Uma investigadora Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) desenvolveu um estudo com crianças e adolescentes para verificar a relação entre uma dieta sem glúten e o desenvolvimento da diabetes mellitus tipo 1.

“O papel da microbiota intestinal tem sido cada vez mais referenciado, principalmente no que concerne às doenças autoimunes, como a diabetes mellitus tipo 1 e a doença celíaca. Sabe-se que o fator genético não é suficiente para desencadear estas patologias e que os fatores ambientais têm um papel fulcral, e é aqui que entra o glúten”, indicou à Lusa a investigadora Shámila Ismael, da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP).

Segundo explicou, a diabetes mellitus tipo 1 e a doença celíaca podem ocorrer simultaneamente pois envolvem o mesmo fator genético e apresentam um fator ambiental comum – o glúten – que, exposto à microbiota intestinal, desencadeia um processo inflamatório. Desse processo inflamatório, resulta uma resposta autoimune e, consequentemente, o desenvolvimento das patologias em questão, em indivíduos predispostos geneticamente. O processo inflamatório crónico, por sua vez, origina “um pior controlo glicémico e do perfil lipídico”, e, ainda, “um maior risco no desenvolvimento de comorbilidades associadas a ambas patologias”, referiu.

No caso da diabetes do tipo 1, continuou a investigadora, este processo inflamatório resulta num perfil lipídico alterado, levando a um aumento do risco cardiovascular, que é a principal causa de mortalidade nestes doentes. Com a instalação destas doenças no organismo, é necessário “melhorar o prognóstico e reduzir o processo inflamatório”, de forma a manter a integridade intestinal.

Nesse sentido, Shámila Ismael realizou um estudo com crianças e adolescentes diagnosticados simultaneamente com diabetes tipo 1 ou com doença celíaca, no Serviço de Pediatria do Centro Hospitalar São João, para avaliar a relação patológica entre as doenças e o efeito da exclusão do glúten no perfil metabólico dos participantes.

Os dados bioquímicos dos envolvidos foram recolhidos e avaliados em três momentos: após serem diagnosticados com estas patologias, antes do início da dieta sem glúten e após o início da mesma. De acordo com a investigadora, os resultados do estudo, que contou com a participação da nutricionista Carla Vasconcelos, do Centro Hospitalar São João, sugerem que a presença do glúten na dieta está associada não só ao controlo da doença celíaca mas também a um melhor controlo metabólico da diabetes mellitus tipo 1.

Verificou-se igualmente “a importância do diagnóstico precoce para um melhor prognóstico e uma melhoria significativa no perfil glicémico”, indicou. Os resultados permitiram verificar igualmente uma associação entre valores mais altos de triglicerídeos com o pior controlo das patologias, o que demonstra a necessidade de reformulação dos produtos processados sem glúten e da desmistificação da dieta sem glúten. A investigadora considera importante substituir o açúcar dos produtos sem glúten por ingredientes naturais que lhes confiram o sabor, como tâmaras, frutas frescas e desidratadas, especiarias e ervas aromáticas (canela e erva-doce, por exemplo).

“Porém, mais importante que isto, é fundamental transmitir a noção que na dieta isenta em glúten, quase todos os alimentos que fazem parte do padrão alimentar saudável não apresentam restrições e por isso, convém que a alimentação destes doentes baseie-se no lema “descascar mais e desembalar menos”, ou seja, utilizar mais produtos naturais e menos processados”, acrescentou.

LUSA/SO