A Aderência ao Tratamento Revisitada

Luis Gouveia Andrade

Luis Gouveia Andrade

Médico Oftalmologista

Grupo Lusíadas Saúde

Director Geral da InfoCiência

Eis um daqueles temas que são curiosos e preocupantemente recorrentes na prática médica e na literatura: a aderência dos doentes aos tratamentos prescritos pelos médicos.

No final de 2018, o JAMA (Journal of American Medical Association) publicou uma extensa revisão sobre os estudos clínicos publicados entre 2000 e 2018 e que abordavam especificamente intervenções destinadas a melhorar a aderência*.

A importância do tema continua, infelizmente, enorme.

Sabe-se que, entre adultos com doenças crónicas como a diabetes ou a hipertensão arterial, 30 a 50% das medicações prescritas não são correctamente administradas.

Uma fraca aderência associa-se a um importante aumento da morbilidade e da mortalidade e, nos Estados Unidos, é responsável por cerca de 125.000 mortes e por 10% das hospitalizações todos os anos.

No plano económico, e ainda falando em dados referentes aos Estados Unidos, estima-se que a não aderência custe 100 biliões de dólares todos os anos, na sequência de hospitalizações sucessivas e da necessidade de intervenções médicas adicionais.

E não preciso de fazer um grande esforço de memória para me recordar que números semelhantes a estes têm sido regularmente relatados ao longo dos anos, sem que pareça existir uma melhoria significativa nestes indicadores.

Ou seja, apesar de todos os avanços médicos, apesar da investigação e desenvolvimento de novas moléculas, mais eficazes, mais seguras, mais fáceis de administrar, essa eficácia, essa segurança e essa simplicidade esbarram no muro da aderência, deitando por terra muito daquilo que se desejava alcançar.

E porquê? O que motiva esta permanente e imutável fraca aderência ao tratamento? A resposta não é simples e reside na multiplicidade de variáveis envolvidas que implicam doentes, médicos e factores associados ao próprio sistema de saúde.

No que se refere aos doentes, a aderência tende a ficar prejudicada quando existe escasso envolvimento no processo de decisão sobre o tratamento, quando existem dificuldades cognitivas ou de literacia, quando o tratamento interfere com crenças pessoais ou quando existem experiências prévias desagradáveis com medicamentos.

Da parte dos médicos, os aspectos mais relevantes são a incapacidade de reconhecer e identificar a fraca aderência dos seus doentes, a prescrição de regimes terapêuticos complexos e com múltiplos fármacos, uma má explicação dos benefícios do tratamento e uma comunicação deficiente entre pares (especialistas e médicos de medicina geral e familiar).

Da parte do sistema de saúde, as comparticipações dos medicamentos e uma descoordenação de cuidados entre o internamento e alta hospitalar são elementos que se associam a uma menor aderência.

A conjugação de tudo isto só pode tornar a abordagem da aderência extremamente complexa…

No referido artigo analisam-se 49 estudos clínicos de modo a tentar identificar as intervenções mais capazes de melhorar a aderência.

Em termos globais, identificaram-se seis categorias de medidas com resultados positivos:

  • Educação dos doentes
  • Abordagem do regime de fármacos, no sentido da sua simplificação
  • Consulta com um farmacêutico clínico no contexto de doenças crónicas
  • Medidas de terapêutica comportamental/cognitiva
  • Estímulos para recordar/alertar a toma da medicação
  • Incentivos para a promoção da aderência

Estas medidas não são aplicáveis em todos os sistemas de saúde e, por isso, para cada contexto deverão ser selecionadas as mais apropriadas, mas os resultados tendem a ser muito interessantes, com melhorias na aderência que podem alcançar os 33% (este valor obtido no caso das medidas que relembram os doentes para tomar os seus medicamentos e/ou renovarem as prescrições).

Mas, mais do que isso, o processo de melhorar a aderência deve ser o mais individualizado possível, atendendo às características de cada doente e de cada doença.

Estamos perante uma realidade importante, com enorme impacto nos resultados dos tratamentos preconizados e que, apesar de todos os estudos realizados, continua a persistir e a afectar a saúde das populações.

Melhorar a aderência não pode nem deve ser visto como uma tarefa exclusiva dos médicos mas deve ser encarada como um esforço colectivo.

Saibamos, pois, no nosso investimento quotidiano na melhoria do diagnóstico e tratamento das inúmeras condições clínicas, não esquecer a dedicação de tempo a tornar a aderência mais robusta.

Caso contrário, os ganhos obtidos ficarão sempre aquém do esperado…

As medidas aqui recordadas são já amplamente conhecidas e amplamente testadas. Relembrá-las é sempre importante, de modo a que cada um de nós adira melhor a estes gestos que podem, e muito, melhorar a aderência dos nossos doentes aos tratamentos que lhes prescrevemos.

  • Vinay Kini e col., Interventions to ImproveMedication Adherence. A Review, JAMA. 2018;320(23):2461-2473.
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