Nascida em 1925, Maria Odette Santos-Ferreira foi pioneira na investigação sobre a infeção VIH/Sida em Portugal, fazendo parte da equipa que identificou pela primeira vez o VIH do tipo 2 em doentes oriundos da Guiné-Bissau.

No princípio dos anos 80 caracterizou os primeiros casos de infeção por VIH em doentes originários da Guiné-Bissau com um quadro clínico de imunodeficiência, tendo identificado um grupo de amostras com um comportamento anormal face ao método de diagnóstico usado e que constituiu o ponto de partida para a descoberta do VIH do tipo 2.

Prossegue as investigações durante essa década, nomeadamente no Instituto Pasteur de Paris, autoridade de renome mundial na matéria, que acabaram por conduzir à descoberta do VIH do tipo 2. A descoberta deste segundo tipo de Vírus da SIDA teve um impacto enorme na história natural, na epidemiologia e no diagnóstico da infeção VIH, tendo estes resultados sido publicados em revistas científicas de elevado prestígio internacional, refere a DGS.

Odette Santos-Ferreira foi coordenadora da Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA, cargo que exerceu de 1992 a 2000, por nomeação do ministro da Saúde, tendo desenvolvido inúmeros projetos com impacto significativo na prevenção e disseminação da doença.

O projeto da sua autoria de maior impacto nacional e internacional foi a troca de seringa nas farmácias, denominado “Diz não a uma seringa em segunda mão”, que teve como finalidade diminuir o risco de transmissão do VIH e de outras doenças transmissíveis (hepatitie B e C) à população toxicodependente por via endovenosa.

Este projeto foi considerado pela Comissão Europeia o melhor projeto apresentado por um país europeu, não só pela inovação, mas por ter sido possível desenvolvê-lo em todo o território nacional. A investigadora promoveu ainda vários serviços de apoio domiciliário, a criação das comissões distritais de luta contra a SIDA e a reabertura da linha SIDA.

Em 2013 recebeu o Prémio Nacional de Saúde do Ministério da Saúde, o qual visa distinguir anualmente uma personalidade que tenha contribuído para a obtenção de ganhos em saúde no âmbito do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Em fevereiro deste ano, Odette-Ferreira foi condecorada pelo Presidente da República numa cerimónia reservada, tendo recebido a grã-cruz da Ordem da Instrução Pública.

“O Presidente da República apresenta as mais sentidas condolências à família e amigos e presta pública homenagem à Professora Odette Santos-Ferreira, enaltecendo um percurso notável e que foi pioneiro na investigação e na academia”, pode ler-se numa nota na página oficial da Presidência da República.

A professora, destacou Marcelo Rebelo de Sousa, “teve um o papel fundamental na investigação sobre a sida em Portugal e no estrangeiro”. “Esse trabalho, que a levou à identificação do HIV de tipo 2, foi, porventura, o marco mais conhecido dum percurso longo, persistente e notável de serviço à ciência e à comunidade”, elogiou.

É precisamente esse percurso que, “em nome do país e dos portugueses, o Presidente da República lembra, considerando que “fica como referência para a Ciência e a Saúde em Portugal”.

Manuel Heitor referiu o “valioso e excecional contributo para o desenvolvimento da ciência em Portugal” dado por Odette Ferreira, num comunicado do Ministério da Ciência, Ensino Superior e Tecnologia. O ministro da Ciência distinguiu a investigadora, durante o Ciência 2016, com a medalha de mérito atribuída pela área governativa da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, refere ainda o mesmo comunicado.

O antigo secretário de Estado da Saúde José Martins Nunes também recordou Odette Ferreira: “Faleceu uma das mais notáveis investigadoras portuguesas e uma das personalidades mais marcantes da ciência e da vida académica. Tive a honra de me cruzar com ela várias vezes e recordo, enquanto secretário de Estado da Saúde do XII Governo Constitucional o seu entusiasmo na conceção e direção do programa de ‘troca de seringas’, que teve um impacto notável no controlo das infeções por HIV”, disse hoje à agência Lusa José Martins Nunes.

De acordo com o também antigo presidente do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, este programa “foi, à época, visto como uma medida muito corajosa, indo de encontro aos valores universais da responsabilidade do Estado perante todos os cidadãos”.

As cerimónias fúnebres de Odette Ferreira decorrem esta segunda-feira, a partir das 19:00, na Igreja do Campo Grande, em Lisboa, e na terça-feira, pelas 15:00, será celebrada missa, com o funeral a seguir para o Cemitério do Alto de São João.

LUSA/SO

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