Saúde Online | Portugal já conseguiu, segundo os últimos dados, atingir dois dos três 90, ou seja, das metas que são o objetivo para 2020. Mais de 90% das pessoas que vivem com VIH estão diagnosticadas e mais de 90% têm carga viral indetetável. Estes números significam que estamos num bom caminho ou ainda há muito a fazer?

Dra. Ana Rita Silva | Os números significam que estamos, seguramente, num bom caminho mas ainda não estamos lá. Ainda há muita coisa por fazer. Em relação à questão dos dois dos três noventas, houve um reajuste de cálculos por parte da ONU e fica a dúvida se já atingimos dois desses objetivos ou não. Mas isto são cálculos matemáticas que tornam as contas um bocado complicadas. Seja como for, Portugal tem feito um esforço gigantesco no sentido de, não só melhorar o diagnóstico, mas também colocar a pessoa em tratamento e mantê-las suprimidas. E, enquanto médica, tenho visto um esforço muito grande da parte do governo para conseguir atingir os hospitais.

Uma das coisas mais visíveis são as chamadas fast track cities, que são contratos que se fazem com várias cidades (a última foi Cascais), em que se põem em prática várias atividades para aumentar o rastreio do VIH na população e tentar chegar a grupos mais difíceis, nomeadamente, pessoas que, por várias razões, acedem menos aos cuidados de saúde.

Há uma grande incidência de infeção por VIH nos migrantes?

Dra. Ana Rita Silva | Não temos noção de qual será a incidência de VIH nessa população. É uma população que não está ligada aos cuidados de saúde. Sabemos que, se forem indivíduos relativamente jovens (até aos 40, 50 anos) mas que não tenham nenhuma doença, nenhuma comorbilidades nem nenhum motivo para irem ao médico, eles não vão fazer nenhuma consulta de rotina. Muitos deles nem sequer estão inscritos, não têm número do SNS, não sabem que podem ter acesso à consulta e ao tratamento gratuitamente. Alguns têm receio de que, ao se identificarem como imigrantes ilegais, possam ter algum tipo de problema.

Mas tem sido feito um esforço para tentar criar mais alerta na população e também para tentar identificar uma série de doentes que não estavam notificados e que não se sabia se tinham mudado de hospital, ou se tinham morrido, ou se tinham saído do país. Foi preciso os hospitais reverem uma série de casos: ainda eram uns quantos milhares de casos, seguramente mais de cinco mil. Assim, conseguimos ter uma melhor noção dos doentes que estavam diagnosticados mas estavam “perdidos”.

Tem a perceção de que ainda há bolsas de doentes que não estão em tratamento e onde os cuidados de saúde não conseguem chegar?

Dra. Ana Rita Silva | Há doentes que, por vários motivos, abandonaram o seguimento. Estamos a falar de pessoas que já foram diagnosticadas e que não estão em tratamento. Habitualmente, essas pessoas retomam o seguimento quando ficam doentes e são internadas por infeções oportunistas associadas ao facto de não estarem a ser medicadas. Então, aí “apanhamo-los” e temos oportunidade de os tornar a seguir. Infelizmente, às vezes seria escusado terem chegado a um estado de doença tão avançado se se tivessem mantido em tratamento. A partir do momento em que as defesas do doente baixam a partir de um determinado ponto, essa pessoa tem maior risco de desenvolver doenças e ficar com sequelas cerebrais, pulmonares, etc. Portanto, quanto mais cedo é diagnosticado e tratad, melhor é a sobrevida.

Apesar de os números do último relatório mostrarem que tem havido um aumento nos infetados com mais de 50 anos, a verdade é que ainda continuam a ser infetados muitos jovens que deveriam estar sensibilizados para o perigo da doença.

Dra. Ana Rita Silva | No ano de 2017 notou-se uma diferença muito maior na percentagem de indivíduos acima dos 45, 50 anos (heterossexuais homens). No geral o VIH está a diminuir (nos heterossexuais há cada vez menos casos) mas nos homossexuais masculinos está a aumentar. Esta franja da população é muito jovem, são indivíduos na casa dos 20 anos. No nosso entender, isto explica-se por uma perda de medo da doença. Houve um certo desinvestimento no ensino e nos alertas. Falava-se muito mais de HIV e de Sida do que agora. Também tínhamos personalidades muito conhecidas que vieram a assumir que tinham HIV ou que morreram com HIV. Hoje, por outro lado, como a doença é tratada de outra forma e já não há casos mediáticos, passa muito mais despercebida. Por um lado, é bom, porque não queremos que as pessoas sejam discriminadas e que achem que a sida é uma sentença de morte. Mas depois cria-se o reverso da medalha, que é acharem que não há problema porque acham que não lhes acontece ou porque há amigos ou conhecidos que lhes dizem que é só tomar um comprimido.

Quando é que acredita que poderá surgir uma vacina que cure a doença?

Dra. Ana Rita Silva | A cura pode surgir na forma de vacina ou não, isto é, nós queremos, habitualmente, dar uma vacina para evitar que a pessoa fique doente. Em relação à vacina enquanto cura, será uma realidade mas ainda não é algo que vá acontecer brevemente. Nos próximos cinco a dez anos, não me parece que surja. É uma doença muito complicada e que nos tem trocado as voltas quando achamos que estamos quase lá.

Mais rapidamente virão as medicações de longa ação – que são comprimidos, injeções ou implantes subcutâneos – que vão permitir que a pessoa tome medicação uma vez por mês ou uma vez a cada três meses. Isto vai acontecer a curto prazo. Já é possível, inclusivé, em Portugal, mediante uma autorização do Ministério da Saúde ou do Infarmed, fazer-se. Tem a desvantagem de ser uma injeção intramuscular, com uma quantidade relativamente grande de medicação. Mas há doentes que preferem, como os doentes psiquiátricos e os reclusos. Outra desvantagem é o facto de a pesquisa ainda não estar suficientemente avançada. Se a pessoa faz um medicamento que fica no corpo durante um mês, se tem um efeito secundário não conseguimos tirar o medicamento de lá – enquanto que se tem uma alergia com um comprimido, em 2 ou 3 dias deixa de fazer efeito. Portanto, isto é onde a ciência está a ultimar últimos pormenores.

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