As Mucopolissacaridoses (MPS) correspondem a um grupo de doenças do lisossoma (um componente do citoplasma celular) em que um defeito genético leva a deficiência de uma determinada enzima (substância essencial para determinada reacção bioquímica) no nosso organismo.

Nos doentes com MPS, os lisossomas não conseguem  transformar de  forma adequada um grupo de grandes moléculas denominadas mucopolissácaridos (MPS) ou glicosaminoglicanos (GAGs), existentes sobretudo no tecido conjuntivo.

As GAGs acumulam-se nos lisossomas das células dos diferentes órgãos (pele, olhos, ouvidos, aparelho respiratório, coração, fígado e baço, osso e, por vezes também no sistema nervoso central) causando um aumento do seu volume e alterações da sua função. A acumulação das MPS nas células leva a que as MPS sejam consideradas doenças de sobrecarga lisossomal.

Quais os tipos de mucopolissacaridose?

Há vários tipos de Mucopolissacaridoses, consoante a enzima deficiente no organismo do doente. A sua designação numérica relaciona-se com a ordem da sua descoberta e o nome com o médico que descreveu esse tipo pela primeira vez.

Assim, classificam-se como:

Mucopolissacaridose Tipo I – Doença de Hurler, de Scheie ou Hurler/Scheie

Mucopolissacaridose Tipo II – Síndrome de Hunter

Mucopolissacaridose Tipo III – Síndrome de Sanfilippo

Mucopolissacaridose Tipo IV – Síndrome de Morquio

Mucopolissacaridose Tipo VI – Síndrome de Maroteux-Lamy

Mucopolissacaridose Tipo VII – Síndrome de Sly

Mucoplissacaridose Tipo IX – Sindrome de Natowicz

De referir que no tipo III, forma que afecta sobretudo o cérebro, há quatro subtipos conhecidos por A, B, C e D causados por quatro enzimas diferentes.

Porque surgem as Mucopolissacaridoses?

As MPS são doenças muito raras e complexas que têm origem genética e hereditária. Como a maioria das doenças metabólicas, têm herança de carácter autossómico recessivo, ou seja, os pais são saudáveis, mas portadores de um gene que determina a doença e um gene normal. A MPS só se  manifesta  quando ambos os pais transmitem o gene causal, o que  estatisticamente pode ocorrer em 25% das gravidezes do casal.

A única excepção é a MPS tipo II (Síndrome de Hunter), com herança ligada ao cromossoma X. Neste caso, só a mãe é portadora transmitindo o gene a 50% das filhas (que serão portadoras como a mãe, mas não doentes) e a doença a 50% dos filhos do sexo masculino.

Quais os sinais e Sintomas?

As MPS são doenças multisistémicas, ou seja, afectam vários órgãos. Por outro lado são doenças crónicas (por toda a vida) e progressivas ,ou seja, a sintomatologia vai-se agravando à medida que a criança vai crescendo.

As manifestações mais frequentes são:

  • feições muito típicas e baixa estatura
  • hidrocefalia (cabeça grande por alterações do líquor), alterações cognitivas ou do comportamento
  • problemas oculares como opacificação da córnea
  • otites frequentes, surdez, problemas respiratórios
  • doença das válvulas do coração
  • aumento do volume abdominal por hepatoesplenomegália (ou seja fígado e baço grandes), hérnias
  • deformidades ósseas e dificuldades na mobilidade das articulações

Como se faz o diagnóstico das MPS?

As MPS são detetadas através da observação das diversas manifestações clinicas. Uma análise especifica da urina revela uma maior quantidade de GAGs e o seu tipo.

O diagnóstico é confirmado pela determinação da enzima deficiente no sangue ou outros tecidos e pelo estudo do gene, exames esses realizados em laboratórios de referência.

Neste momento existe um projecto designado por projecto FIND em que é possível fazer a determinação da enzima para as várias MPS de forma gratuita. Este exame resulta de uma parceria entre a secção das doenças hereditárias do metabolismo da Sociedade Portuguesa de Pediatria e o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) no Porto. Perante uma suspeita de MPS, o médico pode contactar o INSA pelo mail projecto.find@gmail.com solicitando um kit para o diagnóstico. A colheita da amostra é relativamente fácil dado que é colhido sangue em papel de filtro próprio e a mostra é enviada por correio, à semelhança do que sucede com o diagnóstico precoce.

Qual o Tratamento das MPS?

A terapêutica das MPS inclui o controle das várias manifestações podendo incluir o tratamento das infecções, remoção das adenóides e amígdalas, próteses auditivas, correcção cirúrgica das hérnias, fisioterapia para melhoria da mobilidade articular e apoio a nível escolar/ trabalho, etc.

Na MPS do tipo I (doença de Hurler) é recomendado a realização de um transplante medular o mais precocemente possível, antes dos 2-3 anos de idade

Mais recentemente, já existe, para alguns tipos de MPS, uma Terapia de Reposição Enzimática (TRE) em que, por meio de infusão intravenosa é feita semanalmente a administração da enzima deficiente. De salientar que quanto mais precoce o diagnóstico e o inicio da terapia enzimática melhor será o prognóstico do doente.

ler mais