A prevalência de obesidade tem vindo a aumentar não só em Portugal, mas no mundo inteiro, representando um enorme fardo na saúde, pelas várias patologias associadas, como as doenças cardiovasculares, diabetes, doenças respiratórias e cancro, e na economia, sobretudo se considerarmos a diminuição da produtividade. Phil McEwan, professor e diretor técnico do Center for Health Economics, da Swansea University e diretor administrativo da HEOR Ltd, consultora que atua nas áreas do HIV, oncologia, diabetes e doenças infeciosas, começou a sua apresentação neste congresso por referir que, em 2040, o custo global com os cuidados de saúde irá aumentar entre cerca de 7 a 18 triliões de dólares, sendo 20% destinado ao tratamento da obesidade e das comorbilidades a ela associadas.

Mónica Abreu Silva (MAS) | Estima-se que em 2040, o custo global com cuidados de saúde irá aumentar entre cerca de 7 a 18 triliões de dólares. Qual a peso da obesidade neste valor?

Phil McEwan (PM) | Falando de uma forma geral, à volta de 20% (cerca de 2 triliões) estará associado à obesidade e às suas complicações. É um pouco difícil prever qual será o custo desta doença, porque inclui outras complicações como a diabetes, as doenças cardiovasculares, cancro, doenças respiratórias, entre outras.

Esta previsão é calculada de acordo com a atual prevalência da obesidade, à medida que muitas pessoas vão entrando para esta categoria e os custos vão aumentando.

MAS | De que forma a perda de peso poderá ajudar a reduzir estes custos? Será suficiente? 

PM | Claro. Uma das formas de olhar para esta questão é pensar na redução de peso para as pessoas que têm excesso de peso e ajudá-las a atingir esse objetivo e a mantê-lo. A longo prazo, isto trará benefícios. Mas não deve ser a única abordagem. Em primeiro lugar, devemos evitar, depois ajudar a perder peso e, por fim, educar as pessoas para esta mudança de estilo de vida que é permanente e que deve ser mantida.

MAS | Com tanta informação que já foi transmitida sobre a obesidade e sobre as suas consequências para a saúde, o que é que continua a falhar?

PM | Temos que olhar para a raiz do problema. A obesidade não se deve à preguiça, tem a sua origem no crescimento económico e na prosperidade. À medida que uma nação vai ficando mais rica, tendemos a comprar casas maiores e bons carros, a comer boa comida e a beber bom vinho, trabalhamos em secretárias o dia todo. É mudança estrutural e estamos a lidar com as consequências do crescimento económico.

Em Portugal, tenho a ideia de que a alimentação é muito rica, as pessoas ainda cozinham e utilizam produtos naturais, e isso é bom e saudável. Não é apenas pensarmos se vamos morrer, mas sim pensarmos nas políticas que aplicamos. No caso dos Estados Unidos, em particular, há um grande consumo de comida processada, logo é necessária uma reeducação de longo prazo o que não é algo de fácil resolução.

 MAS | Também mencionou na sua apresentação que a cirurgia bariátrica é a forma mais eficaz para combater a obesidade, contudo não é a mais acessível. Podemos então considerar que é uma solução? 

PM | É a solução com o efeito mais dramático e prolongado, mas é também a mais cara para começar, mas, como eu referi, as compensações associadas aos custos de reduzir a diabetes e a doença cardiovascular são substanciais. É fácil demonstrar que a cirurgia é a opção com menos custos. Isto foi muito bem documentado no Reino Unido, onde se verificou uma grande resistência em financiar a cirurgia, mas os cirurgiões bariátricos fizeram um excelente trabalho em demonstrar que se têm num paciente com um IMC 45, o menos dispendioso a fazer é a cirurgia, porque se não fizer, os custos serão superiores!

Em todo o caso, não é a abordagem mais correta. A cirurgia representa um valor fantástico a nível monetário, aumenta a esperança de vida e reduz custos, mas deve ser evitada pelos potenciais riscos e complicações cirúrgicas que se lhe associam.

 MAS | Como reduzir o custo económico e garantir o melhor acompanhamento possível para o doente em simultâneo?

PM | Quem trata dos orçamentos todos os anos, não pensa nas consequências. O trabalho dessas pessoas não é pensar sob uma perspetiva da saúde pública, nem no que vai acontecer daqui a 20 anos. É uma situação que se complica devido aos decisores políticos que não permitem que se tomem boas decisões em prol da nação; por não conseguirem conciliar custos e poupanças a curto termo com resultados a longo prazo. Estas intervenções são caras e requerem muitos especialistas, desde dietistas a cirurgiões. Daqui a um ano, os custos vão aumentar, mas serão recuperados a longo prazo. O enfâse deve ser posto na necessidade de garantir que, quando as intervenções nestes pacientes ocorrem, os mecanismos de suporte vão contribuir para manter a perda de peso.

Mónica Abreu Silva

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