A comparação faz sentido para se perceber a dimensão do problema: se a incontinência urinária fosse um país, seria o 3º mais populoso do mundo, só ultrapassado pela China e pela Índia e à frente de colossos como os EUA ou o Brasil. São mais de 400 milhões de pessoas, homens e mulheres, praticamente de todas as idades. Para afastar o estigma e para alertar o poder político de que é necessário dar mais atenção a esta patologia – atribuindo mais recursos, por exemplo -, especialistas, doentes e decisores políticos reúnem-se de dois em dois anos para falar sobre incontinência. Sem tabus. O último encontro, o Global Forum of Incontinence, decorreu no mês passado, em Roma, e o Saúde Online esteve lá.

“O envelhecimento da população é uma vitória”, começou por dizer o presidente do Congresso, Adrian Wagg, para, logo a seguir, explicar que esse progresso, isto é, o aumento da esperança média de vida, vem com uma fatura associada. “Muitas destas pessoas mais idosas têm mais do que uma doença. As comorbilidades aumentam com o avançar da idade”, disse Wagg. Com a lista de doenças a aumentar (hipertensão, diabetes, colesterol elevado), acumulam-se também os medicamentos. A polimedicação é um dos fatores que podem potenciar o aparecimento da incontinência urinária, explicou Wagg, que é também professor de Envelhecimento Saudável na Universidade de Alberta, no Canadá.

Apesar dos avanços clínicos para aumentar o número de opções de tratamento disponíveis, atualmente, apenas uma minoria dos doentes com incontinência consegue uma cura ou solução adequada à sua situação. Os medicamentos existentes para esta doença apenas mitigam os seus efeitos – conseguem reduzir as contrações da bexiga ou melhorar a ação do esfíncter da uretra, diminuindo os episódios de perda involuntária da urina, mas não resolvem o problema. Aliás, o presidente da Sociedade Sueca de Urologia, Ralph Peeker, disse ao Saúde Online que não acredita “que possamos avançar muito mais a nível farmacológico para resolver o problema”.

Um estilo de vida saudável tem estado sempre na linha da frente no que respeita à prevenção da doença. “O desafio é fazer as pessoas ouvirem os nossos conselhos”, afirmou Adrian Wagg. “Se quisermos reduzir a prevalência e a incidência tem de ser pela via da cessação tabágica, melhor alimentação, muito mais exercício físico. Temos de mudar as mentalidades. É muito difícil mas é possível”, acredita o médico Ralph Peeker.

 

 

Se, por um lado, a sensibilização para a adoção de hábitos de vida saudáveis é essencial, por outro, “temos de olhar para o tratamento”, como lembrou Wagg. O médico sueco Ralph Peeker acredita que o caminho, ainda longo, é a evolução da medicina regenerativa, que permita intervir diretamente na origem do problema: “Eu acredito que a engenharia de tecidos (medicina regenerativa) pode talvez possa ser uma opção neste caso. Tem havido alguns esforços promissores nesta área para obrigar o esfíncter a funcionar. Todos os grandes investigadores da área dizem acreditar que vai demorar mais 5 anos, mas já o diziam há 20 anos atrás”.

Ainda o estigma

Estima-se que a incontinência urinária afete cerca de 6% da população mundial. Em Portugal, são 600 mil as pessoas a viverem com a doença. Em Itália, mais de 5 milhões. No entanto, nem todas têm um acompanhamento médico especializado. Muitas têm vergonha de admitir que são incontinentes. O estigma perdura e, por isso, o Global Forum of Incontinence, deu espaço aos testemunhos de alguns doentes. O mais emotivo foi o do apresentador de televisão canadiano Derick Fage, que nasceu com a doença e é o embaixador da Fundação Canadiana de Incontinência. Num discurso longo e pontuado com lágrimas, Fage falou dos momentos difíceis pelos quais passou na infância mas deixou uma mensagem de esperança e alento a todos aqueles que vivem com a doença, incentivando os doentes a partilharem as suas histórias nas comunidades onde vivem.

“Esses estereótipos, esses estigmas, têm de desaparecer. E isto só se consegue com muitas campanhas de sensibilização”, garante a presidente de Associação Portuguesa de Psicogerontologia. Maria João Quintela, que também esteve presente no encontro, diz que a sociedade tem de saber construir “um ambiente mais friendly” para estas pessoas. As casas de banho públicas são essenciais para responder às necessidades das pessoas que sofrem de incontinência, mas a verdade é que ainda são raros os espaços públicos que têm este serviço.

Ainda há muito a fazer para colocar o problema na agenda política. Durante o encontro, foi unanime a ideia de que é necessário influenciar os decisores políticos, de modo a aumentar o número de recursos alocados ao combate à incontinência. Mas para isso é preciso afastar o estigma. “Temos de ter a atenção dos políticos. Essa é a questão. Mas porque é que os incontinentes não falam?”, questionava Kawaldip Sehmi, CEO da Aliança Internacional das Associações de Doentes.

Saúde Online