Ao contrário de que acontece noutros países, como em Espanha, a taxa de doação de gâmetas em Portugal é muito baixa. Um problema tendo em conta o aumento da procura entre os casais que precisam de tratamentos de fertilidade. “Estamos confrontados com listas de espera cada vez maiores e com uma maior procura”, alerta o presidente da Sociedade de Medicina de Reprodução (SPMR), Pedro Xavier.

A escassez afeta tanto o banco público de gâmetas como os privados. No entanto, é no público que tem os casais têm de esperar mais tempo. Neste momento, a lista de espera é de 33 meses para óvulos e de 21 meses para espermatozóides.  Contudo, mesmo os casais que possam pagar em clínicas privadas “têm de esperar meses pelo tratamento” devido à escassez de dadores, adiantou o presidente da SPMR, que promoveu este fim-de-semana, em Lisboa, uma sessão de esclarecimento , com o apoio da Gedeon Richter, sobre a importância da doação de gâmetas.

Em Portugal, existe “um grave problema de natalidade” e, simultaneamente, um aumento do “número de casos de infertilidade, e infertilidade de difícil tratamento”, associada a mulheres com idades mais avançadas. Por esta razão, “tem sido necessário recorrer cada vez mais a tratamentos com doação de gâmetas nomeadamente gâmetas femininos, sobretudo por causa da idade da mulher”. Estima-se que a infertilidade afete 10 a 15% dos casais portugueses.

Podem ser várias as causas de infertilidade, desde uma menopausa precoce na mulher, idade avançada, má qualidade dos gâmetas, doenças genéticas graves ou tratamentos de quimioterapia, entre outros fatores.

Doutor Pedro Xavier, presidente da SPMR: “A ideia é não deixar cair esta mensagem e ir enraizando nas pessoas a ideia de que doar sangue salva vidas, doar gâmetas dá vida”

Também há uma maior procura de tratamentos com doação de gâmetas masculinos devido ao aumento de casos de infertilidade nos homens por fatores ambientais, como a alimentação e o estilo de vida, e ao alargamento, desde 2016, dos tratamentos de procriação medicamente assistida a mulheres sem parceiro e a casais de mulheres, explicou o especialista.

“Isto não é um problema só dos casais e dos beneficiários com problemas de infertilidade, isto é um problema de todos”, disse Pedro Xavier, sublinhando que “toda a ajuda para inverter esta tendência é pouca”.

A recolha, quer de sémen quer de óvulos, não prejudica o potencial reprodutivos dos dadores, garante Pedro Xavier. Para além disso, a recolha de gâmetas não tem riscos e o dador ainda pode ficar se ele próprio tem algum problema de fertilidade. “Muitas mulheres apercebem-se [ao doarem] de que não podem adiar muito a sua gravidez”, sublinhou Luís Vicente, vice-presidente da SPMR.

 

Há compensações financeiras

 

A doação de gâmetas não é um negócio. A Lei Portuguesa estabelece uma compensação para os dadores mas apenas de forma a ressarcir as despesas. Os homens podem receber até 43 euros por cada doação de espermatozóides, enquanto que o valor da compensação para as mulheres pode chegar aos 870 euros.

“Nós queremos que as pessoas percebam que a doação tem que ser um ato altruísta” – não um negócio – que “vai fazer felizes muitos casais que de outra maneira nunca conseguirão ter uma criança”, disse.

No caso dos homens, têm de ter entre 18 e 40 anos e não podem ter registo de doença sexualmente transmissíveis. O processo é simples, bastando uma recolha de sémen. As mulheres têm de ser igualmente saudáveis mas é necessário proceder a um tratamento de procriação medicamente assistida. É preciso estimular os ovários (um processo feito com medicação e sob anestesia) para que se consigam recolher os óvulos. A recolha implica apenas uma pequena sedação e a recuperação é rápida.

Para elucidar a população, mas sobretudo os jovens, que são os potenciais dadores, foi criada a campanha “Dar vida à esperança”. A estratégia da campanha é direcionar a mensagem para as redes sociais, ter o apoio dos Media, de médicos, psicólogos e especialistas da área da medicina da reprodução.

A SPMR está também a lançar convites a todas as instituições universitárias e institutos politécnicos do país para acolherem sessões de esclarecimento, tendo já acordo com algumas universidades. “Queremos que esta ação se prolongue no tempo. A ideia é não deixar cair esta mensagem e ir enraizando nas pessoas a ideia de que doar sangue salva vidas, doar gâmetas dá vida”, frisou.

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