Saúde Online | Que expectativas tem para este congresso?

Dr. Hélder Mansinho| A expectativa é que este congresso seja um momento de atualização, de discussão das novas diretivas e das situações que levantam mais dúvidas no tratamento dos tumores oncológicos do sistema digestivo. Também temos 60 trabalhos originais apresentados, que depois serão avaliados consoante a originalidade e o rigor científico, a probidade. Depois serão atribuídos prémios. Os trabalhos mais votados têm apresentação em pleno congresso – este ano, colocámos essas apresentações em horário nobre.

Um dos temas abordados vai ser o Cancro Colorretal. Que avanços se têm registado nos últimos anos no que diz respeito a este carcinoma?

HM | Em relação ao cancro do cólon, que o que se vai discutir é a terapêutica adjuvante e a pertinência de a fazer durante 3 ou 6 meses. Porque é diferente em termos de toxicidade, provavelmente mantendo a mesma eficácia – é isso que os últimos estudos mostraram.

Vamos falar também do papel da imunoterapia no tratamento do cancro colorretal e discutir também qual o melhor tratamento para um grupo dos tumores BRAF mutados, que são tumores muito agressivos e que aparecem em doentes muito jovens. Estes tumores merecem uma terapêutica muito agressiva inicialmente e vamos discutir qual será a melhor abordagem.

Já começam a existir tratamentos de imunoterapia destinados aos cancros do sistema digestivo?

HM | Sim, principalmente nos tumores que têm uma particularidade, que se chama instabilidade microssatélite. No fundo, são tumores que têm uma deficiência de reparação do DNA e têm uma carga mutacional muito alta.

Em relação ao cancro do pâncreas, que novidades podemos esperar?

HM | No fundo, vamos discutir qual será a melhor abordagem para os tumores localmente avançados (aqueles que não são operáveis logo à partida) e se vale a pena fazer apenas quimioterapia ou quimio e radioterapia. Vamos falar também da situação daqueles que são operáveis logo à partida, no sentido de perceber se vale a pena fazer quimioterapia pré-cirúrgica. Nas últimas reuniões não houve grandes atualizações em relação a isso mas vamos ver se existe alguma evidência mais sólida.

Tem aumentado a taxa de sobrevivência do cancro do pâncreas?

HM | O cancro do pâncreas é o único em que a mortalidade está a aumentar. A sobrevivência aos cinco anos ronda os 3%. Desta maneira, irá ser, em 2020, provavelmente a segunda causa de morte por cancro – apesar de não ser dos tumores mais frequentes.

Porque tem o cancro do pâncreas uma mortalidade tão elevada?

HM | Por várias razões: é um tumor que cresce silenciosamente, o diagnóstico é tardio, as pessoas confundem os sintomas (são normalmente sintomas pouco marcantes). Portanto, em cada 100 doentes com cancro do pâncreas diagnosticado, só 20 é que conseguem ser operados e, desses 20, 16 recidiram. É um tumor com uma mortalidade quase igual à incidência. É muito difícil de tratar em termos de quimioterapia.

E tem surgido inovações terapêuticas?

HM | Sim, há algumas, quer em esquemas a utilizar em cirurgia, quer em esquemas a utilizar em doença metastizada mas o fundamental é o diagnóstico precoce. E, para isso, tem de haver um trabalho muito intenso de consciencialização e de informação dirigido aos próprios clínicos e à população, principalmente aos doentes que fumem, que tenham familiares com tumores do cólon, que desencadeiam diabetes tardiamente.

Dentro dos tumores com este nível de mortalidade, este é dos tumores que tem atribuídas menos verbas para investigação. O que é uma coisa que não se compreende.

Que outros temas quer destacar neste XIV Congresso do Cancro Digestivo?

HM | Vamos dar novidades em relação a novas drogas aprovadas para o hepatocarcinoma e também algumas drogas para imunoterapia que poderão ter um papel importante, porque o cancro do fígado é difícil de tratar. O regorafenib, que é a droga indicada, não dá os resultados que gostaríamos.

Também vamos falar dos tumores raros do sistema digestivo, nomeadamente o tumor do apêndice; dos tumores da junção castro-esofágica.

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