O alerta começou por ser dado pela bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, Ana Paula Martins, na comissão parlamentar da saúde, onde foi ouvida a pedido do CDS-PP, para prestar esclarecimentos sobre “a real situação” dos serviços farmacêuticos dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde.

Temos necessidade enormes” no centro hospitalar universitário de Coimbra, no São João, no Santo António, no centro hospitalar do Algarve, nomeadamente em Portimão, no Centro Hospitalar Lisboa Central e no Alentejo, afirmou Ana Paula Martins, passando a palavra a colegas para darem o seu testemunho.

Aida Batista, que se apresentou como uma das “infelizes diretoras do Centro Hospital de Vila Nova de Gaia”, alertou para as condições em que os profissionais trabalham.

 

Hospital “tem buracos no chão e no teto”

 

“As pessoas trabalham nas piores condições e por causa disso saíram dois farmacêuticos” desde o final de 2018, disse Aida Batista, adiantando que neste momento o hospital tem 15 farmacêuticos e seriam necessários 20.

Aliado à falta de profissionais, estão as más condições do hospital: “Tem buracos no chão, no teto, portas sem segurança que basta dar um pontapé para abrir”.

“Felizmente temos um sistema de alarme, mas enquanto o segurança chega e não chega podem desaparecer milhões de euros em medicamentos como já aconteceu em Itália e a agora em Portugal”, frisou.

Perante esta realidade, Aida Batista disse que, “neste momento, os serviços farmacêuticos do Hospital de Vila Nova de Gaia estão a prestar maus serviços aos doentes porque não têm as condições para fazer melhor”.

“Os erros acumulam-se, as pessoas estão exaustas, estão com atestados atrás de atestados porque não aguentam, frisou, acrescentando: “não gostaria que o Hospital de Gaia ficasse conhecido como o novo hospital de Santa Maria”, aludindo ao caso de cegueira em 2009.

 

Quimioterapia em risco em Portimão

 

Paula Campos, responsável pelos serviços farmacêuticos do Hospital de Portimão, advertiu, por seu turno, que nesta e na próxima semana a unidade não irá preparar a quimioterapia por falta de recursos humanos.

“A solução que foi arranjada para essa situação, porque o doente não pode pagar o preço de não ter os seus tratamentos atempadamente, foi fazer uma articulação difícil, porque vai requerer um excesso de trabalho para os colegas da unidade de Faro”, contou.

A unidade de Faro que tinha uma média de 40 doentes por dia vai passar a ter 80, disse Paula Campos, comentando que este é apenas um exemplo do que se está a passar.

Farmacêutico hospitalar e diretor da farmácia do Hospital de São João, Paulo Carinha, afirmou que o facto de os profissionais terem “chegado a este ponto limite foi para salvaguardar o bom nome das instituições”.

Para atenuar estas dificuldades, foi proposto, mas recusado, reduzir cerca de 20% os doentes atendidos em hospital de dia e exigir novos reagendamentos, a farmácia de ambulatório fecha uma hora e a de oncologia encerra à hora de almoço.

“A minha perceção é que em período de férias vamos ter que fechar e reduzir a atividade”, alertou Paulo Carinha, advertindo que “este limite está a chegar a uma situação dramática”.

Também o diretor do serviço farmacêutico do IPO de Lisboa, António Gouveia, retratou as dificuldades vividas no dia-a-dia pelos profissionais.

“Cada doente internado, todos os dias, tem a sua medicação revista pelo farmacêutico. No IPO, há um farmacêutico a rever a prescrição de 250 doentes internados e a dar orientações a um técnico para preparar uma gaveta por doente”, contou.

“Eu não posso parar isto, porque se parar, na verdade, eu paro o hospital. É uma situação quase impossível”, disse António Gouveia, elucidando: “a farmácia hospitalar é um avião, só funciona se a equipa funcionar”.

Para António Gouveia, a chave é “pensar a equipa” e o futuro das farmácias hospitalares.

“É pensar no futuro e não nos deixar estar assim porque mesmo que que não estou nas piores circunstâncias tenho limitações, mas há sítios onde os meus colegas só sobrevivem a mal”.

LUSA

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