O AVC continua a ser a doença que mais mata, embora as mortes tenham diminuído para quase metade na última década. A que se deve esta melhoria?

Temos dois aspetos: por um lado, o número de AVC tem vindo a diminuir um pouco devido à melhor prevenção. As pessoas têm vindo a tratar melhor a hipertensão arterial, a fumar menos e a tratar melhor outros fatores de risco (como o colesterol alto, a diabetes, ou algumas doenças cardíacas). Por outro lado, depois de ocorrer o AVC, tem havido uma diminuição importante da mortalidade porque neste momento o AVC tem sido melhor tratado na fase aguda, com uma melhor organização através da via verde do AVC e das equipas e unidades de AVC, e contando com tratamentos mais eficazes.

Tem sido uma luta constante porque a probabilidade de ter AVC aumenta com a idade e, com a longevidade a aumentar, aumenta o número de pessoas suscetíveis de ter AVC. Temos de ter uma ação muito mais agressiva na prevenção primária, detetando e controlando a hipertensão arterial (que é o principal fator de risco, tanto para AVC isquémico, como para AVC hemorrágico), fazendo campanhas pela cessação tabágica, promovendo as visitas regulares ao médico de família para detetar e tratar adequadamente outras doenças, como doença das artérias ou alguma doença cardíaca que possa provocar embolias cerebrais. Claro que também é essencial as pessoas fazerem exercício físico e terem uma alimentação com pouco sal, gorduras e açúcares.

É muito importante também que as pessoas detetem que estão a ter um AVC, porque a eficácia dos tratamentos de que dispomos depende imenso da precocidade com que são administrados. A pessoa tem de chegar rapidamente ao hospital e isso só acontece quando o próprio ou quem estiver perto reconhece os sintomas.

É muito importante ter em mente os 3 sinais mais importantes. Quais são eles?

Sim, as pessoas devem saber identificar os 3 F: fala, face e força. No AVC estes sinais surgem repentinamente, de forma inesperada. O primeiro F (fala) significa que a pessoa, de um momento para o outro, deixa de conseguir falar normalmente. O segundo F (face) refere-se àquilo a que as pessoas chamam de ‘boca ao lado’, ou seja, ter um desvio da face na expressão, que é bem evidente ao sorrir ou ao pedir-se para mostrar os dentes, por perda da força de um lado da face. O terceiro F (força) manifesta-se, por exemplo, nos braços, quando a pessoa perde a força num deles, ou seja, ao tentar levantar os braços há um que não tem tanta força para o fazer.

A deteção de um único destes sinais obriga a ligar 112, que leva o doente a um hospital com uma equipa preparada para tratar o doente com AVC.

Em relação ao tratamento na fase aguda, portanto, logo a seguir ao AVC, qual é a opção mais adequada?

Se for um AVC isquémico (que representam 80% de todos os casos), em que uma artéria fica obstruída, geralmente, existem dois tratamentos mais importantes. Um deles (trombólise endovenosa) é a injeção de um produto na veia, que vai tentar desfazer o trombo. Normalmente, é eficaz quando as artérias tapadas não são muito grandes. Contudo, este tratamento só se pode fazer até quatro horas e meia depois do início dos primeiros sintomas.

O outro tratamento (trombectomia mecânica), que é usado para oclusão de grandes artérias, consiste na introdução de um cateter pela artéria femoral, junto à virilha, e que sobe até ao local da oclusão para tentar desentupir a artéria cerebral, retirando o trombo. Tanto um como o outro, quanto mais cedo forem feitos mais eficazes são, porque, se a artéria ficar tapada muito tempo, esse local do cérebro morre de forma irreversível.

Em relação ao AVC hemorrágico, em que uma artéria rompe, o hematoma vai aumentando dentro do cérebro. Muitas vezes isto acontece em picos de hipertensão. Ao chegar o doente tem de baixar a tensão e às vezes é preciso enviar o doente para a neurocirurgia, de modo a ser operado.

Depois, há ainda situações de hemorragia menos comuns, por rotura de aneurisma cerebral. Esses casos representam apenas 3% do total. O aneurisma é uma deformidade da artéria, que fica com a parede mais fina num determinado local e mais facilmente rompe.

