A que sinais devem as pessoas estar atentas e que podem indicar a presença de um tumor no intestino?

As doenças oncológicas do aparelho digestivo são responsáveis por mais de 13 mil casos por ano e provocam a morte a uma pessoa por hora em Portugal. É muito grave, trata-se de um assunto de saúde pública que é importante resolver. Quanto ao cancro do intestino, é responsável por mais de 7500 novos casos por ano. Morrem 11 pessoas por dia com esta doença, mais de 4 mil por ano.

Nós temos a opção de fazer o rastreio de base populacional, que é aquele que tem o maior custo benefício. É o que tem melhores resultados e com o mais baixo. Se o rastreio estivesse implementado em Portugal, a maior parte dos casos detetavam-se muito cedo e eram curados. Esta não é uma doença rápida, demora cerca de 6 a 10 a crescer.

Todas as pessoas com mais de 50 anos devem fazer o rastreio. Pode fazer-se através de duas formas: colonoscopia ou pesquisa de sangue oculto nas fezes. Neste último caso, são entregues kits e a pessoa recolhe fezes e entrega na farmácia para fazer a análise. Se a análise for negativa, tem de repetir o exame de dois em dois anos. Se vier positiva, tem de fazer uma colonoscopia de seguimento. O grande problema da pesquisa de sangue oculto é que tem uma falibilidade grande: estima-se que cerca de 50% dos testes negativos sejam falsos.

Mas esse sangue poderá ter outras origens que não um tumor do intestino?

Sim, poderá ter outras razões. Mas normalmente é já um problema grave que a pessoa tem no intestino, são pólipos que cresceram e que fazem com que apareça sangue nas fezes. Os médicos podem, então, retirar os pólipos que estão a sangrar ou optar por outro tipo de tratamentos se o tumor estiver já num estado avançado.

No entanto, poderá nem ser nada oncológico. Pode ser simplesmente uma inflamação intestinal, por exemplo.

Esta doença provoca sintomas relativamente incaracterísticos, que muitas vezes são desvalorizados.

Há pessoas que podem estar abaixo dos 50 anos mas se se tiverem uma alteração dos hábitos intestinais (relacionada com prisão de ventre, por exemplo), a perda de sangue visível pelo reto, dores abdominais forte, desconforto abdominal, perda de peso sem razão aparente, cansaço sem razão aparente. Cada um destes sintomas é suficiente para a pessoa se dirigir ao médico de família.

Depois, o médico indicará o melhor método de despiste a fazer: normalmente através de uma ecografia, de um TAC, da pesquisa de sangue oculto ou, até, de uma colonoscopia.

Como é que se explica o facto de a doença continuar a ser diagnosticada, em muitos casos, numa fase avançada?

Essa é uma realidade até a nível europeu. Cerca de 97% das pessoas a quem é detetado cancro num estado muito avançado não ultrapassam os dois anos de vida. Aquilo que a Europacolon defende é que tem de haver uma inversão da política de saúde em Portugal porque temos uma política focada na solução das doenças depois de as doenças estarem instaladas. Está provado que, além de ser muito mais caro, provoca muito mais mortes. Há um estudo divulgado este ano que mostra que o tratamento de um cancro numa fase inicial custa 4 mil euros, enquanto que numa fase avançada já vai para os 40 mil. Temos de ter uma prevenção com rastreios adequados feitos à população de risco – e estamos a falar do intestino, porque na área do cancro da mama têm havido progressos assinaláveis porque está instalado um rastreio há mais de 10 anos.

Neste momento quais são as regiões que ainda não têm o rastreio implementado?

Houve um ato público em dezembro de 2016, de lançamento do rastreio nacional de base populacional do cancro do intestino. Começou um rastreio piloto na área do Porto e Póvoa do Varzim. Os resultados desse rastreio eram para ser conhecidos em abril e maio de 2017 e ainda não os conhecemos. Aquilo que a Europacolon tem percebido é que houve melhorias na ARS de Lisboa e Vale do Tejo, em que os rastreios de todos os cancros rastreáveis (mama, colo do útero e intestino), em que a cobertura foi 0% durante mais de 10 anos. Neste momento, já se faz

No entanto, quando se começa a fazer um rastreio de base populacional é preciso que estejam contratualizadas com os hospitais centrais as colonoscopias (de que precisam 5 a 10% das pessoas que fazem o rastreio) para o seguimento do doente. E aquilo que temos sabido é que em Lisboa começaram a ter dificuldades em fazer as colonoscopias de seguimento e depois diminuíram-se os rastreios; em coimbra, houve uma interrupção de mais de um ano; no Alentejo, também por causa dos rastreios positivos não terem seguimento, diminuíram os rastreios.

Mas considera que a problema é falta de recursos ou falta de coordenação entre os serviços de saúde?

Não há uma atitude sistemática e permanente deste rastreio de base no país inteiro. Há tentativas e paragens pelo meio. É que nem há o seguimento aos dois anos.

Quando há falta de capacidade dos hospitais não poderão ser contratadas clínicas privadas para fazer as colonoscopias?

Sim, poderá haver convenções com as clínicas privadas. Aquilo que a legislação diz, relativamente ao rastreio promovido pelas ARS, é que deve estar contratualizado com os hospitais dessas zonas a realização das colonoscopias. Mesmo os exames de diagnostico estão atrasados em muitos hospitais. Quando são questionados sobre este assunto, os próprios responsáveis pela saúde oncológica admitem que a situação devia estar melhor e que em 2020 é que vai estar bem. E andamos todos os anos a dizer que no próximo ano é que vai ser bom.

Mas não considera positivo que existam USF com metas contratualizadas de rastreio do cancro do intestino?

É muito bom. Ainda há pouco tempo estive na USF Martim Moniz, em Lisboa, e aí 55% das pessoas já são chamadas para fazer rastreio. Mas têm de ser 100% e no país inteiro, não só nas USF. Isto é um problema de saúde pública. Não chega só convocar as pessoas, tem de se fazer um esforço de educação para a saúde. O rastreio tem ainda algumas condicionantes: algumas pessoas ainda têm medo de fazer uma colonoscopia (pensam que podem ficar com o intestino furado, pensam que a preparação é horrível).

Portanto, não há nenhuma região do país que tenha uma rede sólida de encaminhamento para colonoscopias?

Nós não conhecemos. Há casos positivos, em que os profissionais de saúde estão empenhados, e em que há uma preocupação política. Mas isto tem de ser para toda a gente.

Como se justifica que surjam cada vez mais casos de cancro do intestino? Tem também a ver com a alimentação?

No nosso entender, a primeira razão é porque não existe rastreio. A Europacolon Portugal faz ações nas escolas para levar os miúdos a verem a alimentação de outra forma. Temos de mudar o nosso comportamento alimentar. Não temos de ser todos vegans ou vegetarianos, temos é de comer com inteligência. O tabaco e uma alimentação descuidada são as razões principais, não só para o cancro do intestino mas a maioria das doenças oncológicas.

Tiago Caeiro

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