Porquê o tremoço? “À semelhança da videira, é uma planta rica em proteínas e substâncias bioativas”, começa por explicar Ricardo Boavida Ferreira, que recebeu o Saúde Online no seu gabinete no Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa, que partilha com outros investigadores, que formam o grupo “Plants for Health and Nutrition”, cujo trabalho consiste em desenvolver soluções inovadoras, com recurso à Biologia, no âmbito da saúde das plantas e dos seres humanos. Ao seu lado, a investigadora Ana Lima, com quem trabalha desde 2012, ano em que começaram a procurar péptidos no tremoço que tivessem atividade anti tumoral, mas que, em 2013, acabaram por descobrir que afinal se tratava de uma proteína: a deflamina.

A deflamina é uma das duas proteínas bioativas que foram encontradas no tremoço pelos investigadores, que incluiu ainda uma aluna de doutoramento, Joana Mota, cuja tese de mestrado foi sobre esta descoberta, e que foi adicionada a uma bolacha com a colaboração de duas investigadoras da área da Engenharia Alimentar, Anabela Raymundo e Isabel Sousa, com o apoio da unidade de investigação LEAF (Landscape, Environment, Agriculture and Food) do ISA.

A primeira proteína, recorda Ricardo Ferreira, designada por BLAD, foi descoberta em 1991, e já está comercializada nos Estados Unidos. É um potente fungicida com atividade bio estimulante e bactericida, e que “até se pode comer”, reforça o investigador, ao contrário da maioria dos fungicidas que por norma são tóxicos. Além destas duas proteínas, foram também descobertas outras três substâncias de diferentes origens.

O tremoço nasce no Alentejo, uma região pobre em plantas e de clima seco levando a que estes organismos necessitem de desenvolver as suas defesas. Esta planta “investiu em proteínas bioativas e nos alcaloides que ironicamente têm algumas propriedades antidiabéticas ainda que, se ingeridos em grande quantidade, sejam tóxicos”, refere o investigador.

Em relação à deflamina, uma das substâncias bioativas do tremoço, ela poderá ser administrada através da ingestão de uma bolacha contendo um extrato rico nesta proteína, com um efeito supressor de duas enzimas muito específicas e envolvidas no processo inflamatório e tumoral: Metaloprotease-2 e a Metaloprotease-9 (MMP-2 e MMP-9).

Investigadora Ana Lima: ” Os testes preliminares mostram que a deflamina não é degradada pelo sistema digestivo e não é absorvida para a corrente sanguínea, o que significa que não vai ter efeitos secundários no nosso corpo”

“Descobriu-se que alguns alimentos têm inibidores muito específicos destas enzimas e que funcionam se forem introduzidos numa dieta preventiva porque vão inibir o desenrolar do processo inflamatório”, explica Ana Lima, acrescentando que “hoje em dia é muito comum as pessoas terem doenças inflamatórias do intestino e os sintomas como as intolerâncias, as dores de barriga e o inchaço que muitas vezes sentem têm a ver com a atividade aberrante da MMP9. Se inibirmos esta enzima, à partida conseguimos prevenir que se torne num processo crónico, o que está associado a uma maior probabilidade de desenvolvimento de tumores. Existe uma relação comprovada em como pessoas que têm estas doenças crónicas do sistema digestivo podem, mais tarde, desenvolver cancro do colón, o segundo cancro que mais mata a nível mundial”.

Ana Lima reforça ainda que a sua equipa foi uma das primeira a encontrar um inibidor de inflamação do tipo proteico. Os benefícios de trabalhar com proteínas passam por desenvolver novas “formas de introduzir na alimentação compostos que têm bioatividade, que são bons para a saúde e que não induzem toxicidade. Neste caso, é ainda melhor porque [a deflamina] atua nas doenças do sistema digestivo. Os testes preliminares mostram que não é degradada pelo sistema digestivo e não é absorvida para a corrente sanguínea, o que significa que não vai ter efeitos secundários no nosso corpo, mas sim uma ação localizada na zona inflamada ou no próprio tumor”. Tal foi comprovado em diversos testes, incluindo ensaios em modelos animais que se traduziram em resultados positivos “a proteína teve uma atividade muito forte em reduzir a inflamação, o estresse oxidativo e as lesões causadas pela colite”, testemunha a investigadora.

A utilização desta proteína como suplemento alimentar na prevenção das doenças inflamatórias intestinais e no cancro colorretal é atualmente o foco do trabalho destes investigadores tendo valido à equipa o prémio BfK Awards na competição Food and Nutrion Awards, na edição de 2018. No futuro, está prevista a realização de novos ensaios clínicos que deem continuidade aos estudos realizados nesta área e de novos testes que verifiquem a eficácia da deflamina na prevenção de outras doenças, dermatológicas por exemplo, ou de outros tipos de cancro.

Mónica Abreu Silva

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