De entre as pessoas que sobrevivem, cerca de 30% ficam permanentemente incapacitadas. De que tipo de lesões estamos a falar?

Essas sequelas podem ser muito variáveis. No AVC, o que acontece é que há uma zona do cérebro que deixa de funcionar porque uma artéria que leva sangue para o cérebro entope (impedindo que o sangue com oxigénio e alimento chegue a essa zona, que por isso morre), ou então porque uma artéria rebenta, provocando um hematoma (que também provoca a destruição do cérebro nesse local, deixando de funcionar).

Dependendo da zona do cérebro que deixe de funcionar, podemos ter deficiências diversas. A pessoa pode deixar de falar, não conseguir transmitir as suas ideias por palavras ou não perceber aquilo que os outros dizem. Pode também ficar paralisada de um lado do corpo (pode ser só o braço, a face ou a perna), pode perder a coordenação ou o equilíbrio, deixar de ver ou passar a ver as coisas duplamente, pode deixar de conseguir engolir, etc.

Quais são os grupos de risco? Os homens têm mesmo um risco superior às mulheres?

Em geral, os homens têm um risco superior até à idade da menopausa das mulheres. Depois daí, as mulheres vão apanhando progressivamente os homens.

A sociedade Portuguesa do AVC (SPAVC) considera que a reabilitação está a ser negligenciada. Quais são os problemas com que os doentes se deparam?

Frequentemente a fase da reabilitação não se consegue concluir em semanas. Por vezes as pessoas conseguem recuperar completamente, mas, por vezes, estamos a falar de deficiências importantes que perduram ao longo da vida. Ora, essa articulação não está a ser conseguida de forma eficaz. Existem equipas de reabilitação nos hospitais, mas, muitas vezes, elas não estão completas. Dentro da reabilitação, há profissionais com diversas funções: médicos fisiatras, enfermeiros de reabilitação, fisioterapeutas, terapeutas da fala, terapeutas ocupacionais (que vão ajudar a pessoa a recomeçar a fazer as atividades da vida diária, com o máximo de desempenho e autonomia), além do apoio de nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais.

Para além das equipas incompletas, existe o problema do doente após a alta do hospital de agudos ou do hospital de reabilitação. Há doentes que precisam de reabilitação posterior para recuperarem capacidades, ou para não perderem ganhos já conseguidos. No entanto, por vezes, as pessoas ficam mais abandonadas nesta fase crónica e têm maiores dificuldades em realizarem a reabilitação de que necessitam para o resto da vida. Já estivemos bem pior, mas temos ainda um longo caminho a percorrer!

Como funciona todo o processo?

O doente inicia a reabilitação enquanto está internado. Geralmente os casos mais graves são transferidos para um hospital de reabilitação. Depois, quando vai para casa, continua a realizar a reabilitação numa clinica convencionada com o SNS ou vai em regime de ambulatório ao Serviço de Medicina Física e Reabilitação hospitalar onde poderá fazer os tratamentos.

Em concreto, quais são os problemas que os doentes enfrentam nesse capítulo?

Por um lado, a reabilitação é feita frequentemente com atraso, ou com equipa incompleta. Por outro, na fase crónica, nem sempre é autorizada com a frequência adequada, uma vez que existem limitações relacionadas com a desproporção entre as necessidades e a existência de estruturas e de recursos humanos. Há também o problema do atraso na autorização de ajudas técnicas aos sobreviventes que delas necessitam.

Em relação à prevenção, e excetuando o controlo adequado dos fatores de risco, existe algum tratamento preventivo?

Existem, sim, tratamentos que diminuem a probabilidade de ter AVC. Quando uma pessoa sofre um AVC isquémico, fica a fazer um tratamento para que se diminua a probabilidade de se formarem trombos nas artérias. A maior parte dos tratamentos que se fazem nestes doentes são com medicamentos do tipo da aspirina ou clopidogrel. Nalgumas situações, como no caso da fibrilação auricular, há necessidade de o doente fazer a anticoagulação oral. Há casos em que se deteta uma placa de aterosclerose a estreitar a artéria carotídea (uma das principais que leva sangue para o cérebro) e que são tratados com cirurgia para retirar essa placa, antes que a artéria tape por completo. Claro que é também muito importante o controlo alimentar e o exercício físico.

Tiago Caeiro

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