Qual é a incidência deste tipo de cancro?

Dr. Daniel Pereira da Silva | A incidência é intermédia no panorama europeu e, em Portugal, ronda os 8/9 casos por cada 100 mil mulheres. São 700 a 750 casos por ano. Morrem cerca de 300 mulheres por ano com este cancro.

É uma mortalidade de quase 50%, ainda elevada.

DPdS | Sim mas que tem vindo a diminuir, na medida em que essa mortalidade resulta do facto de o diagnóstico ter ser feito tardiamente até há alguns anos. Felizmente, e isso é muito notório aqui na região de Coimbra, o rastreio teve um impacto fundamental na redução da incidência e da mortalidade. Tanto a incidência como os casos avançados diminuíram significativamente.

Todos os casos de cancro do colo do útero são provocados pelo HPV (Vírus do Papiloma Humano)?

DPdS | São todos. Hoje em dia, temos de considerar que todos os casos têm o HPV associado. A infeção pelo HPV não é causa suficiente, na medida em que é uma infeção muito frequente em todo o mundo e também em Portugal. Na população com menos de 50 anos, cerca de 80% teve infeção em algum momento da vida.

Felizmente, a maior parte das mulheres desenvolve mecanismos de defesa contra a infeção. Mas há uma percentagem de cerca de 5% que não desenvolve essa proteção.

Quais são os sintomas a que é preciso estar atento?

DPdS | Infelizmente, estes só aparecem numa fase tardia da doença. Aí pode haver um sangramento durante as relações sexuais ou de forma espontânea, um corrimento de cheiro intenso. Nas fases iniciais, a doença é assintomática. Não há sintoma que permita suspeitar – pela história clínica ou pelas queixas da doente – da presença da doença.

Já vemos muitos poucos casos avançados em cidadãs nacionais. Ainda há dias vi, sim, uma familiar de um refugiado, que está em Portugal, e que está numa situação idêntica àquelas que eu via com alguma frequência há quinze anos atrás. Neste momento, os casos avançados afetam mais a população migrante. São pessoas que não tiveram o mínimo acesso a cuidados de saúde e que representam a população de maior risco.

Do total de casos, quantos chegam ao estado avançado?

DPdS | Do total de infeções, cerca de 5% podem desenvolver doença. A maior parte desses casos são lesões pré-cancerosas, que são detetadas no rastreio. Os casos que depois chegam a cancro invasivo representam nem 1% do total. São casos de mulheres que não foram vacinadas nem fazem rastreios. Este é um cancro prevenível.

O rastreio é feito, ou deveria ser feito, com que frequência?

DPdS | As recomendações nacionais e internacionais com citologia indicavam que devia ser feito de 3 em 3 anos. Contudo, neste momento, existem recomendações para abandonarmos a citologia como método de rastreio e para passarmos a fazer apenas o teste ao HPV como rastreio. Neste caso, basta fazê-lo de 5 em 5 anos, a partir dos 25 anos.

E depois até que idade?

DPdS | Aí já é mais discutível mas o que está definido são os 60 anos. Também há quem defenda os 65 anos.

Qual é a importância da vacina como prevenção?

DPdS | A vacina tem um papel fundamental. A taxa de cobertura vacinal em Portugal em todas as mulheres com menos de 25 anos rondou os 90%, em 2018. Isto vai ter resultados decisivos no futuro, até para nós [médicos] definirmos novas metodologias de rastreio. Estamos convictos, conforme já se verifica em países que têm programas mais avançados (o maior exemplo é o da Austrália), que a vacina é, de facto, muito eficaz. A vacina continua a confirmar os resultados que foram obtidos nos ensaios clínicos – e nem sempre isso acontece. No terreno, verifica-se que há uma redução extraordinária das lesões pré-cancerosas e das cancerosas. A vacina atual cobre 90% dos vírus que estão associados a este cancro, é uma cobertura fantástica.

Esta vacina é administrada em que idade?

DPdS | A vacina faz parte do Programa Nacional de Vacinação (PNV). É dada preferencialmente nos adolescentes, entre os 9 e os 14 anos em duas doses. Continua a ser dada, no âmbito do PNV, depois dos 15 anos mas aí já são três doses que têm de ser feitas.

Entretanto a vacina foi alargada aos rapazes por indicação do parlamento. O que pensa dessa decisão?

DPdS | A carga da doença nos rapazes é muito menor. Contudo, há cancros que também afetam os rapazes, como o cancro anal (em que 90% dos casos estão associados ao HPV), o cancro da orofaringe, do pénis. Contudo, estes são cancros raros, tal como são, no caso das raparigas, os cancros da vagina e da vulva.

Portanto, sou a favor desse alargamento, já que os rapazes vão, não só beneficiar eles próprios de proteção, como também dar uma outra proteção a todas as parceiras com quem tenham um envolvimento sexual. Não deve haver diferenciação de género aqui.

Em relação à terapêutica, nos casos em o cancro evolui até um estado avançado, quais são as opções?

DPdS | As terapêuticas são variáveis, consoante a fase em a doença estiver. Numa fase inicial, é possível fazer a cirurgia (com uma taxa de cura muito elevada, na ordem dos 95%). Na sequência da cirurgia, pode haver lugar a radioterapia.

E, nesses casos, a reabilitação da mulher é total?

DPdS | Pode ter algumas consequências na esfera sexual, já que, por exemplo, a vagina pode ficar encurtada. Mas é o melhor que se consegue e é possível dar uma qualidade de vida significativa.

Depois, nos casos mais avançados, o tratamento tem de passar por quimio e radioterapia em simultâneo. Aí já não há lugar à cirurgia.

E em relação aos fármacos já disponíveis (como o bevacizumab), qual é a eficácia conhecida?

DPdS | Existem vários mas não se demonstrou ainda que existam fármacos que tenham um valor significativamente superior em relação aos tratamentos convencionais. Vão-se procurando novas abordagens terapêuticas com maior sucesso mas não podemos dizer que já as conseguimos. Este tumor, em mulheres com menos de 50 anos de idade, é o segundo mais frequente.

O que pode ainda ser feito para diminuir o número de infeções e para tornar este cancro menos frequente?

DPdS | Acho que estamos num bom caminho. Existe uma deliberação no sentido de mudarmos o rastreio da citologia para o teste ao HPV. Assim, vamos à procura do agente etiológico e não já das consequências desse agente – estamos a antecipar a própria doença. Seria muito interessante que as mulheres que não foram vacinadas, porque tinham mais de 25 anos, ou que falharam a vacinação, que o façam. Nas mulheres sexualmente ativas, a vacina tem lugar. Ainda há dias vi uma mulher a quem propus a vacina há 10 anos atrás. Ela não a fez e hoje tem a doença.

Tiago Caeiro

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