“As crianças cada vez não sabem de onde vem o alimento até chegar ao prato. Não há noção do impacto ambiental [consumo de água na produção ou de combustível no transporte, etc.] que o alimento tem no dia-a-dia. E essa mensagem pode ser passada facilmente às crianças e com isso conseguimos modelar os comportamentos dos futuros adultos que teremos”, apontou Helena Real à agência Lusa.

Esta ideia integra o conjunto de recomendações que a APN – que sucede à Associação Portuguesa dos Nutricionistas e que foi apresentada em julho no Porto, passando a deter uma função técnico-científica – apresentou, na fase de consulta pública, ao Governo no âmbito da Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável, um documento interministerial que apresenta metas para o período 2017/2020.

Helena Real referiu que a APN ficou “agradada” com o lançamento desta estratégia, até porque “não havia histórico na área da alimentação e nutrição”, mas para que “a estratégia seja consolidada, bem pensada e existam resultados”, esta associação recomenda o “reforço das mensagens associadas à sustentabilidade alimentar”.

“Há aspetos elencados de forma transversal mas devem ser reforçados. Uma alimentação sustentável é uma alimentação saudável e uma alimentação saudável poderá não ser uma alimentação sustentável. A nossa proposta é inserir no eixo de desenvolvimento da literacia e de autonomia da população, a mensagem da sustentabilidade alimentar”, referiu a secretária geral da APN.

A associação defende uma intervenção precoce junto da sociedade, ou seja através das crianças, sugerindo a criação de uma disciplina extracurricular no 1.º ciclo de ensino (com enfoque no 3.º e 4.º anos de escolaridade), podendo juntar várias áreas como a saúde, o ambiente, a economia e a agricultura e interligar várias disciplinas como as ciências, a matemática e a geografia.

Como exemplo da pertinência de uma intervenção precoce, a APN lembra que o tema da reciclagem também foi tratado junto deste grupo etário, e sugere que a história do alimento seja contada aos mais novos, somando-se a promoção de visitas de estudo a quintas pedagógicas, entre outros locais.

“É importante que todas estas medidas sejam implementadas por equipas multidisciplinares. É importante haver investimento nos recursos humanos. A estratégia [Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável] é interessante porque é ambiciosa mas há objetivos muito claros a atingir até 2020 e às vezes para haver poupança de recursos é importante que haja investimento em recursos”, referiu Helena Real.

Partindo das definições da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), uma alimentação sustentável é uma alimentação mais amiga do ambiente, saudável, acessível à população, ou seja dando acesso facilitado aos alimentos locais e nacionais, e economicamente justa.

Ainda no âmbito deste tema, a APN criou recentemente o “Ebook Sustentabilidade Alimentar”, uma espécie de livro digital que está disponível gratuitamente em www.apn.org.pt.

Além de conceitos, esta ferramenta dedica um capítulo a refeições sustentáveis, sendo o objetivo “despertar a população e incentivá-la a fazer escolhas mais informadas”.

O ‘ebook’ é dedicado à população em geral e a profissionais de saúde, tendo a secretária-geral da APN exemplificado à Lusa o porquê da associação também apostar na sensibilização dos próprios agentes da área: “Hoje em dia já não é suficiente que um nutricionista diga que é importante consumir fruta, é importante que diga que é necessário consumir fruta de preferência fresca, local e sazonal”, exemplificou.

Paralelamente, em setembro, a APN retoma o ciclo de conferências mensais com uma iniciativa no dia 8 em Tavira, seguindo-se até ao final do ano Porto, Guimarães e Coimbra.

LUSA/SO/SF