São bem conhecidos os impactos que a diabetes pode provocar na saúde. A doença é hoje a principal causa de cegueira e de insuficiência renal no nosso país. Os diabéticos têm duas vezes mais probabilidades do que o resto da população de desenvolverem uma doença cardiovascular e quatro vezes mais hipóteses de sofrerem um AVC. Mas talvez a consequência mais comum de entre todas seja a Neuropatia Diabética, uma patologia que afeta metade dos diabéticos em Portugal – ou seja, cerca de meio milhão de pessoas – e que muitas vezes acaba na amputação.

É para evitar este desfecho – e também para melhorar a qualidade de vida dos doentes, diminuindo a dormência e a dor em algumas partes do corpo, por exemplo – que a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP) vai promover até novembro deste ano uma formação, que tem o apoio da empresa farmacêutica Merck, em várias cidades, destinada aos médicos de Medicina Geral e Familiar, que visa sensibilizar estes clínicos para a importância da prevenção da Neuropatia.

O SaúdeOnline esteve no primeiro dia desta formação, que decorreu no fim do mês de março num hotel de Lisboa, e falou com a médica diabetologista Ana Luísa Costa, que dirige a formação. Se, na opinião desta médica com muitos anos de profissão, o desconhecimento dos doentes em relação a esta patologia se afigura como normal, mais preocupante é a falta de conhecimento dos clínicos. “O que me preocupa mais é o desconhecimento dos profissionais de saúde. Acho que o panorama está a mudar, há cada vez mais pessoas interessadas nesta área, por estar muito ligado ao pé diabético e por ter uma manifestação muito subclínica, muito assintomática”, refere.

Dra. Ana Luísa Costa, diabetologista: “O que me preocupa mais é o desconhecimento dos profissionais de saúde [em relação à neuropatia]”

O problema do pé diabético, que se estima afetar cerca de 50% das pessoas com Neuropatia Diabética, manifesta-se frequentemente na forma de úlcera. A úlcera pode ser identificada facilmente através da observação dos pés do doente. Cabe ao enfermeiro avaliar o risco de aparecimento deste problema mas “o aumento desse risco faz com que a pessoa seja avaliada de outra forma, e aí é importante que haja um médico”, esclarece Ana Luísa Costa.

Depois de confirmada a suspeita de que o utente poderá ter alguma forma de Neuropatia, o passo seguinte é fazer a anamnese, isto é, uma pequena entrevista ao doente em que o médico tenta perceber o historial de complicações do doente, a sua profissão, os estilos de vida (com especial incidência no consumo de álcool e tabaco), os cuidados com os pés, entre outros fatores.

Apesar da aposta que começa a ser feita na prevenção, a úlcera de pé é ainda responsável por 80% das amputações relacionadas com a Neuropatia. É precisamente com o objetivo de proporcionar aos médicos de família a capacidade de olhar de uma forma mais atenta para as complicações da Neuropatia Diabética que a APDP promove esta formação. Isto porque, tal como noutras doenças, o diagnóstico precoce é crucial.

Esta patologia tem muitas vezes uma componente assintomática – na ausência de qualquer dor, os diabéticos reportam sensações de ardor, formigueiro, dormência, extrema sensibilidade, suor, ou até tonturas ou fraqueza muscular. Contudo, a dor manifesta-se em cerca de 30% dos casos, sendo que na maior parte destes esta tem uma intensidade severa e um caráter crónico, como explica a diabetologista Ana Luísa Costa.

A Neuropatia Diabética não é aleatória e, por isso, pode-se prevenir. Tudo depende da forma como as pessoas controlam a Diabetes. “Se houver um controlo dos fatores de risco cardiovasculares e um controlo glicémico dentro de valores aceitáveis, podemos prevenir”, garante Ana Luísa Costa. A médica, que dá consultas na APDP, afirma que hoje em dia as pessoas controlam melhor a Diabetes, devido, sobretudo, a uma intervenção precoce mais ativa por parte dos médicos. “Havia aqui um problema, que era: tentava-se uma maior agressividade em relação ao controlo da diabetes só quando havia manifestação das complicações. E hoje em dia os médicos já estão focados para serem mais agressivos no inicio. Portanto, é importante essa agressividade ser logo na altura do diagnóstico, e não na fase final da doença”.

Os estilos de vida, esses, continuam praticamente inalterados, lamenta Ana Luísa Costa. “Aquilo que diz respeito à mudança dos hábitos de vida, como a questão alimentar, o controlo do sedentarismo e da obesidade, continua a ser uma grande dificuldade. São coisas que estão muito enraizadas e dificilmente conseguimos a mudança do comportamento”. A mesma perceção tem o médico Bernardino Guedes, presente na formação, apesar de já somar mais de 30 anos de carreira. “O doente é desatento e não tem cuidado com observação dos pés, com o calçado que usa, com o tipo de alimentação e o tipo de higiene que faz, com os traumatismos”, refere. O calçado desadequado é uma preocupação constante, uma vez que pode levar ao aparecimento de feridas. Por isso, a APDP recomenda aos diabéticos que observem, lavem e hidratem os pés com frequência, bem como tratem das feridas e usem sempre meias e sapatos.

A Neuropatia Periférica divide-se em pelo menos três tipos: a sensitiva, cuja principal consequência é a diminuição da sensibilidade ao toque, à dor e à temperatura; a motora, que se caracteriza pela atrofia dos músculos interósseos e que leva às tradicionais deformações dos pés – dedos em garra e aumento do arco do pé; e a Neuropatia autonómica, que em resultado de um processo inflamatório que causa destruição e deformação óssea e articular, conduz ao aparecimento de uma rara complicação conhecida por Pé de Charcot.

Estiveram presentes 44 médicos no primeiro dia da formação, que se vai estender a todo o país até novembro.

O tratamento passa pela medicação nos casos dos doentes com Neuropatia Diabética Dolorosa mas na maioria dos casos o controlo dos níveis de glicemia e o cuidados com o corpo e com a alimentação são suficientes para que a doença não progrida.

Na formação, foi também abordada o tema da importância da vitamina B nos diabéticos. Num estudo observacional, cuja população de estudo era composta por doentes com Neuropatia Diabética Periférica, verificou-se que cerca de 87% dos indivíduos a quem foi administrada uma associação de vitaminas B1, B6 e B12 tiveram alívio dos sintomas da doença. “A vitamina B1 protege as células contra os efeitos de níveis de glicose anormalmente elevados, possui uma importante função no metabolismo energético intracelular, fornecendo energia às células nervosas e facilitando a propagação dos impulsos nervosos. A Vitamina B6 encontra-se envolvida na síntese de neurotransmissores que são importantes para a transmissão dos impulsos nervosos. A Vitamina B12 é importante para o metabolismo nervoso e encontra-se envolvida na formação das bainhas de mielina”, explica Ana Luísa Costa.

Próximas datas da formação

11 de Maio – Viseu

24 de Maio – Setúbal

11 de Outubro – Penafiel

16 de Outubro – Vila Batalha

07 de Novembro – Lisboa

14 de Novembro – Aveiro

SaúdeOnline

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