Portugal tem dos mais altos rácios mortalidade no conjunto de mais de 30 países analisados, com 11,3 por 100 mil habitantes, apenas ultrapassado por Itália e Grécia. O Saúde Online esteve à conversa com o ex-diretor do programa Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos da DGS. Paulo André Fernandes garante que é possível evitar o agravamento do problema nas próximas décadas e admite que, muitas vezes, prescrever um antibiótico é o caminho mais fácil.

Saúde Online | Como é que podemos encarar o problema da resistência aos antibióticos?

Dr. Paulo André Fernandes | Devemos encarar com noção de que é importante, de que é o principal efeito adverso associado aos internamentos. Internamos os doentes para os tratar ou para diagnosticar problemas de saúde e, como sabemos, o efeito adverso mais grave são as infeções associadas aos cuidados de saúde – muitas vezes por microrganismos multirresistentes. De acordo com trabalhos publicados nos últimos anos (e com grande repercussão a nível mundial), as resistências aos antimicrobianos serão a principal causa de morte em 2050. Só este dado justifica que sejam tomadas medidas para que isso não aconteça. Não estamos a falar de fatalidades (terramotos, furacões) que não podemos evitar que aconteçam. Estamos a falar de algo que é provocado pelas práticas de utilização de antibióticos a nível mundial. Temos de encarar o problema, não com alarmismo, mas com noção da sua gravidade.

A [excessiva] utilização de antibióticos a nível mundial é um problema pelo qual são responsáveis uma série de entidades, desde os cidadãos aos decisores políticos. Com particular importância nas práticas dos médicos, que prescrevem os antibióticos.

Acha que os médicos e os pacientes não estão ainda suficientemente sensibilizados para a necessidade de limitar o uso de antibióticos?

PAF | Não estão de certeza. Se estivessem as práticas eram outras. É verdade que a sensibilização tem vindo a ser feita. Ocasionalmente a imprensa fala do assunto. Nos hospitais, há profissionais que tentam sensibilizar e formar os colegas. Portanto, a noção sobre a importância do uso correto dos antibióticos tem vindo a crescer até na população.

Temos, por vezes, o barómetro da União Europeia sobre este problema dos antibióticos e os resultados, nomeadamente em Portugal, demonstram que – embora continuemos numa posição pouco simpática a nível europeu (os nossos cidadãos são dos que menos sabem de antibióticos) – temos vindo a melhorar. Nomeadamente em questões como não se dar antibióticos para as gripes, o facto de o antibiótico não matar os vírus. Portanto, estas noções muito simples estão mais consolidadas. Contudo, continuamos a usar mal os antibióticos em muitas situações.

Prescrever um antibiótico é o caminho mais fácil?

PAF | Muitas vezes é. As pessoas veem o imediato. Pelo sim, pelo não, toma-se antibiótico. Pode ser um bom resultado no imediato: a pessoa melhora. Mas não sabe se não melhoraria mesmo sem o antibiótico. Essa pessoa esquece-se que, a prazo, cada vez vamos ter mais dificuldade em tratar essas infeções.

Há algumas gerações atrás, morria-se de tuberculose, de pneumonia. Não havia maneira de tratar estas doenças. As doenças infeciosas eram uma das principais causas de morte a nível mundial. A determinada altura, quer as populações, quer os médicos começaram a confiar nos antibióticos de uma forma extrema, não dando atenção à resistência. Isto porque as bactérias adaptam-se, ganham resistências. Matando aquelas que são mais sensíveis aos antibióticos, estamos a selecionar populações de bactérias resistentes, que não conseguimos tratar.

Em que situações é que pode evitar o uso do antibiótico?

PAF | Por exemplo, a gripe – nesta fase é uma boa altura para falar nisso. Os chamados síndromes gripais, que temos quase todos durante o inverno, são situações típicas nas quais o antibiótico não tem qualquer indicação e, apesar disso, é prescrito com grande frequência. A gripe é uma doença aguda, transitória, causada por um vírus e os antibióticos não matam os vírus.

