“A indústria farmacêutica tem um papel estruturante e criador de valor para o país no seu todo, mas precisa de ser encarada como tal e de forma integrada… Pelos seus múltiplos atores e nas várias vertentes, incluindo política”. Quem o defende é o Professor Rui Loureiro, especialista em Farmacêutica Industrial. Para o também membro do Board European Health Futures Forum (EHFF), Portugal deve observar e aprender com os casos de sucesso de outros países. A Espanha fê-lo. Resultado: hoje, 21% da I&D industrial em Espanha tem origem na indústria farmacêutica”. Em entrevista exclusiva ao nosso jornal, o docente da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, defende ainda que “o Estado deve olhar para a I&D dos farmacêuticos como uma área e um setor estratégico, indutor de emprego qualificado e com enorme potencial de exportação – na verdade, algo como um cluster farmacêutico, criador de sinergias virtuosas e a vários níveis. Um deles, assinala, é o do turismo de Saúde. “Temos tudo para que dê certo: uma boa infraestrutura e uma oferta robusta, naturalmente indissociável de idiossincrasias próprias e favoráveis do país, do clima à cultura, geografia e segurança. Portugal é hoje procurado por pacientes de todo o mundo, que aqui vêm à procura de realizar intervenções específicas, como cirurgias às cataratas, angioplastias coronárias, artoplastias da anca, colicistectomias, entre muitas outras.”

Miguel Mauritti (MM) | As Farmácias de Oficina vivem um tempo de profundas alterações, com a falência de um número muito elevado de operadores. Trata-se de uma situação conjuntural ou estrutural?

Prof. Rui Loureiro (RL) | É preciso olhar para as Farmácias de oficina como parte integrante de uma rede mais vasta, na qual a falência de um dos pontos afeta o todo e mesmo outras áreas e o público. Assim, os problemas que se têm vindo a registar ao nível da viabilidade do negócio, afetam, desde logo, o acesso dos cidadãos a cuidados de saúde prestados por uma rede de prestadores (farmácias de oficina) que cobrem, como nenhum outro, todo o território nacional. E uma rede relativamente à qual existe uma boa percepção, por parte da população, tanto da qualidade técnica como da qualidade percebida, sendo apontada por uma percentagem muito significativa como primeiro ponto de contacto com o sistema nacional de saúde.

MM | Como foi possível que isso acontecesse?

RL | Desde logo, por a Farmácia não ter sido considerada, pelo Estado, como integrando o setor industrial, se considerarmos todo o ciclo, da investigação à produção e à dispensa ao público. Como também não foi valorada como prestadora de um serviço público, realizado por técnicos muito diferenciados. Um serviço, cuja prestação acarreta custos de diversa ordem (pessoal, fornecedores, bancários e de seguros, rendas, entre outros). Ao invés de reconhecer o setor como “estratégico”, protegendo-o, os anos de Troika levaram a Investigação e Desenvolvimento (I&D) dos Farmacêuticos portugueses para os cuidados intensivos, fruto de uma queda vertiginosa e direta nas margens da atividade, que suportavam essa I&D.

MM | A queda foi assim tão dramática?

RL | Sem dúvida: de 22.63% entre 2010 e 2016, o que representa uma quebra de 544.8 milhões de euros em apenas 6 anos.

MM | Ainda assim, o setor revelou uma resiliência notável. Como é que explica essa resiliência?

RL | Há três coisas das quais, globalmente, não prescindimos: alimentação, cuidados de saúde e segurança. Não necessariamente por esta ordem. Portanto, qualquer setor que trabalhe a área da saúde e as suas sinergias, tanto para consumo nacional, como para o mercado externo, apresenta uma maior resiliência. Não quer dizer que não sofra com os solavancos da economia global. Por exemplo, Angola era, antes da “crise”, um importante destino de exportação de produtos made in Portugal. Ora, como todos sabemos, hoje, Angola atravessa uma crise, em muito devido à queda do preço do petróleo nos mercados internacionais. Ainda assim, quer o anterior, quer o atual Governo, embora tenham aplicado restrições cambiais para a maioria dos setores, libertaram recursos em moeda forte para dois setores considerados vitais: alimentação e Saúde. Isto mostra a resiliência e o interesse de se investir neste setor e em que surjam spin-offs de centros de investigação, especializadas desde construção de hospitais, softwares clínicos, redes de comunicação para saúde, medicamentos, e todos os demais serviços associados. O Estado deve olhar para a I&D dos farmacêuticos como uma área e um setor estratégico, indutor de emprego qualificado e com enorme potencial de exportação – na verdade, algo como um cluster farmacêutico, criador de sinergias virtuosas e a vários níveis.

