Durante mais de 60 anos, a terapêutica contra a malária não conheceu nenhum desenvolvimento digno de registo. Essa realidade mudou em julho de 2018, quando a Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora do medicamento norte-americana, aprovou a tafenoquina, um medicamento contra a malária que os cientistas descrevem como uma “conquista fenomenal”.

O medicamento, fabricado pela farmacêutica britânica GSK, consegue expulsar o parasita do fígado de um doente com uma só toma. Agora, a GSK e Medicines for Malaria Venture (uma organização sem fins lucrativos sediada na Suiça) anunciaram que a tafenoquina, vendida sob o nome comercial Krintafel, previne também a reinfeção, ou seja, que o doente contraia novamente o parasita.

 

Doença não voltou a 62% dos doentes

 

Um estudo de fase III, publicado no The New England Journal of Medicine, aponta para a cura radical da malária causada por Plasmodium vivax (um dos cinco parasitas que podem provocar a doença) e para uma taxa de doentes livres de reincidência de mais de 60%.

O estudo DETECTIVE, conduzido em 522 doentes, analisou a administração única de tafenoquina (300mg), a administração de primaquina (o único fármaco existente até ao ano passado e que obriga a uma terapêutica de 14 dias) e a administração de placebo, com todos os doentes a receber cloroquina – medicamento usado no tratamento da doença – durante 3 dias para tratar sintomas clínicos.

Os resultados indicaram que houve uma proporção significativamente superior de doentes a permanecer livre de reincidência, acima dos 6 meses de follow-up, comparativamente aos doentes do grupo placebo (62,4% vs 27,7%). Os efeitos adversos observados foram consistentes com o perfil de segurança conhecido da tafenoquina. Decréscimos ligeiros e assintomáticos de hemoglobina (uma proteína existente nos glóbulos vermelhos, que transporta oxigénio) foram observados mais frequentemente em doentes a receber tafenoquina, sendo que todos eles recuperaram sem intervenção.

 

Menos efeitos adversos

 

“Tratar a malaria causada por Plasmodium vivax é particularmente desafiante, porque este parasita tem a capacidade de permanecer inativo no fígado, resultando em reindicências. A fraca adesão aos tratamentos com primaquina em contexto real pode levar a níveis de reincidência mais elevados do que os observados em contexto de ensaio clínico controlado, pelo que um tratamento de dose única com tafenoquina é uma proposição atrativa”, afirma o Dr. Hal Barron, Chief Scientific Officer e President of R&D da GSK.

Um outro estudo, conduzido em 251 doentes, investigou o efeito da dose única de tafenoquina (300mg) nos níveis de hemoglobina, em comparação com terapêutica de 14 dias de primaquina (15mg). A incidência de decréscimos de hemoglobina foi muito baixa e semelhante entre os dois grupos de tratamento (2,4% para os doentes que receberam tafenoquina e 1,2% para os doentes que receberam primaquina).

A frequência de efeitos adversos foi de 72% para o grupo com tafenoquina e 75% para o grupo com primaquina e a frequência de efeitos adversos graves foi de 4% para o grupo com tafenoquina e 1% para o grupo com primaquina.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, cerca de 3,3 mil milhões de pessoas estão em risco de contrair a doença durante a sua vida, sobretudo em países pobres. Estima-se em cerca de 500 milhões os casos anuais de malária. Destes, cerca de um milhão de pessoas acaba por morrer, na maior parte dos casos, sem ter acesso a nenhum tratamento.

A tafenoquina está já aprovada nos Estados Unidos e na Austrália, mas a empresa farmacêutica GSK pretende solicitar a aprovação no Brasil, e depois nos países onde a malária é mais comum. Nos países mais pobres, a medicação vai ser vendida a baixo custo.

Saúde Online

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