentes, e se estão a colocar-me em serviços de urgência, alguma coisa de errado está a acontecer na organização dos sistemas de saúde”.

Presente na audiência, a médica Cândida Cancelinha, da APCP, alertou para a situação dos cuidados paliativos pediátricos, afirmando que se estima existirem 7.000 crianças a necessitarem destes cuidados e cerca de 30 mil pessoas a cuidarem delas.

Neste momento não há qualquer tipo de resposta para a morte em casa. Noventa por cento das crianças morrem nos hospitais e 90% destas mortes devem-se a doença crónica complexa e isto “tem implicação não só na dinâmica familiar destas crianças, mas também nos custos hospitalares”, salientou.

Cândida Cancelinha alertou que há crianças a viverem anos com necessidades paliativas, às vezes décadas, e lembrou que as licenças de assistência à terceira pessoa se esgotam em quatro anos, o que leva muitas vezes o pai ou a mãe a desempregar-se para cuidar dos filhos.

LUSA

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