Para responder às muitas dúvidas que ainda hoje persistem sobre o que são, como se produzem e qual o verdadeiro impacto económico e de gestão hospitalar dos medicamentos biossimilares, a Escola Nacional de Saúde Pública, com o apoio da farmacêutica Sandoz levaram ao prelo o livro “Medicamentos Biossimilares, o estado da arte”, um trabalho da autoria de um grupo de especialistas, coordenado por João Gonçalves, Professor Associado com agregação da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e Investigador Principal em Imunologia e Biotecnologia da Unidade de Microbiologia e Biotecnologia Molecular do Research Institute of Medicines (iMED). A Obra, prefaciada pelo antigo Ministro da Saúde e Diretor da Escola Nacional de Saúde Pública, António Correia de Campos, tem como destinatários um vasto leque de profissionais de saúde, particularmente médicos, farmacêuticos e enfermeiros. Em entrevista ao Saúde Online, o coordenador da equipa de autores fixou muitos dos conceitos sobre o tema e integrou algumas das lacunas que também os jornalistas enfrentam quando o têm de abordar …

Embora surjam, tal como os medicamentos genéricos, após o fim da proteção conferida pela patente, os biossimilares são muito diferentes dos primeiros, quer no que toca à sua natureza intrínseca, quer à complexidade que envolve o seu desenvolvimento e fabrico… Quais são, a seu ver, as principais semelhanças e diferenças entre Biossimilares e genéricos?

Professor João Gonçaves (PJG) – Desde logo os passos que levam aos genéricos, que são relativamente simples quando comparados com os que envolvem o desenvolvimento e produção de medicamentos biológicos, como o são os biossimilares. A primeira grande distinção é precisamente a sua natureza física. Os medicamentos genéricos são moléculas relativamente simples, obtidas por síntese química. Já os medicamentos biossimilares são compostos por moléculas complexas, construídas dentro de células. Quanto ao processo de fabrico, os medicamentos genéricos são produzidos tendo por base um dossier que inclui todas as características do produto químico, bem como a descrição, deste a matéria-prima até ao controlo do produto acabado. No que diz respeito aos biossimilares todos estes processos são mais complicados em todas as fases e necessitam de um desenvolvimento mais demorado e intensivo. Dossier esse que passa ao domínio público após o fim da proteção de patente. Já nos medicamentos biossimilares, não há dossier disponível…

Como procedem então?

A partir do produto acabado, através de um processo de engenharia reversa. Dito numa linguagem leiga, “desmonta-se” a molécula e depois tenta-se remontá-la, de modo a que as características do medicamento assim “reinventado” sejam sobreponíveis, tanto quanto possível, às do medicamento originador. É evidente que mesmo com toda a tecnologia disponível hoje em dia, no final há sempre alguma variabilidade entre uns e outros. Mas ela também existe entre lotes diferentes de um medicamento originador. O que é preciso e crucial é que essas variações estejam dentro dos limites considerados aceitáveis para que o medicamento biossimilar tenha a mesma eficácia que o originador.

E isso é garantido?

Claro! Os standards de qualidade são muitíssimo exigentes. Assim como é “de ponta” a tecnologia utilizada no processo. Repare que estamos a falar de medicamentos que entraram no mercado há 15 ou mais anos. A tecnologia que foi empregue nessa altura para começar a produzir esses medicamentos originadores não se compara com a tecnologia que temos hoje para produzir os biossimilares ou mesmo os originais. Portanto essa reinvenção está a melhorar a qualidade e a custos mais baixos.

Com custos mais baixos?

Com custos mais baixos por diversas razões, de que destaco duas: por um lado a eficiência da tecnologia, que tem registado desenvolvimentos notáveis nos últimos anos e, por outro, porque os custos a amortizar são inferiores aos da molécula original (entre cinco a oito vezes mais baixos). Uma “poupança” resultante do menor número de ensaios clínicos que têm de ser realizados. Repare que já sabemos exatamente como é que aquele medicamento atua. Estamos apenas a reinventar o processo de produção. Estes medicamentos vão, assim, entrar com um preço mais baixo no mercado com uma qualidade que, à partida, é pelo menos sobreponível à dos originais.

Quando se pensa neste tipo de medicamentos de um ponto de vista meramente emocional há a tentação de dizer que são medicamentos que não resultam de investigação, pelo que não trazem nada de novo. Ora, como se disse, não é de todo assim. Muitas vezes, “reinventar” uma célula igual traduz-se em melhorias face ao medicamento “originador”. Isto envolve muita tecnologia e investigação. Por isso é que vemos que o tipo de empresas que apostam nos biossimilares não é o mesmo que aposta nos genéricos. Naqueles, encontramos as mesmas empresas que investigam e desenvolvem medicamentos inovadores, muitos dos quais biológicos, percursores dos biossimilares.

“Os standards de qualidade são muitíssimo exigentes. Assim como é “de ponta” a tecnologia utilizada no processo.”

Vigora a ideia, depreciativa, de os medicamentos pós-patente, genéricos e biossimilares são fabricados na China e Índia.

Bom…. Se a preposição é a de que a “Ásia é muito forte” na produção de genéricos, é verdadeira. O mesmo relativamente a medicamentos biológicos e biossimilares. Se se quiser ser rigoroso, a verdade é que nos últimos 10 a 15 anos a Ásia tem sido um importante polo de produção dos medicamentos biológicos originais e biossimilares. Dito isto, é importante salientar que as empresas dos originais não produzem estes medicamentos por si só; têm outras empresas, subcontratadas, que produzem para eles. Neste momento, as empresas sul-coreanas são as que mais biossimilares produzem a nível global. São empresas que não conhecíamos mas que se olharmos para o seu histórico, constatamos que já fizeram muito caminho nesta área e detêm a mais avançada tecnologia.

