Para se atingirem os objetivos definidos pela Nações Unidas, é necessário, afirmam os especialistas, “chegar aos grupos mais difíceis de alcançar, como os utilizadores (e ex-utilizadores) de drogas por via endovenosa, os homens que fazem sexo com outros homens e a população prisional, que na sua maioria não tem acesso a tratamento. A estes grupos, os especialistas juntam o das pessoas que foram sujeitas a transfusões de sangue ou transplante de órgãos antes de 1992, doentes de hemodiálise, e os homens nascidos entre 1945 e 1965.

Só a eliminação da infeção nestes grupos, também designada de microeliminação, permitiria a Portugal atingir os objetivos com que se comprometeu a nível internacional e que passam por reduzir a incidência do vírus da Hepatite C em 90% e a mortalidade associada em 65% até 2030.

O Saúde Online esteve à conversa com três especialistas, que estiveram presentes na reunião HEP.IC Summit 2019, organizada pela farmacêutica Gilead.

“Os utilizadores de drogas são o grupo com maior prevalência de VHC e é um grupo que ainda não foi alcançado”, alerta o Doutor Rodrigo Coutinho, psiquiatra e dirigente da Associação Ares do Pinhal, que apoia a comunidade toxicodependente. “Se conseguissemos tratar uma parte deste grupo, teríamos microeliminação em Portugal”.

O especialista refere que as características da população consumidora de drogas não pode ser um motivo para que estas pessoas não acedam ao tratamento. “Não os podemos obrigar a mudar de características para serem tratados. São doentes difíceis de mobilizar”. Rodrigo Coutinho considera que tem de haver mais compreensão por parte dos profissionais de saúde. “Muitas vezes a resposta do hospital está tão formatada de uma determinada maneira, que não permite que o doente consiga corresponder”, critica. “Para os doentes, a doença não existe. As prioridades deles são outras e nós é que temos de ir ao encontro deles”.

Também no Algarve e na Madeira existem programas de microeliminação em curso. No caso da Madeira, as autoridades regionais implementaram um plano para eliminar o vírus, que atua em várias micropopulações: reclusos, doentes a fazer diálise, utentes da Unidade de Toxicodependência (Alto e Baixo Limiar). “Cada uma destas populações tem particularidades e barreiras diferentes”, explica o Doutor Vítor Pereira, médico gastrenterologista Hospital do Funchal. “Depois passaremos para uma fase mais ambiciosa: um rastreio universal”, avança o especialista.

Para o Prof. Doutor Guilherme Macedo é preciso diminuir as barreiras nalguns nichos populacionais. Contudo, para o diretor do Serviço de Gastrenterologista do Hospital de São João, não é suficiente eliminar o vírus nos doentes que já estão identificados. “Falta eliminar o que não conhecemos, e o que não conhecemos tem de ser rastreado”, referiu, acrescentando que o “rastreio universal tem vantagens indiscutíveis”. O especialista desvaloriza os custos que um rastreio desta dimensão poderia ter, uma vez que, garante, “esses custos seriam ultrapassados pelos benefícios”.

“É incompreensível que haja doentes durante meses à espera da medicação e que haja vários dados clínicos que temos de verter na plataforma, quando isso poderia ser muito mais rápido e fácil”, criticou o médico.

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