MM | Os impactos foram apenas internos?

RL | Não foram apenas internos, mas esses foram muito significativos. Em resultado de algumas medidas concretas, como a descida substancial nos preços de referência dos medicamentos, muitas empresas foram forçadas a desinvestir em I&D essencial à sua atividade, acabando muitas delas por serem assimiladas por players internacionais – tudo isto ao mesmo tempo que, também devido a essas medidas, a nossa quota de mercado na Europa caiu de 2.25% para 1.7%, fazendo-nos derrapar da 10ª para a 13ª posição no ranking europeu.

Não menos negligenciáveis foram as perdas ao nível dos recursos humanos qualificados e altamente qualificados, que recuaram 21.7%, naquela que constituiu uma perda de talentos sem precedentes no País. E no rescaldo da Troika, está ainda muito a ser feito para inverter a situação. Há pequenas medidas que estão a ocorrer agora e que ajudam a que a queda não seja tão pronunciada tanto como nos tempos da Troika, mas diria que essa está longe de estabilizar – ou, mais ainda, de permitir uma evolução autossustentável.

MM | A verdade é que outros mercados, como aqui o vizinho espanhol, passaram pelo mesmo tipo de constrangimentos tendo recuperado a pujança inicial.

RL | Nem mais. A nossa vizinha Espanha, igualmente afetada pela austeridade, conseguiu “dar a volta” e hoje é líder na produtividade por funcionário, tendo conseguido gerar cerca de 40 mil empregos diretos estáveis, 93% dos quais com contratos sem termo e 59% de quadros qualificados.

 MM | Como é que o conseguiram?

RL | Através da adoção de medidas cruciais, com impactos concretos. Por exemplo, assumindo a I&D farmacêutica como setor estratégico. Resultado: hoje, 21% da I&D industrial em Espanha tem origem na indústria farmacêutica. Isso é muito relevante.

MM | Em Portugal, o Governo não tem adotado medidas nesse sentido?

RL | Têm sido aprovadas algumas medidas positivas, é certo, mas também é verdade que há ainda muito por fazer. E os nossos concorrentes internacionais não param; estão em contínua evolução, importando as medidas que avaliam como bem-sucedidas além-fronteiras. Convém não esquecer que este setor é profundamente competitivo tanto a nível nacional como internacional.

E, definitivamente, é o que nós também temos que começar a fazer urgentemente: olhar para mercados semelhantes ao nosso, como o belga, e ver o que podemos fazer para conseguirmos sermos tão ou mais bem-sucedidos.

Sendo certo que Portugal é uma pequena economia aberta e, como tal, particularmente sensível aos estímulos externos e com pouca capacidade para impor regras, isso não quer dizer que tenhamos que ser sempre frágeis. Há muitos exemplos de países com a mesma dimensão que o nosso que se desenvolveram: o Luxemburgo no setor bancário, a Bélgica nos ensaios clínicos ou a Suíça na indústria farmacêutica. Portanto, não é uma inevitabilidade.

O grande desafio do país passa por olhar para este setor de uma forma global, desde a indústria às farmácias, passando pelos armazenistas, os centros de investigação públicos e privados, as universidades, e começar a ver todas estas vertentes como peças de um puzzle que precisam de ligações fortes. No fundo, o tal cluster farmacêutico estratégico e criador de valor referido acima.

MM | Deu o exemplo da Bélgica, que é um caso de sucesso no que respeita à atração de ensaios clínicos. Como é que Portugal poderia alcançar o mesmo sucesso?

