Saúde Online | Do programa deste 21º Congresso da Ordem dos Médicos, qual o tema que gostaria de destacar?

Alexandre Valentim Lourenço | Este congresso conta uma história. O que nós queremos destacar neste congresso é a viagem da tecnologia, da ciência, da evolução que vai ocorrer nos próximos 20 anos e que implicação é que isso vai ter nas nossas instituições, nos nossos hospitais e centros de saúde e na formação dos médicos. Porquê? Porque o médico demora 20 anos a formar, os hospitais têm de se organizar e as modificações que se preveem para os próximos 20 anos são muito grandes. Por isso, ou nós programamos o médico agora, com esquemas, competências e formação para daqui a 20 anos, ou quando o médico acabar a formação está desatualizado.

Por isso o que vamos fazer no congresso é antecipar o futuro: avaliar o impacto da inteligência artificial, da nanotecnologia, da avaliação digital da imagem, da análise automatizada, da robótica na cirurgia, dos novos equipamentos. Saber o impacto que isso vai ter no tratamento dos doentes e na forma de trabalhar dos médicos e dos outros profissionais de saúde.

Um dos temas abordados vai ser a medicina personalizada. Para além da área de combate ao cancro, em que outras áreas pode ser aplicada a medicina personalizada?

AVL | Há várias doenças em que a medicina personalizada é essencial. Quase todas as doenças se manifestam de forma diferente em função do perfil genético de cada um, sempre único. A análise genética da uma pessoa, permite antever que venha a desenvolver um determinado tipo de doenças mais facilmente que outras pessoas. Ou seja, conhecendo nós o doente de uma forma individual, podemos perceber primeiro quais são as doenças que ele tem maior risco de ter nos próximos anos. face a uma doença (como a diabetes, o Parkinson ou a Esclerose Múltipla), identificarmos a sua avaliação individual e utilizarmos, quer os seus mecanismos de defesa, quer a sua genética, quer medicamentos desenhados para a própria pessoa para chegar a alvos muito específicos, de modo a otimizar os resultados e diminuir os efeitos secundários de muitos fármacos. O cancro é o mais evidente: as pessoas sabem que o cancro mata e que os medicamentos que atualmente prescrevemos para o tratamento de doença oncológica também matam. Por isso, se conseguimos dar menos medicamentos e menos quimioterapia conseguimos tratar bem o doente com menos efeitos secundários.

Já estamos a fazer um caminho nesse sentido ou ainda está tudo por fazer?

AVL | Temos ao nosso dispor algo que não tínhamos há 20 anos: a análise do genoma humano. Nós já conseguimos  determinar o genoma de uma pessoa. Neste momento, ainda demora tempo (alguns meses) e é muito caro. Mas os avanços  na avaliação do genoma sugerem que, daqui a 5 ou 10 anos, possamos conhecer o genoma em dois ou três dias, a um preço aceitável. E, se eu souber isso, vou perceber se tenho risco de cancro da próstata, se tenho possibilidade de ter diabetes – porque algumas destas doenças têm claramente identificação com algum gene. Neste momento ainda não é fácil transpor para a parte comercial porque ainda não estão estudados todos os mecanismos e são muito caros. Mesmo o tratamento de alguns cancros, por exemplo com recurso a terapias  CART-T (em que se utiliza o sistema imune do doente para combater o tumor que é ainda é muito caro, começa a tornar-se mais acessível e para mais doenças.

Em relação ao futuro das profissões de saúde, que tipo de mudanças podemos esperar nos próximos tempos?

AVL | Nós temos várias profissões na área da saúde com competência diferentes: médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, auxiliares. O que vai acontecer no futuro (daqui a 10, 15 anos) é que algumas das funções que médicos, técnicos ou enfermeiros realizam atualmente passarão a ser feitas por máquinas. Por exemplo, já existe uma máquina que consegue tirar sangue. Já está a ser testada, já funcionou em vários doentes. Através de ecografia, vê onde está a veia, pica a veia e tira sangue.

Já existe em Portugal?

AVL | Ainda não existe em Portugal mas está a ser testada. É apenas a aplicação tecnológica de algo que é muito banal. Se essa máquina for barata e se disseminar por todos os países, é claro que os técnicos de análise, que perdem metade do seu tempo a tirar sangue aos doentes, deixam de o fazer – calanizando os seus esforços para doentes “mais difíceis”. Por exemplo, também no caso do electrocardiograma, as máquinas avaliam esse exame de uma maneira quase tão fiável como um cardiologista. Quando a inteligência artificial e as máquinas forem melhoradas, vão ser iguais ao cardiologista. Por isso, em determinadas áreas, há competências que podem mudar para as máquinas.

Quem está mais exposto? Quem for dependente de atos isolados, ou seja, se um médico ou um enfermeiro só faz uma coisa e essa coisa é automatizada, ele deixa de ter emprego. Portanto, vão desaparecer algumas profissões, vão modificar-se outras e vão aparecer ainda outras. Por exemplo, vai haver, certamente,  pessoas especializadas em análise de DNA, porque o DNA é muito complexo – os analistas de DNA podem ser médicos geneticistas ou outros técnicos.

