É um recorde absoluto: nunca o SNS tinha gasto tanto dinheiro em horas extraordinários como no ano passado (e só existem dados até Novembro). Segundo dados divulgados no site da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), citados pelo jornal i, os hospitais do SNS gastaram 568 milhões de euros com trabalho extraordinário nos primeiros onze meses de 2017.

Os custos com esta rubrica quase duplicaram, ao aumentarem 265 milhões de euros, em comparação com a despesa do ano anterior. E o balanço pode tornar-se ainda mais pesado para as contas do SNS já que, neste balanço, não estão contabilizados os gastos com horas extra de cinco hospitais (como o Amadora-Sintra ou o Garcia da Orta).

O aumento dos custos traduziu-se também num aumento do peso das horas extra no total de gastos com pessoal. Se em 2017 esta rubrica representava 11% da despesa com recursos humanos, essa percentagem disparou, no ano passado, para perto dos 25%. A dependência do trabalho extraordinário para manter os serviços a funcionar é mais notória nas unidades hospitalares do interior, que só sofrem com a carência de pessoal. Na Unidade Local de Saúde da Guarda e na do Nordeste, no Centro Hospitalar da Cova da Beira ou no Hospital de Évora, o peso das horas extra supera mesmo os 30%.

Em valor absoluto, o recordista é a maior unidade hospitalar do país. No Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN), que integra os hospitais de Santa Maria e Pulido Valente, os gastos superam os 52,5 milhões de euros só até novembro. No mesmo período de 2017, a despesa com horas extras nem sequer tinha chegado aos 20 milhões. O ainda presidente do Conselho de Administração fala no “pior ano de sempre” e afasta a ideia de que a redução da carga semanal iria trazer uma melhoria da eficiência. Carlos Martins revela que, em 2018, o CHLN contou com menos 1200 a 1500 trabalhadores por dia. “Costumamos ter 6300 trabalhadores e nos melhores dias tivemos 5000 – é natural que as horas extra tenham de crescer”, diz.

O aumento da despesa com horas extra era já esperado. Para além da redução das 40 para as 35 horas de trabalho semanais em todo o SNS a partir de julho, também regressou ,no ano passado, o pagamento a 100% do trabalho extraordinário. Apesar de esperado, o crescimento da despesa é “preocupante”, segundo o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, que defende que estes números deveriam ser analisados ao pormenor pela tutela.

Alexandre Lourenço diz mesmo, em declarações ao jornal i, que “as contratações foram insuficientes”, tendo “os hospitais de recorrer às horas extra” por causa da “grande dificuldade que existe para contratação de profissionais mesmo em situações comuns de substituição por motivo de doença”.

Tiago Caeiro

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