RL | De facto, a Bélgica é um bom exemplo. Trata-se de um país com uma dimensão semelhante à de Portugal, onde o setor farmacêutico enfrenta as mesmas dificuldades que o nosso no que toca à aprovação de novos medicamentos e à construção/constituição de preços, como nós. Contudo, no que respeita aos ensaios clínicos, aí tudo funciona bem… É preciso perceber o que estão a fazer de diferente, o que ajuda a atrair os investidores internacionais, e replicar em Portugal. E quem diz ensaios clínicos, diz muitas outras áreas deste importante setor na vida das pessoas.

Agora, não se deve híper-simplificar a questão restringindo o potencial a um único módulo de toda a rede, como os ensaios clínicos. Estes são um dos muitos módulos nos quais devemos apostar, para criar ligações que permitam perceber toda essa rede e as suas interações, para conseguirmos compreendê-la no seu todo.

Isto para dizer que temos aí um interessante benchmark, um referencial de um país com a mesma dimensão e com a mesma estrutura que o nosso, mas com um desempenho muito superior. Como referi acima, importa encontrar a resposta à questão: o que é que estão a fazer melhor do que nós.

MM | A verdade é que já exportamos mais medicamentos do que vinho do Porto. Mas é algo pouco falado. Não há muita consciência de que o setor tenha peso.

RL | Aí está uma situação que urge mudar. O setor deveria tornar-se mais visível, para mostrar que, apesar dos danos provocados pelo programa de assistência externa da Troika, que afetaram a economia como um todo, ainda assim o setor farmacêutico foi um claro exemplo de resiliência – quando comparado com outros setores de atividade. As exportações estão de novo a aumentar, mas é preciso fazer com que cresçam mais.

MM | Não se sente no terreno que alguma coisa esteja a ser feita nesse sentido…

RL | Tem surgido legislação nova sempre num sentido positivo. Aliás, este Governo criou recentemente uma entidade para gerir ensaios clínicos. Devo, por outro lado, sublinhar que boa parte da nossa legislação formal é igual ao espaço europeu. Ou seja, estamos sujeitos às mesmas condições de regulação que os nossos parceiros europeus.

MM | Existem condições para evoluir no sentido de alterar o paradigma do consumo interno e passar a exportar serviços?

RL | Já exportamos medicamentos, dispositivos médicos, serviços e profissionais. Estamos a investir em formar pessoas e recursos bastante caros. Cursos como Medicina, Farmácia e Biologia, que implicam laboratórios e recursos técnicos e tecnológicos significativos, são, por inerência, mais onerosos do que, por exemplo, cursos como Letras ou Economia – também muito importantes, mas menos dispendiosos. Há um investimento enorme do país, quer público, quer privado e em instituições de investigação nesta área como o I3S ou Centro Champalimaud. Agora, quando olhamos para esta realidade como um todo, verificamos que a rede de pontos existe efetivamente, mas que as ligações entre eles são fracas… muitas vezes planas.

MM | Por isso não conseguimos alcançar os mesmos resultados…

RL | Exatamente. É por isso que defendo que é imprescindível percebermos os porquês que justificam os melhores desempenhos de países como a Bélgica, Espanha ou Áustria. Temos bons exemplos, onde podemos ir buscar o melhor de tudo. E não apenas no que toca a ensaios clínicos. Há muitas mais áreas em que podemos e devemos apostar. Até temos na nossa história exemplos de sucesso em termos de empreendedorismo. Veja-se a Escola de Sagres, no século XV. O Infante D. Henrique tinha recursos para investir e reinvestir, interesse e liderança, e foi buscar o que de melhor havia no mundo e começou a fazer protótipos e a aprender com a experiência. Éramos muito inovadores nessa área. E, enquanto toda a gente andava entretida no Mediterrâneo, nós estávamos já a explorar outras geografias, aquilo que em gestão se designa de “estratégia do Oceano Azul” – por contraponto à “estratégia do Oceano Vermelho”. Isto é, em vez de concorrermos em áreas em que outros estavam à nossa frente, apostámos num ‘nicho’ ainda por explorar… e criando inovação com valor. Se calhar, a pergunta que devemos aqui fazer é: o que nos pode diferenciar em termos de ensaios de clínicos.