Por outro lado, a seguir à gripe, muitas vezes temos períodos de tosse com expetoração, mas, desde que sejamos saudáveis e não tenhamos outro tipo de doenças, não é necessário tomar antibiótico nessa fase.

Sente que muitas vezes as pessoas ficam com a sensação de que, se o médico não lhe prescrever antibiótico é um mau médico?

PAF | Se a pessoa não está alertada para o problema, quando o médico não lhe prescreve antibiótico fica a achar isso. E os médicos que estão sujeitos a grande pressão – para que demorem pouco tempo com cada consulta – não têm tempo para exercer a devida pedagogia no doente e explicar que este não tem indicação para tomar antibiótico. E o doente vem contente e convicto de que está a fazer o tratamento indicado. Se não prescrevermos o antibiótico, a pessoa acaba por ir a outro médico até que há um que acaba por lhe prescrever.

Porque é que Portugal é um dos países que mais sofre com este problema?

PAF | Estivemos muito tempo a usar os antibióticos de uma forma desmedida. Em 2012, um estudo da União Europeia, que avaliou a prevalência das infeções hospitalares, chegou-se à conclusão de que 45% dos internados em Portugal estavam a fazer antibiótico, quando a média europeia ronda os 35%. Portanto, usámos muito os antibióticos durante um período, depois melhorámos, e nos últimos dois anos esse consumo voltou a subir.

Estamos agora perto da média europeia. Agora, pior é o tipo de antibióticos que consumimos: antibióticos de largo espectro, como é o caso das quinolonas e dos carbapenemos. Principalmente estes últimos, que são uma família de antibióticos de muito largo espetro. Devem ser antibióticos de fim de linha e em, em 2016, éramos o segundo país da europa que mais os prescrevia (mais do dobro da média europeia). E, portanto, são estas práticas menos corretas que levam a que estejamos nesta situação.

Disse há pouco que não é inevitável que a resistência aos antibióticos se torne na primeira causa de morte a nível mundial em 2050. Como é que podemos evitar que isso aconteça?

PAF | Consumindo os antibióticos com mais racionalidade. Consumir apenas quando é necessário e durante o tempo em que é necessário. Há uns anos, nos hospitais, os períodos de terapêutica antibiótica, eram de duas semanas; hoje em dia, há muitos trabalhos que demonstram que basta fazer 7 ou 8 dias de antibiótico. Há uma série de regras que devem ser cumpridas e não só na medicina humana, também na medicina veterinária. As práticas que existem na saúde animal e na humana concorrem para a geração desta resistência: nós ingerimos carne e contactamos com esse tipo de resistência a nível animal. Portanto, tem de haver um esforço a todos os níveis.

Esta evolução das resistências não torna só o tratamento das infeções mais difícil. Por exemplo, a terapêutica oncológica é muito agressiva, destrói a imunidade dos doentes e é acompanhada, muitas vezes por infeções. Tratamos as infeções e o doente sobrevive. Se viermos a ter mais dificuldade em tratar essas infeções, não faz sentido fazermos terapêuticas mais agressivas nas neoplasias se não conseguimos lidar com as infeções que surgem a seguir. Por exemplo, os bebés prematuros, que hoje em dia conseguimos que sobrevivam apesar de terem défices imunitários e contraírem infeções com mais facilidade, são tratados. E também numa série de outras situações, como as cirurgias.

Portanto, é um problema que está a montante de tudo o resto?

PAF | É um problema civilizacional. É a própria medicina moderna que está em causa. Grande parte dos avanços da medicina moderna fez-se sob o “chapéu” das infeções. Se não conseguirmos tratar as infeções, como é que vamos conseguir que sobrevivam bebés prematuros? Como é que vamos conseguir fazer cirurgias alargadas?

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