Estudar Faz Mal aos Olhos?…

Luís Gouveia Andrade

Luís Gouveia Andrade

Médico Oftalmologista

Grupo Lusíadas Saúde
Director Geral da InfoCiência

Temos como regra geral que a miopia é a uma perturbação visual de base essencialmente genética, para a qual podem contribuir mais de 40 genes distintos.
Embora sempre se admitisse um potencial papel do meio ambiente, da leitura, dos computadores, etc., essa impressão nunca tinha sido validada de um modo robusto e, como tal, era mais usada por nós e pelos pais como argumento para dissuadir as crianças de passarem tanto tempo a jogar nas consolas e nos computadores, mais do que como um facto científico incontestado.
Um estudo publicado em Junho no British Medical Journal* traz novos elementos sobre este importante tema e sugere que, afinal, a pressão do meio ambiente pode ser mais importante do que suponhamos.
Neste trabalho, os autores procuraram determinar se o número de anos de estudo é um factor de risco para a miopia ou se, inversamente, a miopia é um factor de risco para um maior número de anos de estudo.
Foram avaliados dados genéticos de cerca de 68.000 indivíduos de ambos os géneros, juntamente com elementos relativos à sua miopia e número de anos completos de estudo. A informação genética recolhida dizia respeito tanto à predisposição para a miopia como incorporou dados indicativos do potencial de sucesso educativo (Social Science Genetic Association Consortium; SSGAC). Esta segunda avaliação integra 69 variantes genéticas que parecem influenciar a possibilidade de se atingirem níveis mais elevados de escolaridade.
Os resultados deste estudo sugerem que cada ano adicional de educação se associa a 0,18 dioptrias adicionais de miopia. Aplicando um modelo de análise diferente, que incorpora a genética mendeliana, esse efeito é ainda mais evidente: cerca de 0,27 dioptrias por cada ano de estudo.
Inversamente, não se demonstrou que a miopia afectasse o ritmo da educação.
Estes dados são importantes por várias razões.
Por um lado, reforçam a importância do meio ambiente no desenvolvimento e progressão da miopia, dando assim força aos argumentos empiricamente utilizados para “afastar” as crianças das horas excessivas passadas em frente a dispositivos electrónicos.
Por outro lado, estes dados significam que um licenciado com 16 anos de estudo terá, em média, uma dioptria a mais de miopia do que um indivíduo que tenha deixado de estudar aos 18 anos (12 anos de escolaridade). Esse tipo de variação na miopia é suficiente para, por exemplo, exigir o uso de óculos na condução automóvel.
Em termos práticos, não devemos usar este tipo de informação para “diabolizar” o estudo ou a leitura e é importante que tal não aconteça. Já no que diz respeito às horas literalmente perdidas nas redes sociais ou em jogos virtuais, vale a pena reflectir e perceber que, para lá de todos os impactos negativos que essas práticas têm na auto-estima, no isolamento social, na postura e no cansaço, entre outros, existe agora uma evidência mais consistente do potencial prejuízo deste esforço visual para a saúde dos nossos olhos, sobretudo no que se refere à progressão da miopia.
Estudos anteriores referiam que as crianças que vivem nos países desenvolvidos do Leste e Sudeste Asiáticos passam menos tempo ao ar livre do que crianças que vivem na Austrália ou nos Estados Unidos e outros estudos indicam que o tempo passado ao ar livre pelas crianças é um elemento protector contra o desenvolvimento da miopia.
E, de facto, na Ásia do Leste a prevalência da miopia tem vindo a aumentar nas duas últimas décadas, afectando 80 a 90% de todos os que terminam a escolaridade.
Podemos, portanto, assumir que a ausência de tempo no exterior é um mediador plausível desta relação agora descrita entre educação e miopia.
Sendo a progressão da miopia mais rápida nos meses de Inverno, pode-se admitir a importância da exposição à luz solar neste processo e algumas escolas na Ásia estão a investir na criação de salas de aula com luz natural para contrariar esse efeito.
Como tal, temos aqui matéria para inúmeras reflexões:
1. A miopia, apesar da sua indiscutível base genética, é influenciada por variáveis ambientais, como o uso excessivo dos olhos em actividades de visão ao perto e o tempo passado em recintos fechados;
2. A luz solar parece ter um factor protector no que se refere à progressão da miopia;
3. Aos argumentos já tão repetidos em defesa do tempo passado ao ar livre, da importância do convívio e de um relacionamento mais próximo entre as pessoas, junta-se agora um elemento de cariz científico, mostrando que o tempo passado a fixar um monitor pode ser realmente prejudicial;
4. Não podemos nem devemos deixar de estudar e ler. Estas são duas actividades cruciais para qualquer sociedade que deseje evoluir, mas mesmo nelas se deve procurar um equilíbrio, com a implementação de pausas que permitam aos nossos olhos descansar e fixar-se em pontos mais distantes;
5. O recurso a ambientes com luz natural seria importante não apenas para o bem-estar geral mas também, com base nestes elementos, para retardar a progressão da miopia.
Ficam aqui alguns tópicos que emanam deste trabalho e que nos permitem encarar estas realidades de um modo diferente. Fica também bem patente a permanente (r)evolução dos conceitos científicos e a constante dinâmica da Medicina.
Fica, finalmente, reforçada a enorme interacção entre a genética e o meio ambiente (gosto muita da expressão inglesa “nature versus nurture”) na moldagem do que somos e do que podemos ser. E fica ampliada a nossa responsabilidade na definição dos melhores caminhos para a nossa saúde.
Que a genética não desculpa tudo, já o sabíamos. Agora ainda o sabemos um pouco mais…

* Education and myopia: assessing the direction of causality by mendelian randomisation. Edward Mountjoy e col., BMJ 2018; Jun 6, 361: k2022

Texto escrito na grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990 por decisão do autor