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Saúde Online | De que formas se pode manifestar o cancro oral? A que sinais devem as pessoas estar atentas?

Dra. Ana Joaquim | Pode manifestar-se por alterações que também são comuns em doenças benignas. Estamos a falar de feridas, úlceras ou aftas na boca; nódulos na bochecha; placas vermelhas e brancas na gengiva ou na língua; sensação de corpo estranho na garganta. Contudo, na maioria parte das vezes em que estas situações acontecem não se trata de um cancro. As pessoas devem preocupar-se quando este tipo de situações permanece durante mais de 3 semanas. Aí devem procurar o médico.

É essa desvalorização dos sinais que faz com que uma grande parte dos casos ainda sejam detetados numa fase avançada?

Exato. Os fatores de risco mais importantes são, sem dúvida, o tabaco e o álcool. Existe uma percentagem grande de doentes que também não têm uma boa higiene oral, que não vão com frequência ao médico nem ao dentista. Por isso, só recorrem ao médico quando a doença já está tão avançada que impede algumas funções, como mastigar e engolir. Portanto, na maioria dos casos, as pessoas procuram o médico quando a doença está avançada.

Portanto, o grande grupo de risco são os fumadores?

Os fumadores e os alcoólicos. Depois começam a aparecer outros grupos de risco: indivíduos infetados por HPV (uma infeção sexualmente transmissível) e que, normalmente, é mais associada ao cancro da orofaringe mas que também parece estar associado ao cancro da cavidade oral. Por outro lado, outro fator de risco são as próteses dentárias mal adaptadas, que provocam traumatismos na boca – e aqui falamos de doentes mais idosos, que já têm as próteses dentárias há muitos anos.

Como que caracteriza o panorama atual do cancro oral em Portugal?

O cancro oral tem uma incidência que não é desprezível. Não é dos mais frequentes mas, ainda assim, é o sétimo cancro mais comum em Portugal. Dentre os cancros da cabeça e pescoço, este é o mais comum.

Quantos casos de cancro oral surgem por ano?

Se tivermos em conta que o cancro oral representa 40 a 50% dos casos de cancro da cabeça e pescoço e que, em Portugal, se diagnosticam 2500 a 3000 casos por ano, estamos a falar em cerca de 1500 novos casos por ano.

No entanto, se este cancro for detetado numa fase precoce, tem uma taxa de sobrevivência elevada.

Exato. Se for detetado a tempo, a taxa de cura ronda os 80 a 90%. Por outro lado, quando é diagnosticado tardiamente, a taxa de sobrevivência a cinco anos baixa para cerca de 30%. No entanto, o cancro oral é passível de ser detetado numa fase precoce, porque a boca está acessível a qualquer profissional de saúde e à própria pessoa. Ao contrário de outro tipo de cancros que não dão sinais até estarem muito avançados (como o do pâncreas, por exemplo), no caso do cancro oral, a cavidade oral é facilmente acessível.

Em relação à terapêutica, a cirurgia é a opção usada em todos os doentes?

O tratamento do cancro oral é, por excelência, cirúrgico. Ao contrário de outros casos de cancro de cabeça e pescoço, em que o tratamento poderá ser a radioterapia, com ou sem quimioterapia associada, no caso do cancro oral, quando é diagnosticado em fase ressecável, o tratamento é cirúrgico. É a cirurgia que  dá a maior probabilidade de cura a estes doentes.

Quanto mais inicial for a fase da doença, menor será a agressividade cirúrgica. Ou seja, um pequeno tumor da cavidade oral é facilmente ressecável sem ser preciso reconstrução. Se tivermos um tumor grande (em que, às vezes, é preciso remover parte da mandíbula ou da maxila), já é necessária uma cirurgia de resseção e de reconstrução. Nos casos avançados, é necessário realizar, também, esvaziamento ganglionar cervical bilateral. E, nestes casos, o tratamento cirúrgico é complementado com radioterapia ou com radio e quimioterapia.

Em relação a outros tipos de cancro, o cancro oral acarreta um risco acrescido de se repetir no mesmo doente?

Depende muito. Se sobrevivente de cancro oral mantiver os fatores de risco, a probabilidade de ter um segundo cancro da cavidade oral, de outros locais da cabeça e pescoço ou do pulmão, principalmente nos primeiros cinco anos, é muito mais elevada do que na população em geral. Se, por outro lado, conseguir eliminar os hábitos nocivos, esta probabilidade baixa significativamente.

Tiago Caeiro

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