Os médicos vão, provavelmente, perder menos tempo com o diagnóstico e vão ter que se dedicar a fazer aquilo que eles fazem melhor, que é falar com o doente, avaliar o contexto e ajudar o doente a tomar as decisões adequadas para aquela doença.

A questão é saber como se conjuga a necessidade de uma relação próxima e humana entre médico e doente e a introdução de uma ‘avalanche’ de tecnologia.

AVL | Temos de evitar que a tecnologia seja apenas um conjunto de gadgets. Temos coisas muito engraçadas mas que em algumas situações não melhoram o resultado final no doente. O que nós queremos mesmo é que esta tecnologia e estes equipamentos sejam para resolver problemas repetitivos e simples e também que melhorem a qualidade do tratamento que fazemos.

Portanto, é preciso filtrar a aposta na tecnologia.

AVL | Filtrar a aposta na tecnologia, fazer com que a tecnologia tenha um processo de licenciamento semelhante ao do medicamento para ser implementada. Porque há tecnologia que, se for colocada no mercado, e não for licenciada, pode fazer mais mal do que bem. Imagine uma tecnologia que uma pessoa em casa usa para fazer uma análise, que lhe diz que dentro de dez anos tem uma probabilidade de 5% de desenvolver um cancro. A pessoa pode entrar em pânico e começar a tomar medicamentos que lhe fazem pior.

Estarão os médicos dispostos a partilhar competências?

AVL | Claro. O problema da partilha das competências tem a ver com a integração do sistema. Quando em Portugal falamos de partilha de competência estamos a falar de usurpação de funções. O que significa é que há profissões que querem ser independentes umas das outras – e não é só em relação aos médicos. Estou-me a lembrar dos fisioterapeutas em relação aos enfermeiros de reabilitação. Quando cada um quer ser independente, pode gerar-se um conflito grave que se repercute nos cuidados ao doente. O que queremos dizer é que a partilha e a delegação de competências deve ser feita nas equipas, ou seja, há uma equipa que tem cinco profissionais diferentes e a equipa em si estabelece quem faz o quê. Normalmente isto dá bom resultado.

O que acontece neste momento é que há enfermeiros que querem prescrever medicamentos e fazer diagnósticos de forma independente dos médicos. E isso não é correto porque o conhecimento que os enfermeiros têm das doenças e dos tratamentos é muito inferior ao dos médicos.

Portanto, é uma partilha de competências condicionada à autorização dos médicos?

AVL | Não, partilha não é autorização. A saúde no futuro terá de funcionar por equipas. O doente tem de ir a um centro multidisciplinar onde todos e cada um, nos seus diferentes papeis, prestam os melhores cuidados. O problema na independência é a ausência completa de coordenação.

O nosso país normalmente não planifica e não se prepara com tempo. No congresso vamos ter suecos, holandeses e finlandeses a dizerem o que fizeram para chegarem aqui, uma vez que estão melhores do que nós (estão melhor organizados e têm melhores cuidados). No caso da Holanda, eles vão mostrar como pensam que a Saúde vai estar daqui a 20 anos e quais os passos intermédios que têm de dar para modificar os hospitais de modo a chegarem lá. Se for a uma urgência na Holanda, tem cinco pessoas a serem atendidas durante dez ou doze horas; se for em Portugal tem 500.

Têm mais recursos humanos.

AVL | Não, as pessoas que estão na urgência são menos porque os doentes são tratados antes de chegarem à urgência. Nós, como temos um sistema que não planifica e está mal organizado, os doentes acabam na rebaldaria das urgências, numa confusão de centenas de pessoas a afluir a um sitio que não as pode tratar convenientemente. Na Suécia, na Holanda, isso não existe. Os doentes têm menos doenças porque foram tratados noutros níveis antes de chegarem à urgência. Em Portugal, só chegam à urgência porque os outros níveis estão a falhar.

Temos, então, de fazer uma aposta nos cuidados de saúde primários?

AVL | Não é só nos primários. Se as consultas hospitalares não esperarem três anos, eu não preciso de mandar um doente ser visto por um dermatologista à urgência. Mando-o à consulta no próprio dia ou no dia seguinte. Agora, como ele tem de esperar três anos, onde é que ele vai? Vai à urgência e está lá 3 ou 4 horas e o dermatologista não tem meios para o tratar. E já não o vê da segunda vez porque, no dia seguinte, quando for à urgência, já é outro médico que lá está. Portanto, não são cuidados de saúde primários: são os cuidados agudos sem serem urgência. Se tiver uma dor no peito (suspeita de enfarte) deve ir à urgência mas, se tiver uma dor num ombro há uma semana, deve ir a um ortopedista para ele fazer um raio-x no espaço de um ou dois dias. Os países nórdicos já resolveram este problema há muito tempo, fizerem uma reforma hospitalar há 5 ou 6 anos e as urgências deles, que eram iguais às nossas, diminuíram para um terço. É tudo uma questão de organização.

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