MM | Tudo numa perspetiva de benchmarking?

RL | Sim, mas usando o conceito corretamente. Em Portugal, muita gente acha que benchmarking é comparar números. Ora, o benchmarking passa, não por observar os números em si, mas a forma como se atingiram os resultados.

MM | O que mais caberia na “Estratégia de oceano Azul?”

RL | O turismo de Saúde é definitivamente uma dessas áreas. Temos tudo para que dê certo: uma boa infraestrutura e uma oferta robusta, naturalmente indissociável de idiossincrasias próprias e favoráveis do país, do clima à cultura, geografia e segurança. Portugal é hoje procurado por pacientes de todo o mundo, que aqui vêm à procura de realizar intervenções específicas, como cirurgias às cataratas, angioplastias coronárias, artoplastias da anca, colicistectomias, entre muitas outras. Temos que aproveitar esta oportunidade e investir seriamente no setor – mas, uma vez mais, de uma forma integrada e multissectorial. Nem o turismo é apenas Economia, nem as farmacêuticas são apenas Saúde. É preciso abordar os setores estratégicos do país como um todo.

MM | Acredita que o Brexit poderá, de alguma forma, ser potenciador de oportunidades de negócio?

RL | Sem dúvida. Sabia que na Holanda e na Inglaterra não se faz hemodiálise a partir dos 70 anos? Em Portugal não é assim. Esse pequeno exemplo mostra o como não é difícil transformar uma aparente ameaça numa clara oportunidade. É a eterna questão do copo meio-cheio ou meio-vazio. Aliás, não é displicente o número de ingleses que veio viver para Portugal, pelo clima, mas também porque o SNS inglês não lhes permitia fazer a hemodiálise, da mesma forma que também não é displicente existirem pacotes de férias para pacientes e suas famílias. Afinal, como é sabido, um doente hemodialisado e os seus próximos vivem condicionados – para não referir mesmo aprisionados – com a necessidade constante de cuidados.

MM | Em relação aos ensaios clínicos, é uma das áreas de que recorrentemente se fala como uma janela de oportunidade para Portugal, embora nunca mais a vemos colocada na parede. Ainda estamos muito longe em relação à Bélgica, por exemplo.

RL | No que respeita a ensaios clínicos, as empresas querem (e precisam de) rapidez nos processos de aprovação e de implementação. Porém, isso está muito dependente da legislação e da mecânica de aplicação dessa legislação. É verdade que se têm registado progressos, mas há ainda um longo caminho a percorrer neste campo.

MM | Esse é um argumento que tem sido apresentado por todos, mas como é que se consegue chegar aí?

RL | Estas são políticas que requerem prazos médios e longos de implementação, já que exigem um pensamento estratégico e integrado, naturalmente tendo sempre em conta os desenvolvimentos a nível internacional. Ainda que envolva diversos passos (decididos) ao longo do percurso, é algo que não se resolve num ano económico ou mesmo numa legislatura. É verdade que, na prática, é sempre mais difícil. Mas acredito que, com as políticas certas, consistentemente aplicadas, consigamos passar, em dez anos, dos atuais quase mil milhões em exportações para 2 mil milhões de Euros. Naturalmente, não chegamos lá com medidas avulsas e aos solavancos. Há uma necessidade clara de integração e de todo o setor como um agente económico multifacetado e com diversas dimensões que passam pela saúde, pela economia, pelas exportações…

Para concluir, a indústria farmacêutica tem um papel estruturante e criador de valor para o país no seu todo, mas precisa de ser encarada como tal e de forma integrada… pelos seus múltiplos atores e nas várias vertentes, incluindo política. Mas, tal como evidenciam os números, o que falta para sermos vistos em Portugal como já somos internacionalmente? Como tenho questionado em várias instâncias, não deveríamos acarinhar e potenciar um setor que cria valor, reputação e emprego de qualidade em Portugal?

Miguel Mauritti

 

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