Quando os genéricos entram no mercado, o primeiro tem de ser 50% mais barato do que o originador. Nos biossimilares existe alguma regra?

Regras, propriamente ditas, não há, nem limites para preço mais baixo comparativamente com o originador. Existem, isso sim, recomendações para que tenha um preço 20% abaixo do originador.

É muito menos do que a redução imposta aos genéricos…

Atualmente, o primeiro genérico a entrar no mercado tem de ter um preço 50% inferior ao do medicamento original (o medicamento de referência, com igual dosagem e forma farmacêutica). Uma imposição que desce para 25% para os medicamentos cujo preço de venda ao armazenista em todas as apresentações, seja igual ou inferior a 10 euros.

Já nos biossimilares, isso não é possível, dado o investimento necessário para o desenvolvimento destes medicamentos, que obriga à introdução de alguma tecnologia nova, dispendiosa. O custo de desenvolvimento de um genérico situa-se, em média, em torno de 10 milhões de euros. Já um biossimilar obriga a um investimento médio de, pelo menos, 200 milhões de euros. Ainda assim, muitíssimo menos que um biológico originador, que em média custará mais de mil milhões de euros.

Quais foram os primeiros biossimilares disponibilizados no mercado …

O aparecimento de biossimilares está diretamente relacionado com o período de proteção de patente, que de uma forma geral, é de 20 anos. Os primeiros biossimilares a entrarem no mercado foram as proteínas “mais simples”: os fatores de crescimento (como as eritropoietinas, a hormona do crescimento), a insulina (que apesar de ser pequena, não é fácil).

As insulinas foram difíceis de sintetizar?

Foram, ainda que em países pouco regulamentados essas insulinas, menos controladas, entraram. E porque é que entraram aí e não na Europa ou nos Estados Unidos? Porque os critérios de qualidade que temos são muito rigorosos. A qualidade de produção ainda não era a melhor. O que temos de garantir às pessoas é que a qualidade que está a ser introduzida agora é a máxima. Muitas vezes especula-se mesmo que a qualidade é superior à tecnologia dos originais.

Integram lacunas que foram detetadas…

Exatamente. Muitas vezes vão ao ponto de encontrar lacunas que os próprios originais tinham e que não resolveram.

Como é que surgiu a ideia e qual é o objetivo do livro?

O objetivo é dar informação e situar os profissionais de saúde neste “universo” dos biossimilares. Desde a produção ao controlo de qualidade. A qualidade era uma pedra de toque muito importante. Havia uma necessidade de gerar informação credível sobre o assunto, para dissipar ideias preconcebidas erradas.

A quem se dirige este livro?

Este livro dirige-se, essencialmente, aos profissionais de saúde (médicos, farmacêuticos, enfermeiros, administradores hospitalares). É um livro que, no fundo, vai abarcar a informação cientifica, a informação clínica, a qualidade, o impacto do acesso a estes medicamentos, a farmacovigilância.

O lançamento está enquadrado num simpósio da Escola Nacional de Saúde Pública. No programa, a informação que vai ser transmitida estende-se também ao público em geral?

“Temos de garantir que tanto os profissionais que prescrevem, e os que dispensam estes medicamentos como o público tenham confiança nos biossimilares.”

A palavra-chave aqui é confiança. O lançamento desta obra apresenta-se como uma excelente oportunidade de informar, também, o público em geral, incutindo confiança.

E o público tem capacidade para absorver esta informação?

Esta informação pode ser, no início, bastante densa, pelo que há necessidade de simplificar alguns destes conhecimentos. O importante é a confiança e também dar a conhecer o impacto socioeconómico deste grupo de medicamentos.

Quando olhamos para a inovação dos medicamentos atuais (por exemplo, para o cancro), verificamos que muitos deles estão a evoluir de uma forma extraordinária em termos de eficácia, permitindo tratar cancros que até aqui eram letais. O problema é que essa eficácia acarreta custos dificilmente acomodáveis pelos orçamentos de saúde. E é aqui que entram os biossimilares. São medicamentos que induzem poupanças significativas de custos, permitindo, dessa forma, a aquisição de medicamentos inovadores para satisfazer necessidades de saúde.

E também a longo prazo. Toda a indústria farmacêutica mostrou que é possível produzir os anticorpos monoclonais a preços mais baixos. Ora, isso vai-se refletir daqui a 10, 15, 20 anos nos medicamentos que estão a ser hoje utilizados no cancro com eficácias tremendas.

Os genéricos representam quase 50% de utilização no mercado. Também sabemos quais são os dados dos biossimilares?

Existem recomendações da Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica, que apontam para que os doentes, quando começam uma terapêutica biológica, devem começá-la com o medicamento com o custo mais baixo. Não diz exatamente que são os biossimilares, mas 80 ou 90% dos casos são-no. Noutros países da Europa, os biossimilares têm penetrações altíssimas (90 a 95% na Noruega ou na Dinamarca). Portanto, hoje há uma vaga na Europa, apoiada pelos médicos e farmacêuticos, que defendem a qualidade dos biossimilares e a sua utilização, algo que no início, não aconteceu, pelo menos em Portugal, com os genéricos.

Miguel Múrias Mauritti

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