O balanço é deficitário: o número de novos médicos de família que se candidataram para os centros de saúde no concurso mais recente não chega para cobrir as saídas dos médicos que atingem a idade da reforma e que se podem aposentar durante este ano, revela o Diário de Notícias. Segundo os dados divulgados pelo Ministério da Saúde, 351 médicos recém-formados concorreram às 378 vagas abertas este ano pelo governo na área de Medicina Geral e Familiar (MGF). No entanto, as projeções de aposentações para este ano, a cargo da coordenação para a reforma neste setor, apontam para 410 saídas dos cuidados de saúde primários.

Este desequilíbrio entre entradas e saúde de clínicos, que pode vir a não ser muito sentido este ano (uma vez que os cerca de 350 jovens médicos devem entrar nos centros de saúde já em setembro) vai agravar-se em 2019, ano em que está previsto um pico de 509 reformas de médicos de família com 66 ou mais anos, ou seja, 10% do total do contingente de clínicos de MGF.

 

Cobertura da região Norte comprometida

 

Essa perda líquida de clínicos pode vir a causar problemas em zonas do país que, neste momento, apresentam um cobertura total de médicos de família, como é o caso da região Norte. Esta região é a que deve perder mais médicos para a reforma até ao final de 2019 (número que pode chegar aos 380) e, de uma situação de cobertura quase total, poderemos passar a ter “dificuldades em zonas onde não existem agora, como no interior, onde é difícil colocar novos médicos”, alerta Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, em declarações ao DN.

O número de portugueses ainda sem médico de família atribuído ascende aos 840 mil, sendo que a grande maioria reside na região de Lisboa e Vale do Tejo, aquela que sempre sentiu mais dificuldades em conseguir responder ao aumento da população. Dados atualizados, referentes ao mês de agosto, indicam que há mais de 600 mil pessoas a descoberto na região de Lisboa, sendo que há mais de 20 centros de saúde onde o número de utentes com médico é inferior àqueles que não têm clínico atribuido. Amadora, Alameda ou Algueirão são alguns dos casos mais graves, com 20 mil pessoas fora das listas em cada um destes centros de saúde.

A confirmar-se este cenário, pode ficar seriamente comprometida a promessa do governo de chegar ao final da legislatura, em Outubro de 2019, com todos os portugueses cobertos por um médico de família. No entanto, é preciso ressalvar que os médicos podem exercer até aos 70 anos no SNS, pelo que não é certo que todos aqueles que atinjam a idade mínima da reforma apresentem o pedido de aposentação.

Rui Nogueira contesta também o atraso na criação de mais Unidades de Saúde Familiares, um formato de centro de saúde que tem mais autonomia operacional e apresenta, em regra, uma melhor cobertura da população e melhores condições para médicos e utentes. “A maior preocupação, mais do que questões aritméticas, até é mesmo com as novas unidades que estão por criar. Devíamos chegar a mais de 800 e ainda não estamos nas 600, parámos a obra a meio. Mais do que médicos de família, os utentes deviam ter acesso a boas unidades de saúde e os médicos deviam ter condições para trabalhar”, defende.

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