Taxas de Mortalidade e Hospitais Universitários

Luís Gouveia Andrade

Luís Gouveia Andrade

Médico Oftalmologista

Hospital CUF Infante Santo

Existirá uma correlação?…

Eis um estudo interessante e que suscita múltiplas questões: será que num hospital universitário as taxas de mortalidade dos doentes internados são menores?

Este foi o ponto de partida para um estudo liderado por Laura Burke*, da Harvard T.H. Chan School of Public Health, em Boston: avaliar e comparar o prognóstico de doentes internados por um leque muito amplo de condições médicas e cirúrgicas em hospitais universitários versus não universitários.

Embora os hospitais universitários tendam a ser considerados mais dispendiosos, este trabalho sugere que eles podem oferecer uma vantagem qualitativa significativa.

Este estudo decorreu entre 2012 e 2014 e envolveu mais de 21 milhões de hospitalizações em 4483 hospitais dos Estados Unidos da América, incluindo unidades ligadas ao ensino em diversos graus e outras sem qualquer função académica. O parâmetro de avaliação principal foi a mortalidade a 30 dias.

Os resultados do estudo sugerem que os adultos idosos tratados em hospitais com responsabilidades de ensino apresentam uma menor probabilidade de morrer nas semanas e meses após a alta hospitalar, em comparação com pacientes semelhantes internados em hospitais não universitários.

De um modo global, a probabilidade de morte nos 30 dias seguintes após a admissão hospitalar foi 1,5% menor nos hospitais universitários do que nos restantes. Esta medida é importante por ser amplamente considerada um marcador da qualidade hospitalar.

Mesmo após ajuste dos resultados em função das características dos pacientes e dos hospitais que poderiam influenciar os dados, a diferença foi de 1,2%.

Olhando para estes números numa perspectiva mais palpável, eles significam que, por cada 84 pacientes tratados num hospital universitário, morre menos um do que se tivessem sido admitidos noutro tipo de hospital.

Se as taxas de mortalidade nos hospitais não universitários fossem semelhantes às dos universitários ocorreriam aproximadamente menos 58.000 mortes por ano.

E estes números já traduzem uma realidade bem mais substancial do que uma diferença de 1.2% poderia fazer crer…

As questões que emanam deste trabalho são, como referi, diversas. A primeira será perceber qual a razão, ou razões, para a diferença encontrada?

Será o acesso a tecnologia mais recente? Será a existência de serviços permanentemente disponíveis? Resultará do envolvimento dos profissionais nesses hospitais em investigação clínica? Será da própria essência do ambiente académico, que gera a procura e a necessidade constante de actualização de modo a garantir a qualidade do ensino e que acaba por se repercutir nos cuidados prestados aos doentes?

Provavelmente será uma combinação de todos estes factores…

Será, realmente, importante perceber o que justifica esta diferença e de que modo essa vantagem pode ser replicada em todos os hospitais.

Naturalmente, importa perceber que nem todos os hospitais são iguais e, para especialidades específicas, existem unidades mais vocacionadas para intervir de modo adequado. E isso tanto pode ocorrer em hospitais universitários ou não. Como tal, não de deve inferir que um paciente será melhor tratado num hospital onde se ensina Medicina do que noutros, mas o que verdadeiramente é relevante é identificar as diferenças e implementar medidas que as reduzam.

Não existe nenhum indicador que nos permita afirmar, de um modo taxativo, que um hospital é bom ou mau ou que um hospital é melhor do que outro. Existem escalas de avaliação e são publicados regularmente rankings mas, para cada caso concreto, o resultado final depende de um sem número de variáveis que não podem sem antecipadas.

Ou seja, para os pacientes não é importante saber se o hospital é universitário ou não mas se apresenta bons resultados em relação à condição clínica que motivou a consulta ou internamento.

É importante não esquecer que os hospitais que se dedicam à formação de profissionais de saúde são uma minoria, no caso do estudo em análise, cerca de 6% e, como tal, tudo o que puder ser extrapolado para as restantes Unidades, a maioria, será bem vindo.

Outro aspecto importante é, como sempre, o custo dos serviços de saúde. Quantificar eses custos de um modo primário, apenas com base na despesa, é um erro porque esse cálculo tem de tomar em consideração a poupança resultante dos menores dias de internamento, da produtividade recuperada, da menor mortalidade, etc. Nos Estados Unidos, alguns planos de saúde tendem a excluir os hospitais universitários, por serem mais caros, e este estudo mostra que essa visão tem de ser mais repensada.

De facto, embora os hospitais universitários possam gerar mais custos, existe uma contrapartida relevante que importa considerar.

Entender qual é esse factor independente que se traduz nas diferenças aqui encontradas a favor dos hospitais universitários. Eis um desafio à nossa reflexão…

*Association Between Teaching Status and Mortality in US Hospitals, Laura G. Burke e col., JAMA. 2017;317(20):2105-2113

Artigo escrito na grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990